Bairros

Jardim Bela Vista concentra os novos semáforos em 2017

Nélson Gonçalves e Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 14 min

Samantha Ciuffa
Ruas Primeiro de Maio e Alto Acre no Jardim Bela Vista: motoristas cortam a cidade

O Jardim Bela Vista concentra a maior demanda por instalação de semáforos em Bauru, seguido da Vila Falcão, e está no topo da prioridade para o recebimento do equipamento em cruzamentos em 2017. A informação é da gerência de planejamento e sinalização viária da Emdurb. 

A cidade conta com 197 cruzamentos semaforizados, com concentração natural na região central e ao longo das avenidas, como ocorre em cidades de porte médio. Entretanto, à medida que o centro urbano sofre descentralização, sobretudo com o aumento horizontal das áreas edificadas, há o espaçamento de equipamentos nas diferentes áreas de atuação do poder público. Com a sinalização não é diferente.

Para o gerente de planejamento e sinalização viária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), Aníbal Ramalho, esta situação forma corredores. 

“A expansão urbana da cidade gera naturalmente a formação de corredores. E, nesses corredores, algumas regiões fazem o papel de interligação entre regiões. É o caso da região do Bela Vista, o que abrange saídas e alternativas viárias para mais de um bairro. Aliado a isso, o Bela Vista forma conexão com bairros próximos e a geografia urbana passa por lá em muitos casos. A densidade populacional aliada a esse aumento de movimento interbairros gera natural demanda por novos conjuntos semafóricos”, explica o engenheiro. Ou seja, são vários os casos em que os usuários do transporte precisam “cortar o Bela Vista para chegar ao destino. 

Panorama similar acontece na região da Vila Falcão, acrescenta Ramalho. “É um corredor também com característica de interligação. Um fluxo considerável de veículos tem de passar por algumas ruas da Vila Falcão para acessar outras localidades. E isso também vale para chegadas e partidas da cidade no caso das vias que chegam à avenida Elias Miguel Maluf, por exemplo, que é uma extensão rodoviária inserida na malha urbana naquele trecho”, pondera.

Aumento de fluxo e utilização de vias com interface entre regiões diferentes geram demandas por sinalização. Mas, apesar disso, boa parte das solicitações por semáforos em Bauru não alcançam os indicadores técnicos necessários para receber o equipamento. 

Ou seja, é comum o usuário solicitar baseado na sensação leiga de necessidade do equipamento, uma espécie de reação espontânea vinculada à sua maneira de classificar perigo na via. 

“As solicitações de instalação de semáforos refletem, em boa parte, a vontade pessoal, natural de moradores. E isso é esperado que aconteça. O que as pessoas nem sempre aceitam é que existem padrões definidos por pesquisas, existe metodologia para definir se o pedido reflete a necessidade ou não”, comenta.

Onde serão os 4 semáforos deste ano?

O plano de instalação da Emdurb para este ano prevê a instalação em quatro 
dos 15 endereços onde há necessidade técnica confirmada pela área de planejamento

A cidade de Bauru terá a instalação de quatro equipamentos semafóricos neste ano, de acordo o planejamento viário da Emdurb. Conforme a área de gerenciamento e sinalização viária da empresa municipal, foram identificados 15 locais com viabilidade para receber o equipamento. Desses, foram escolhidos quatro locais prioritários em função da disponibilidade orçamentária.

O confronto entre pedidos e pesquisa de tráfego e de acidentes no local é quem define a triagem. “A estatística de solicitações de semáforos contém muitos pedidos repetidos. Isso é natural, já que moradores, lideranças de bairros e vereadores reforçam as solicitações, por requerimento, de tempos em tempo. Todas as solicitações são cadastradas. Esses dados são cruzados com as pesquisas de tráfego. Hoje temos as prioridades para 2017 em quatro cruzamentos, sendo dois deles na região da Bela Vista, um na Vila Falcão e outro na concentração comercial ligada ao tráfego da Avenida Otávio Pinheiro Brisola, após o campus da USP”, observa o gerente de planejamento e sinalização viária da Emdurb, Aníbal Ramalho.

Aníbal menciona que a rua Alto Acre assume, há tempos, o papel de “enorme corredor de tráfego, situação que também acontece em outros endereços com característica semelhante, como a rua Campos Salles na Vila Falcão. É endereço natural para acesso a vários bairros, em uma região densamente habitada e que serve também de saída para rodovia”, explica Ramalho. Deste ramal de fluxo, os cruzamentos da rua Alto Acre com a rua 1º de Maio e, depois, com a Rua Francisco Alves despontam.

Já em outro cruzamento, como na Otávio Pinheiro Brisola com a Rua Antonio Garcia, o volume é tão intenso que não colocar semáforo significa praticamente paralisar o tráfego. “Você tem locais onde há associação de corredores com muita travessia em diferentes sentidos. E em locais populosos, como o Bela Vista. Priorizamos onde a situação é mais crítica”, aborda.

Nem sempre, contudo, a pesquisa de volume de veículos é fator determinante. “Você tem também casos específicos onde se não colocar semáforo quem está de um lado do bairro não atravessa para o outro lado. Em alguns pontos da Avenida Comendador da Silva Martha isso já aconteceu. Foi necessário instalar o semáforo para permitir que usuários de bairros adjacentes pudessem acessar o outro lado e vice-versa”, cita Ramalho.

Por fim, o engenheiro salienta que a Emdurb mantém trabalho conjunto com a Polícia Militar e outros departamentos ligados ao trânsito. “Se em um determinado dispara o número de acidentes, uma equipe multidisciplinar analisa as condições do solo nesse local, de sinalização e analisamos sob o ponto de vista da engenharia de trânsito. Algumas vezes, mudanças pontuais na sinalização de solo ou na condição da via resolvem. Se for necessário semáforo, nós apontamos e isso entra no planejamento”, conclui Aníbal.

O que interessa: tráfego e acidentes

Entre os principais indicadores levados em conta na metodologia para que determinado cruzamento integra a lista de planejamento para receber semáforo, a pesquisa de volume de tráfego e o número de acidentes são essenciais.

Aníbal Ramalho explica como é realizado o trabalho. “Um setor da Emdurb cadastra as solicitações. A gerência de planejamento faz a análise e verifica os indicadores de acidente. O acompanhamento da rotina viária da cidade também forma conjunto natural de informação. Separamos os locais prioritários e fazemos pesquisa de volume de tráfego”, informa.

E como é realizada a pesquisa in loco? “A contagem é feita por 12 horas em dia típico (terça e quarta-feira), das 7 às 19 horas. Isso inclui separar a análise do dado para horário de pico. Indicadores acima de 600 veículos/hora na media das 12 horas para via principal e 200 veículos/hora na média para a vida secundária do local formam os principais parâmetros. Esses dados são levados em conta, assim como características de engenharia do cruzamento”, aponta o engenheiro.

Aníbal comenta que, regra geral, o leigo embasa sua solicitação em sua sensação de perigo. “E é natural que o leigo faça pedidos que na maioria não se convertem em necessidade real. A sensação de risco, ou de apelo por segurança tem componente emocional. E respeitamos a posição do usuário. Os critérios de análise, porém, são técnicos”, salienta.

Manutenção e custo

A demanda mais comum para a área de sinalização viária é manutenção. 
Segundo o setor, a falta de energia responde pela maioria das requisições de serviço. “A falta de energia ocasiona a queima de controladores, módulos lógicos, módulos de potência, lâmpadas de LED e fusíveis”, esclarece o setor. E como corrigir o problema?   

“A Emdurb mantém rotina de deslocamento de equipe até o cruzamento onde se apresenta problema. É realizado o diagnóstico e em geral o conserto depende de substituição de uma peça, seja o controlador, o módulo, a lâmpada. O custo depende de cada item”, responde.

Há cruzamentos com semáforos com controladores de tempo fixo, sendo a maioria multiplano, ou seja, com mudança de plano de tráfego no decorrer do dia.

Os custos desses serviços são pagos à Emdurb através de nota fiscal emitida todo mês à Prefeitura, contratante da empresa para o segmento. Para um cruzamento simples (rua com rua), o valor estimado é de R$ 30 mil, segundo a Emdurb.

A história da origem dos semáforos

Os semáforos já eram usados antes mesmo dos carros serem inventados, embora existam questionamentos a respeito disso. Para se deslocarem, as pessoas utilizavam cavalos, vagões de trem e outros meios de transporte. Apesar da densidade populacional não ser igual à de hoje, mesmo assim o tráfego era intenso nas maiores cidades do mundo.

Em Londres, por volta de 1868, controladores de trânsito decidiram implementar um dispositivo básico de controle: uma lanterna a gás com duas luzes - vermelho e verde - e dois braços, que eram movimentados por policiais.

Durante o dia, a posição dos braços indicava se o trânsito podia andar ou devia parar, da seguinte forma: se estivessem na horizontal, indicavam a obrigação de parar, se estivessem posicionados a 45 graus davam permissão de se seguir viagem. Já durante a noite a luz verde significava “cuidado” e a luz vermelha indicava que se devia parar.

No início do século XX, os transportes estavam ainda em transição. Algumas pessoas usavam os novos automóveis, outras ainda usavam cavalos, vagões de trem ou bicicletas. É claro que todos compartilhavam as mesmas estradas e ruas com os peões. Isso resultou em séries de acidentes, muitos deles mortais.

Divulgação
Primeiro semáforo da Europa, em Berlim (Alemanha), 

era uma torre nos cruzamentos, operado por policiais

A Alemanha resolveu abordar o problema construindo torres no meio de cruzamentos da cidade de Berlim. Nessas torres trabalhavam policiais dentro de umas cabinas, que mudavam as luzes conforme necessário. Este tipo de torre, que teve várias variações durante as décadas seguintes, foi muito utilizada em Nova York, a partir de 1916. Foi nos Estados Unidos que nasceu o sinal de três cores, pensado e criado para gerir o trânsito nos cruzamentos.

Um policial de trânsito da cidade de Detroit, chamado William L. Potts, sentiu que algo tinha de ser feito. A sua inspiração veio dos sinais ferroviários automatizados. Mas a diferença era que as vias ferroviárias seguiam um caminho de sentido único e sem cruzamentos de vias, enquanto que as ruas possuíam dois sentidos e cruzavam-se entre elas em ângulos retos.

Potts concebeu um dispositivo de trânsito que poderia controlar ruas de quatro sentidos. Ele usou três cores, vermelho, amarelo e verde. Colocou o sinal ligados a controlos eléctricos e fios. Em 1920, instalou o primeiro entre a avenida Michigan e a rua Woodward. Foi um sucesso tão grande que a polícia de Detroit instalou mais 14 em 12 meses. Estes foram os primeiros sinais de trânsito automáticos do planeta.

É óbvio que a invenção de Potts não foi a última a ser imaginada para os sinais de tráfego. Em 1923, Garrett Morgan de Cleveland, Ohio (EUA), inventou e patenteou o seu próprio sinal de trânsito. Tratava-se de um semáforo formado por uma haste em forma de T e que desempenhava três ações na gestão de tráfego: parar, ir e parar todos em todas as direções. Sem dinheiro, Morgan vendeu os direitos da sua invenção à General Electric Corporation por 40 mil dólares.

Hoje, os semáforos mais inteligentes já são geridos por computadores ligados a câmeras e sensores que os fazem funcionar conforme o fluxo de trânsito, a hora do dia e até o tipo de viaturas que se apresenta em determinada via.

Do temor ao alívio

Os vizinhos dos quatro cruzamentos que receberão semáforos ainda neste ano já presenciaram de tudo um pouco, inclusive, acidentes graves

Samantha Ciuffa
Irani Romano esperava uma solução para o cruzamento onde possui uma loja de embalagens, bastante perigoso, há 14 anos

Proprietário de uma loja de embalagens situada entre as ruas Primeiro de Maio e Alto Acre, na região do Jardim Bela Vista, em Bauru, Irani Romano, de 62 anos, esperava uma solução para o cruzamento, bastante perigoso, há 14 anos. Finalmente, o local é um dos quatro que receberão semáforos ainda em 2017. 

Romano relata, ainda, que o estabelecimento do qual é dono já foi invadido por veículos três vezes, em ocasiões distintas, sendo que uma delas se deu há mais de três anos, momento em que um Chevrolet/Ômega colidiu contra o balcão. “Sorte que não havia nenhum funcionário por trás do espaço. Algo pior poderia ter acontecido”, reconhece.

Temendo uma reincidência, o empresário chegou a transferir o balcão para outro local. “São poucos os que prestam atenção na sinalização de trânsito e no controle da velocidade. Dá nisso”, desabafa Romano, que ficou aliviado ao saber que o problema, enfim, terá solução.

Já a funcionária de uma mercearia localizada ao lado da loja de Romano, que optou por não ser identificada, revela que, em 2016, os moradores organizaram um abaixo-assinado. Na época, o intuito era solicitar que a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) instalasse o semáforo no cruzamento. “Deu certo”, comemora, com entusiasmo.

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Recentemente, uma bebê de 1 ano e 10 meses foi arremessada pela janela de um Celta, após o veículo colidir contra outro

NO MESMO BAIRRO

Além disso, na esquina deste cruzamento, especificamente, entre as ruas Alto Acre e Francisco Alves, também na região do Bela Vista, há outro local problemático. O aposentado Giné Gonsales, de 80 anos, vive em frente ao espaço há 45 anos e, desde então, tem reclamações a fazer.

Antes, Gonsales vendia verduras sobre a calçada, em frente à sua casa, mas do outro lado da rua Alto Acre. Agora, teve de sair do espaço, que é alvo dos carros apressados, constantemente. Inclusive, o muro de uma das residências está depredado, em consequência das incontáveis colisões. 

Proprietário de um açougue situado ao lado da casa do aposentado, Odair Pereira dos Santos, de 42 anos, relata que já viu bastante acidente grave neste cruzamento. “Muita gente se machucou e alguns moradores ficaram prejudicados, porque os carros invadiam as suas casas”, denuncia.

Sobre a iminência da instalação de semáforos, o empresário é só elogios. Ele defende que, além de evitar colisões graves, os motoristas irão prestar um pouco mais de atenção em seu estabelecimento, sempre que o sinal ficar vermelho.

Solicitação antiga

Samantha Ciuffa
O aposentado Giné Gonsales, de 80 anos, vive em frente ao cruzamento entre as ruas Alto Acre e Francisco Alves há 45 anos e, desde então, tem reclamações a fazer

No dia 26 de fevereiro de 2016, o JC noticiou que o cruzamento entre a rua Antônio Garcia e a alameda Doutor Octávio Pinheiro Brisolla, no Jardim Pagani, deixava seus vizinhos com os cabelos em pé, devido à quantidade de acidentes. Na época, a Emdurb alegou que o trecho receberia semáforo no mesmo ano, porém, a promessa só deverá ser cumprida em 2017.

Frentista de um posto de combustíveis próximo ao endereço, Jonathan Lee Brasil Silva, de 22 anos, observa excesso de velocidade e intenso fluxo de veículos. “O pessoal tem pressa e acelera, não quer saber”, acrescenta.

Já a proprietária de uma lanchonete situada em frente ao trecho, Maria de Lourdes Fermino Lopes, de 46 anos, revela que o local beira o caos, assim que o sol se põe. “Se houver semáforo, irá facilitar, principalmente, para os idosos, que sofrem para atravessar a rua”, destaca.

Samantha Ciuffa
Recentemente, um veículo colidiu contra o muro de uma residência, entre as ruas Alto Acre e Francisco Alves

Após colisão, bebê é arremessada de carro

Dono de uma loja de produtos orientais, Walter Shigueyuki Hirata, de 52 anos, trabalha no estabelecimento, situado entre as ruas Wenceslau Braz e Carlos de Campos, na região da Vila Falcão, há, aproximadamente, 20 anos. Desde então, nota que o cruzamento abriga, em média, quatro acidentes ao mês.

O mais recente se deu no último dia 1 e, por sorte, não teve um desfecho trágico. Conforme o JC já noticiou, uma bebê de 1 ano e 10 meses, que estaria presa a uma cadeirinha, foi arremessada pela janela do carro, após uma colisão. O equipamento não estava preso ao cinto de segurança.

A colisão ocorreu por volta das 12h50 e, segundo o boletim de ocorrência (BO), a bebê seguia em um GM/Celta, preto, com a mãe, de 32 anos. Ao atingir a quadra 7 da rua Carlos Marques, por motivos a serem apurados, o veículo colidiu contra a lateral de um Fiat/Siena, prata, que seguia pela Wenceslau Braz e era conduzido por uma mulher de 39 anos.

Na sequência do primeiro impacto, o Celta foi lançado, ainda, para o lado e acabou batendo em um Fiat/Palio, cinza, que estava estacionado na rua Carlos de Campos. Nenhum adulto ficou ferido. Já a bebê foi socorrida por uma Unidade de Resgate (UR) do Corpo de Bombeiros até o Pronto-Socorro Central (PSC).

RECORRENTE

O entregador Antônio Roberto Ferreira de Queiroz, de 49 anos, mora na esquina do local há, pelo menos, 43 anos. Segundo ele, esta não é a primeira vez em que ocorre um acidente grave.

“Quem vem pela Carlos de Campos não vê a placa de ‘Pare’. Quem passa pela Wenceslau Braz o faz em alta velocidade. Se juntarmos isso ao intenso fluxo de veículos, é colisão na certa. O semáforo é mais que necessário”, finaliza.

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