Durante muitos anos minha amiga me enviou belos cartões de Natal, desenhados por ela e com os augúrios apropriados, escritos em letras redondas de professora. Este ano, em vez do cartão, chegou uma mensagem eletrônica, sem a aquarela. Eu entendo, ficou mais prático. Menos trabalho. Os cartões anteriores estão guardados, porque únicos. A mensagem via internet, com o tempo, o próprio computador se encarregará de apagá-la.
Outro dia, li no JC que os Correios estão desativando as caixas de correspondência de Bauru, por falta de uso. Ninguém mais escreve no papel. As únicas cartas que recebo são de cobranças. Nem sempre foi assim. Quando a minha primeira namorada se mudou da cidade onde morávamos, a chama manteve-se acesa graças a troca assídua de correspondência.
O coração batia forte quando o carteiro gritava o meu nome com uma carta na mão. No sobrescrito, a mesma caligrafia e o envelope perfumado. Igual a letra do samba cantado pela Isaurinha Garcia com seu sotaque da Mooca. Páginas e páginas escritas de próprio punho, como se dizia antigamente. Vez por outra, um borrão na tinta. O "foguetinho" e a explicação na margem: "a lágrima que rolou". Eu devolvia com outro borrão: "pingo de uísque, para afogar as saudades". Um dia ela me escreveu com um ponto final. Arrumara um empresário bem de vida, disposto a casar-se com ela "imediatamente". Menina ajuizada...
Naquele tempo, ninguém dizia que ia comprar cigarros e não voltava nunca mais, mesmo tendo largado de fumar há anos. Deixava tudo registrado no papel - mágoas, traições confessadas e o "talvez um dia, quem sabe..." Era de bom-tom devolver as cartas e os presentes infungíveis. Reli algumas das cartas devolvidas e fiquei envergonhado com as minhas hipérboles ressaltando as qualidades da ex-namorada. Cheguei a chamá-la de "minha Via Láctea", "razão do meu viver". Queimei-as todas, numa fogueirinha no quintal.
Hoje não sinto mais aquela alegria de chegar em casa, abrir a caixa de correspondências e ser surpreendido com envelopes e selos dos mais variados e diferentes lugares. Como jornalista recebia muitas cartas. Cheguei a juntar envelopes com o meu nome escrito de diferentes maneiras. Curiosidades como Zé Ercilio, Zarello, Zebedeu... Os bancos, a operadora do cartão de crédito, a CPFL, a Vivo, nem querem mais mandar faturas em papel. Alegam que estão protegendo o meio ambiente. Cínicos. O cliente que autorize débito automático ou copie a fatura pela internet.
O que fizeram do "Venho por meio desta..."? O outrossim comercial desapareceu. Até que já foi tarde. Palavra horrorosa. Lamento pelo P.S., o Post Scriptum do latinorium que ninguém deixava de pôr ao pé da página fingindo ter esquecido do principal. Em tempo: soube outro dia que o bicentenário US Post, americano, declara ser impossível financiar-se com o produto dos próprios serviços. Os Correios da França inventaram envelopes com cheiro de chocolate e selo com sabor menta, na tentativa de incentivar o uso da carta. O US Post pretende criar uma espécie de repelente que desestimule cães e gatos que detestam carteiros e estraçalham a correspondência passada pela ranhura da porta. A pressa da vida moderna conspira contra a carta como documento afetivo, histórico, literário ou sociológico.
Li na internet (acabei aderindo), a carta da escritora canadense Isabelle Teissier sob o título "Quero estar solteira, mas com você". Viralizou. Ela procura alguém que tope. Avisa não querer se sentir presa a ninguém. Estar, sem ser. "Não quero que sempre me convide para as suas baladas e não vou convidá-lo para as minhas noitadas". A escritora vê sentido: "no dia seguinte um pode contar para o outro como se divertiu". A escritora recebeu mais de um milhão de pedidos de namoro. correspondência deixada por Flaubert é considerada mais importante que o seu mais famoso romance, Madame Bovary.
Como ele vivia isolado a carta era o seu meio de comunicação com o mundo. Mas o tom, é absolutamente íntimo. Inadequado para os meios eletrônicos de hoje. A produção epistolar de Machado de Assis tem o sabor de um velho vinho do Porto. Na internet, as mensagens são cifradas com receio das invasões.
Nem mais respeitam a Constituição que diz ser "inviolável o sigilo da correspondência". De repente a Polícia Federal pode entender que "mil beijos na sua boquinha vermelha" é prova da propina paga na construção do metrô Barra Funda-Itaquera.