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A busca pela felicidade

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Segundo muitos autores, um dos grandes projetos inseridos na agenda humana para este século será encontrar a chave para a felicidade. Muitos pensadores modernos consideram a felicidade um projeto coletivo, avaliando o sucesso de um povo ou do país pelo tamanho de seu território, pelo aumento de sua população e pelo crescimento do Produto Interno Bruto.

    

Evidentemente, a produção é importante porque provê a base material para a felicidade, mas ela constitui apenas um meio, não um fim. Sem planejamento governamental que vincule o aumento da população com o correspondente aumento da infraestrutura, sem uma renda digna, sem pesquisa científica e educação de qualidade ninguém conseguirá ir muito longe em sua busca pela felicidade. Se seu país foi dilacerado pela corrupção, se a economia está em crise e se o acesso à saúde é inexistente, é bem provável que você seja infeliz.


Sabe-se que, desde a aurora da humanidade, as pessoas buscam a felicidade. Na Grécia antiga, o filósofo Epicuro (341 – 271 a.C.) definiu a felicidade com um bem supremo e advertiu seus discípulos que ser feliz exige trabalho duro.


Segundo Yuval Noah Harari (em Homo Deus – 2015), a impressão que se tem é de que nossa felicidade vai de encontro a um misterioso teto de vidro que não permite seu crescimento. Mesmo que provêssemos alimentos grátis para todos, curássemos todas as doenças e assegurássemos a paz mundial, tudo isso não iria necessariamente despedaçar o teto de vidro.

     

Segundo ele, o teto de vidro da felicidade é mantido no lugar por dois pilares sólidos, um psicológico e outro biológico. No nível psicológico, a felicidade depende mais das expectativas ao querermos que a realidade corresponda a essa nossa expectativa. Alguns dirão que isso não é ruim, porque não é o objetivo que nos torna felizes, mas a expectativa que enseja a jornada. O problema é que nossas expectativas sempre se inflam, sempre buscamos outras jornadas, pois os desafios de ontem tornam-se, rápido demais, o tédio de hoje.


No nível biológico, tanto nossas expectativas como nossa felicidade são determinadas pela bioquímica. Ficamos felizes quando desfrutamos de sensações agradáveis e nos livramos das desagradáveis, isto é, a felicidade nada é senão o prazer e a libertação da dor. A má notícia é que as sensações agradáveis também passam rapidamente e mais cedo ou mais tarde, podem até se tornar desagradáveis.


O sistema bioquímico só nos recompensa com rápidas sensações agradáveis por ações vinculadas a nossa sobrevivência e à reprodução. A busca bioquímica da felicidade, através das drogas, é a principal causa do crime no mundo e, particularmente no Brasil, ela já é uma ameaça à ordem social e econômica.


Na verdade, nunca queremos um prazer momentâneo. Nossos desejos mais profundos não se limitam a quinze minutos de fama, a uma descarga temporária de adrenalina ao fechar um negócio ou o alívio temporário proveniente de um analgésico. Não queremos ser amados por nossos pares por um período apenas limitado de tempo. Não queremos ser saudáveis somente durante metade de nossas vidas.


A Cabala nos ensina que, não importa quantas guerras, doenças, fome, depressões e desastres naturais nos abatam, acabamos sempre nos recompondo, determinados em nossa busca por conforto duradouro, alegria interminável e prazer permanente. Nos ensina que os desejos não aparecem por vontade própria e cita um exemplo: um índio de uma tribo ainda desconhecida na Amazônia não iria acordar amanhã com um súbito desejo de um capuccino duplo ou de um big mac.

O sabor precisa ter sido sentido antes. Então, não é interessante que, desde sempre, as pessoas tenham sido inexoráveis em sua busca pela felicidade? Por isso, é razoável supor que devemos ter experimentado a felicidade antes. No recesso de nossa alma sabemos que será possível nos conectarmos com a felicidade. Não se trata de uma busca cega e sem sentido.


Mas, infelizmente, não importa o que as Religiões, a Cabala, os filósofos ou o que Buda nos ensinam, não importa o que dizem os monges em suas cavernas no Himalaia. Para o rolo compressor da vida atual, felicidade é prazer. Ponto. E a cada ano que passa percebo que diminui a tolerância de nossos jovens às sensações que não oferecem prazer e aumenta sua ânsia por sensações que o provocam. No entanto, para alcançar a felicidade real, os humanos têm que desacelerar e não acelerar em sua busca por sensações prazerosas, pois, qual o sentido de correr atrás de algo que desaparece tão rápido quanto surge?


O autor é professor titular aposentado do Dpto de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp

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