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A sangria do agonizante Velho Chico

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

No dia 20 de janeiro, o presidente Temer inaugurou em Floresta, no Sertão de Pernambuco, a terceira estação de bombeamento do Eixo Leste do projeto de transposição de águas do rio São Francisco. O funcionamento da nova etapa permitirá o abastecimento de água por uma extensão de 60,9 quilômetros e deve atender a cerca de 30 mil pessoas.. “Ainda este ano nós vamos inaugurar o Eixo Norte, fora tantas outras obras complementares que visam a trazer água para a região do Nordeste”, ressaltou o presidente.


A ex-presidente Dilma deve ter ficado enfurecida com a euforia do seu sucessor, inaugurando um dos seus sonhos de grandeza.  Contudo, por trás desse entusiasmo do atual governo existe uma triste história. O projeto de transposição das águas do São Francisco, que foi pensado ainda no governo de D. Pedro II, se soma aos muitos outros projetos que consumiram incalculável soma de dinheiro público com a finalidade de resolver o problema das secas do Nordeste. Esse, iniciado em 2007, que deveria custar R$ 4,0 bilhões e ser inaugurado em 2015, já custou R$ 8,371 bilhões e ainda faltam 10% para concluir as obras até 2019.

   

“É um programa inócuo”, avalia João Abner Guimarães Júnior, professor de recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aziz Ab’Sáber, geógrafo respeitado, que era Professor Emérito da FFLCH da USP, avaliou que “a transposição acabaria por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social de grande custo.” Assim também outros colocam em dúvida a eficácia desse projeto, lembrando a história de fracasso  da Sudene, extinta e recriada para servir à ‘indústria da seca’, sustentáculo de políticos com as falsas promessas de defesa da sofrida população do Polígono das Secas.

    

E enquanto os recursos públicos alimentam políticos e corruptos, as paisagens descritas por Raquel de Queiroz, em “O Quinze” e por Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, continuam atuais, com o drama das famílias passando fome e vendo sua criação morrer. Sob a caatinga ressequida, os esqueletos de gado refletem o flagelo da seca.


Não é a sangria da irrigação da nova agricultura do Semi Árido e esta da transposição das águas, que estão matando o Velho Chico, mas o desmatamento, a poluição e as queimadas, das nascentes e ao longo de seu curso. Há 216 anos, o naturalista Alexander Von Humboldt, percorrendo a região do lago de Valencia, na Venezuela, ouviu dos agricultores que as águas da lagoa vinham diminuindo.


Ele fez medições e em seus documentos escreveu: “Quando as florestas são destruídas, as fontes de água secam por completo ou se tornam menos abundantes. Os leitos dos rios, permanecendo secos durante parte do ano, são convertidos em torrentes toda vez que caem pesadas chuvas em suas cabeceiras. Desaparecendo a relva e o musgo, juntamente com a vegetação rasteira nas encostas das montanhas, as águas das chuvas não sofrem obstrução em seu curso e, em vez de aumentarem lentamente o nível dos rios, por meio de progressivas filtragens, sulcam os declives das colinas, empurram para baixo o solo solto e formam as vastas inundações que devastam o país”. Humboldt foi o primeiro a explicar as funções fundamentais da floresta para o ecossistema e o clima.

    

O curioso é que, se o interesse em usar o rio para amenizar o problema das secas é de mais de um século, o interesse em revitalizar o rio só começou em fins do século passado com o movimento da sustentabilidade. Mesmo assim, de forma tímida. O primeiro projeto com objetivo correto e consistência programática é de 2001, deixado pelo governo de FHC, que Lula não ignorou, mas só reformulou em 2009, com um projeto mais abrangente. A implementação, entretanto, não seguiu a sua sistemática, pautando-se por medidas oscilantes com os interesses políticos e a ideologia do lulopetismo. Continuaram as ações de demarcação de áreas de reserva ecológica e de proteção ambiental e projetos especiais para os programas de assentamento.

    

O que tem sido feito não impediu que o Velho Chico continuasse morrendo e agora o presidente Temer acaba de lançar o “Novo Chico”, prevendo uma aplicação de R$ 1,0 bilhão até 2019, que envolverá estados e municípios, porque o problema é de todos. Basicamente as ações serão de combate ao desmatamento e à poluição por lixo urbano, por efluentes industriais e rejeitos da mineração, bem como a proteção de mananciais e prevenção de queimadas. Vale lembrar, contudo, que a revitalização exige mais que demarcar áreas e estabelecer proibições. É preciso ajudar a natureza a se reconstruir e a maneira mais adequada para refazer a mata, a fauna e os rios é o reflorestamento por espécies nativas, como vem fazendo o “Instituto Terra”, criado por Sebastião Salgado e que deveria transformar-se em um programa da nação brasileira, para devolver à natureza o que séculos de degradação ambiental destruiu.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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