Os editores de jornais concluem que o caminho da sobrevivência do "produto impresso" é deixar de ser só produto. Ou seja, servir de contraponto à intolerância que assola às redes sociais em vez de privilegiar o "espetáculo" dos fatos impactantes. A fórmula adequada seria a de contextualizar os fatos, com o objetivo de contribuir para a solução dos problemas apontados (bravo!). Na era da pós-verdade, as informações falsas divulgadas pelas redes sociais ganham alcance e legitimidade. Cresce, com isso, a responsabilidade das edições impressas como versão de referência para estabelecer a dimensão analítica necessária a "iluminar os fatos".
Além de reafirmar seus compromissos editoriais, políticos e éticos, os jornais sérios atualizam sua estratégia em tempos de mudança de hábitos dos leitores. É evidente que a interface gráfica com a internet precisa ser acelerada. As edições impressas, hoje, são tomadas como "versão de referência do último ciclo noticioso, enquanto a plataforma digital se renova no decorrer do dia". Fica cada vez mais difícil aos jornais e revistas se sustentarem com a circulação paga e a publicidade. Experiências bem-sucedidas, no mundo todo, indicam que existe um público expressivo disposto a pagar por assinaturas digitais, desde que observadas as mesmas dimensões históricas e institucionais dos conteúdos.
Quando, no Facebook, se dissemina um discurso de ódio e intolerância, a imprensa sabe respeitar as diferenças. Kant definia a ética de uma maneira simples. Tudo aquilo que é universal ou, pelo menos, benéfico para a maioria das pessoas é ético. Esse "universalismo" pregado por um filósofo que muito influenciou o mundo contemporâneo produziu erros fatais. A pessoa de pensamento abstrato, reducionista, pensa que o homossexualismo não é universal, por isso merece ser combatido, achincalhado e os assim sexualmente orientados merecem ser humilhados. E até presos. Essa forma abstrata de pensar matou 4 milhões de judeus no holocausto. Lésbicas, defensores do aborto, as minorias étnicas e religiosas, pensam de forma diferente do geral da sociedade brasileira, mas merecem respeito. A sociedade é plural, constituída de muitas correntes de opinião. Todas essas correntes têm que ter vez e voz num meio de comunicação de massa democrático. É o chamado "pluralismo".
Ninguém é dono da verdade. As pessoas, independentemente da orientação política e sexual, da categoria profissional a que pertença, da religião que professa, precisam ter acesso aos meios de comunicação. O Facebook oferece essa condição, mas sem aquele tratamento ético e técnico para estabelecer um mínimo de produtividade ao debate, sem que este descambe para exibições narcísicas.
Quando os projetos editoriais falam em "modernidade", como outro caminho obrigatório a ser trilhado, não se referem só à tecnologia. A sobrevivência do jornalismo está diretamente ligada a informações exclusivas. Fatos relevantes e inéditos levantados com critérios e repetidamente checados a partir de fontes idôneas. Modernidade significa, também, ousar no vanguardismo das discussões sobre assuntos que são, às vezes, apenas emergentes. Somente mediante um processo dialógico sobre temas que entram espontaneamente em pauta, a sociedade pode avançar e se aperfeiçoar.
É um ponto de vista positivista. Se existe é preciso refletir sobre o que ocorre. Não podemos ter medo de discutir a descriminalização do aborto, a pedofilia na Igreja, o Movimento dos Sem Terra, a liberdade de expressão e de espírito, a corrupção, e o aperfeiçoamento das instituições. Max Weber pregava uma ética da responsabilidade, onde se sobressai a da solidariedade ao povo, que é a maioria.
Maquiavel, para quem os fins justificam os meios, sempre foi muito mal interpretado. Ele se referia a decisões que o político adota para se manter no poder e ganhar musculatura com a finalidade de fazer valer seus projetos em favor do coletivo.
No Brasil, há imoralidade quanto aos meios; quanto aos fins e quanto aos meios e fins. O político usa quaisquer meios para atingir seus fins pessoais.
O autor é jornalista e articulista do JC.