Tribuna do Leitor

Vi e vi

Roberto Magalhães é professor de redação e membro da Academia Bauruense de
| Tempo de leitura: 4 min

Cinco anos de casamento, mais dois de namoro. Mas casamento pra valer, desses em que cada um cola o corpo no corpo e na alma do outro. Desses em que, nas divisões da casa, cada um sabe exatamente onde o outro está. Desses em que, se mais distantes estão, a saudade exige o mais rápido reencontro. Unidos e completos, assim viviam Clotildes e Pedro Afonso. Na intimidade, ela até poderia ser Clozinha e ele, possivelmente, Pê. Não eram. Eram Vi e Vi. Vi porque, no começo dessa história, um passou a chamar o outro de Love. Depois, caindo mais açúcar na boca, Love virou Lovinho.


De Lovinho para o romântico Vinho foi apenas um passo. Ninguém entendia por que um chamava o outro de Vinho. Que ligação haveria entre a nobre bebida e o invejável amor que os unia? Foi então que eles perceberam que cada corte trazia mais prazer no jeitinho de se chamarem. De Love para Lovinho; de Lovinho para Vinho; de Vinho para Vi. Por força monossilábica, tiveram que encerrar esse trajeto de tão poéticos vocativos. Chegaram assim à perfeita e irredutível identidade: Vi e Vi.


Reunidas, as amigas martelavam, como sempre, o velho tema da inutilidade dos maridos. Clotildes, que para elas era Clô, saía logo em defesa do Vi, que para elas era Pedro Afonso. Claro, eu concordo que não existe homem perfeito, dizia a Clô, entonando um ponto acima, mas que existe um homem perfeito para uma determinada mulher e só para ela, ah! isso existe sim. E, quando isso acontece, a mulher, por uma questão de justa reciprocidade, passa a ser perfeita para ele também. Intrigadas, as amigas não entendiam tão confusa teoria. Nem de palavras a gente precisa para se entender, rematou Clotildes. Por exemplo, eu sei muito bem - e como sei! - o que significa quando a sobrancelha do Vi sobe.


Aí vem coisa... Sei também o que ele está sentindo quando entorta um pouco a boca à direita. Conheço o exato sentido de cada olhar. Me desculpem o clichê, mas o Vi é um livro aberto para mim. Agora, tem uma coisa: assim como eu conheço tudo dele, ele sabe tudo de mim. É incrível como o Vi me lê por dentro e por fora. Se penso esconder alguma coisa dele, desisto, impossível. Chegamos ao ponto de nos pegarmos muitas e muitas vezes pensando a mesma coisa, fantástico não acham?


Pior que sim, as amigas eram testemunhas desse conto de fadas injusto. Por que um príncipe para a Clô e os sapos para elas? Engoliam a seco a sorte da amiga princesa, que não se fartava de ser tão feliz.


A boa vontade entre eles era tanta, que superava qualquer lance cotidiano com potencialidade explosiva. Um exemplo: Paulo Afonso adorava ovo frito com pão. Cortava pacientemente todas as fatias em rodelinhas de igual medida; depois alinhavava-as sobre a toalha de forma perfeita; depois, ia raspando no prato vagarosamente, uma por uma, no suculento da gema. Sujava os dedos, lambuzava a boca, escorria amarelo pelo bigode, manchava a toalha e respingava tudo na camisa limpinha. Depois, fechava os olhos e, extasiado, murmurava a frase de sempre: “Ovinho de Deus, eu não saberia viver sem você!” Qualquer mulher normal faria um barraco diante de tão gemosa situação. Qualquer mulher, menos a anormal Vi. Sentada ao lado do porcalhão, ria feliz por vê-lo comendo assim tão bonitinho... Se nem o ovo nojento irritava a Vi, o que, Deus do céu, poderia desuni-los? Uma bomba atômica? Quem sabe?


Chegando de surpresa à casa da amiga, Isabel flagrou o inesperado: Pedro Afonso, de sobrancelha erguida, estapeava a Clotildes. Tentaram disfarçar. Inútil, a cena não deixava dúvida. Pedro Afonso resmungou qualquer coisa e sumiu. Embora Isabel fosse a melhor amiga da Clô, não pôde deixar de sentir aquele gostinho do “demorou, mas te peguei”. Como você não me conta uma coisa dessas, amiga? Vamos à polícia já denunciar esse canalha!


Calma, Isabel, calma... Nada de polícia. Era verdade, ele gostava de bater sim, mas ela gostava de apanhar. E ele batia de um jeito bom, nenhuma marca, só prazer. E depois dos tapas, aí vinha o melhor: sexo selvagem...


Isabel engoliu seco uma vez mais. Incrível, os desgraçados em tudo combinavam: na saúde, na doença, na riqueza, na pobreza e até nos tapas. Identidade conjugal perfeita. Não, não contaria nada às amigas. Pra quê? Ninguém suporta tanta felicidade assim.

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