| Alex Mita |
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| Fabricio Gimenes, psiquiatra |
O habitual balanço deste final de 2016 traz componentes de perdas de natureza econômica, social, institucional e política que podem servir a sentimentos negativos. Profissionais de psicologia e psiquiatria advertem que, não por acaso, aumenta a frequência de pessoas a procura de ajuda emocional nesta fase do ano, enquanto que os serviços de apoio, como a central telefônica do CVV,também registram movimento significativamente maior.
O estado de angústia e tristeza profunda, aliado a situações como o desemprego e o luto, podem desencadear quadro que exige atenção de familiares e amigos. Sem alarde, mas com o alerta de responsabilidade por parte de parentes e pessoas próximas, é no silêncio da tristeza profunda que quem está em sofrimento pode gerar novas tragédias, inclusive para dar cabo à vida, alertam especialistas.
Por esta razão, os profissionais que atuam nesse segmento advertem para a necessidade de observação e atenção especial dessas situações, sobretudo no período entre o Natal, a passagem e o início do Ano Novo. O psiquiatra Fabrício Gimenes comenta que a agenda de consultas fica abarrotada neste período.
"E isso não acontece por acaso. É uma realidade e preocupante. Aumenta significativamente a demanda por consultas nesta fase do ano. Neste período, em especial, o acúmulo de frustrações de natureza política, do País, na economia,na vida em sociedade potencializam essas situações", diz.
FASE
Fabrício conta que neste Natal, como no anterior, teve de atender pacientes até o início da tarde da véspera. "São duas questões envolvidas neste período. O acúmulo de questões negativas com o País, a corrupção, o desemprego, a crise econômica. E, de outro lado, vem a perda da referência da vida em família, o sentimento mais emotivo, de olhar pra dentro de si, que o próprio Natal e fim de ano alimentam. E a dificuldade em lidar com as frustrações ganha dimensão que apessoa não suporta", aborda o psiquiatra.
Da experiência em consultório, ele destaca que o quadro de tristeza, desesperança,avança ainda mais se a pessoa não conseguiu realizar planos ou sofreu outro revés. "Há uma tristeza em curso pela não realização de ações nessas pessoas e visivelmente o momento social e do País junto com as frustrações pessoais potencializam a negativar tudo. É preciso que os familiares, as pessoas próximas estejam atentas a esse modelo de comportamento ancorado na frustração, na tristeza, para poder ajudar e evitar o pior", reforça.
Estão nesse 'pacote' de circunstâncias o aumento do consumo de substâncias psicoativas e, em boa parte dos casos, associada ou não ao álcool. O quadro abre janelas para síndromes.
"Todos esses ingredientes, associados ao perfil do próprio paciente, abrem um quadro de síndrome depressiva. Apresentam-se a anergia (perda de energia para agir),anedonia (perda de vontade de fazer algo), isolamento social e, com frequência,choro fácil ou disperso. Quem é da família deve observar e buscar ajuda, porque quem está no furacão demora a perceber que está enfiada na crise, na desesperança. Há riscos sérios em questão, como o suicídio, e isso precisa ser levado em conta", adverte.
Fabrício Gimenes revela que esteve, no início de dezembro, em encontro com profissionais de sua especialidade de outras partes do mundo. "Os profissionais de outras partes do mundo demonstraram muita preocupação com a situação do Brasil,a sociedade. Eles estão mais preocupados com a gente do que nós mesmos. É o arrimo de casa que perde essa condição, a crise pressionando o consumo, gerando doenças como hipertensão, obesidade, infartos, pessoas perdendo padrão de vida,outros com emprego ameaçado, milhares sem o emprego. Há desespero, frustração,tristeza, angústia. E isso agrava o quadro social. Os efeitos de episódios como a Bolha Imobiliária EUA, a crise na Grécia, em Portugal, foram marcadas por perdas em escala. Os profissionais lá de fora estão preocupados com esses efeitos aqui no Brasil", pontua.
Perdas estão presentes em qualquer etapa da vida das pessoas
As perdas, de qualquer natureza, fazem parte das etapas da vida, mas as pessoas não estão acostumadas a refletir e nem a lidar com elas. Por sinal, a perda mais presente na trajetória humana é a morte.
Para a psicóloga Carmem Neme, a dificuldade na convivência e assimilação de perdas ao longo do desenvolvimento humano explica, em boa dose,a dificuldade em lidar com o acúmulo de frustrações no tempo. "A vida é permeada de perdas, mas as pessoas costumam se situar apenas em relação à perda associada à morte. O ser humano perde a infância, perde a adolescência, perde os brinquedos, em determinada fase perde seu quarto na casa de seus pais. São perdas significativas, mas que passam pela vida das pessoas de forma diferente", posiciona.
Delimitado que sofrer perdas faz parte da trajetória devida, Neme reforça que elas, por esta razão, acontecem em nível social,cultural, econômico, emocional. "E neste ano de 2016 em todos os níveis aconteceram perdas e de ocorrências que mobilizam toda a sociedade e evidenciam a miséria humana, a ganância, a irresponsabilidade, o descaso, o desrespeito. A somatória dessas situações geram descrédito, geram sentimento de desesperança e,por esta razão, é uma situação muito pior que a perda individual. São sentimentos que afetam milhões de pessoas", lembra.
De outro lado, além da dificuldade na compreensão e convivência com perdas ao longo das etapas da vida, Carmem correlaciona que essas ações nem sempre geram processos de transformação, o que seria essencial."Na perda por morte, há o necessário luto pela transformação. Mas nas perdas que atingem a sociedade, todos sentem os efeitos, mas o mal continua sem resolução e ainda apresenta suas consequências. Então, a pessoa não só fica paralisada diante dos prejuízos que sofre, os efeitos, mas se vê diante de uma dor que não atinge só ela e que demora mais tempo para ser dissipada. Por vezes são perdas que nem são resolvidas", acrescenta.
Assim, Carmem Neme considera que as perdas de natureza social são as mais difíceis porque geram desesperança e descrédito que contaminam todo o ambiente da vida coletiva. "Isso mina a energia das pessoas, das empresas, das instituições. E o resultado negativo é muito pior. E esse desequilíbrio atua sobre outras forças sociais e o indivíduo sofre muito mais. Ele está mal com suas perdas e o mundo ao seu redor também vai mal e isso tudo é péssimo", aborda.
A psicóloga lembra que perdas paralisam estados emocionais e suscitam raiva e tristeza. "A pessoa já está triste porque seu País não vai bem, a corrupção toma conta do noticiário, a tragédia surge em Mariana (MG)na área ambiental e no avião de jogadores do time de Chapecó. Neste turbilhão estão milhões que perderam emprego e se tornam ainda mais alvos da situação ruim", reforça.
Para Neme, a convulsão de fatores negativos se agrava."E aqui reside o perigo maior. Com tudo ruim e sem emprego ou com o luto pela perda de um ente querido, essa pessoa tende a acionar compensações emocionais graves, como o suicídio, as separações entre casais, a violência, o vício. O agravamento, o fundo do poço, é muito preocupante",finaliza.
