São Paulo - Condenada a 19 anos e 11 meses de prisão pela morte e esquartejamento do marido, o empresário Marcos Matsunaga, em maio de 2012, Elize Matsunaga teve sua vida esmiuçada por testemunhas ao longo dos sete dias em que durou seu julgamento, encerrado na madrugada de ontem. Descrita por testemunhas como a "personagem de um conto de fadas com final infeliz", Elize cresceu sem a presença dos pais.
FoI um dos júris mais longos do Judiciário paulista, superando até mesmo outros casos midiáticos como o Nardoni, em 2010, que durou cinco dias. O crime foi considerado hediondo porque, segundo entenderam os jurados, ela utilizou meio que impossibilitou a defesa da vítima. Isso impediu que a agora condenada saísse do fórum da Barra Funda de São Paulo (zona oeste) com a possibilidade de deixar a prisão nos próximos dias.
Isso poderia acontecer se o crime tivesse considerado um homicídio intencional simples, com pena mínima de seis anos (e máximo de 20) e possibilidade de progressão após o cumprimento de um sexto da pena. Como Elize já está presa há mais quatro anos, tem, assim, tempo suficiente para pedir o benefício. Considerado hediondo, a progressão só pode ser requisitada após dois quintos da pena, porque não tem outros antecedentes criminais e tem bom comportamento na prisão onde está, em Tremembé. Pesou na decisão dos jurados os argumentos do promotor José Carlos Cosenzo de que uma condenação por homicídio simples seria muito benéfica a ré. "Se vocês condenarem pelo homicídio estarão a absolvendo. Ela sairá daqui do fórum na frente dos senhores", disse ele aos jurados. "Todo o Brasil está aguardando a decisão de vocês", disse o promotor.
Depois da decisão dos jurados, ele disse que vai analisar se vai recorrer. "Não ficamos satisfeitos", disse que queria uma condenação de ao menos 25 anos. A defesa disse que vai recorrer porque, segundo eles, a pena aplicada pelo juiz Adilson Simoni foi excessivamente, ao contrário do desejo dos jurados. "Ganhamos, mas não levamos. Essa é a sensação", disse Luciano Santoro, um dos defensores.
VIDA DIFÍCIL
Nascida em 29 de outubro de 1981 em uma pequena cidade do Interior do Paraná, Chopinzinho, ainda criança ela foi abandonada pelo pai. Depois de sair de casa, ele só voltou uma única vez. "Não veio para visitá-la. Ele pegou a televisão, uma TV pequena que tinha lá, e levou embora... para casa da outra", disse Roseli de Araújo, tia de Elize, e que se tornou sua "mãe de coração".
A mãe também deixou a filha e mudou-se para Curitiba. Quando Elize tinha 10 anos, ela voltou para Chopinzinho com um namorado que se instalou na casa em que viviam. Quando tinha cerca de 15 anos, Elize fugiu de casa. Foi localizada após mais de um mês em Gravataí (RS), a cerca de 700 quilômetros de Chopinzinho, apreendida pelo conselho tutelar e devolvida à família. Só depois os familiares ficaram sabendo que ela havia sofrido abuso sexual do padrasto. À época, sua mãe tomou partido: ficou do lado do namorado.
Elize decidiu, aos 18 anos, estudar enfermagem em Curitiba. Os estudos foram financiados com muito custo pela avó e sua tia - esta também era técnica em enfermagem. Foram cerca de dois anos estudando. A família nunca soube como e quando a estudante decidiu se prostituir em Curitiba. ia cursar a faculdade de direito, resolveu seguir o exemplo de uma amiga. "Eles (da minha família) me ensinaram o correto. Se eu segui no caminho torto não é culpa deles", disse Elize. Em 2004, publicou suas fotos em um site de garotas de programa. Foi nessa época, como "acompanhante de executivos", que conheceu o futuro marido, Marcos Matsunaga. Marcos era de família milionária, donos da indústria de alimentos Yoki, patrimônio estimado em cerca de R$ 1,7 bilhão. Ele se apaixonou. Romântico, amante de vinhos e restaurantes refinados, passou a tratar Elize como namorada e enchê-la de presentes. "Ela encontrou o príncipe encantado", disse o delegado Mauro Gomes Dias, aos jurados.