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Médico de Bauru atestou o óbito do nazista Mengele, o 'Anjo da Morte'

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

O ano era 1979. Em mais um domingo de plantão no pronto-socorro de Bertioga, litoral de São Paulo, o médico bauruense Ricardo Viegas Berriel é chamado por uma enfermeira, logo nas primeiras horas da manhã, para atestar a morte de um homem, vítima de suposto afogamento na praia da Enseada.

Ele não imaginava, entretanto, que estava diante de Josef Mengele, o "carrasco nazista". "Era um senhor de estatura baixa e vestia apenas um shorts comprido. O que mais me chamou atenção foi o bigodão dele. Era muito grande. Aquela cena marcou bastante", recorda-se Berriel, que, à época, tinha 28 anos de idade.

Josef, o "Anjo da Morte" como ficou conhecido, passou os últimos anos de vida no Brasil com identidade falsa. Seu trabalho como médico do regime de Adolf Hitler simbolizou os horrores dos campos de concentração. Considerado um dos homens mais cruéis da história, ele foi responsável por milhares de mortes e por torturas terríveis (leia mais abaixo).

Douglas Reis
Médico bauruense, Ricardo Berriel descobriu anos depois que esteve diante de um dos homens mais odiados do mundo: "Fiquei chocado ao saber"

O homem perseguido por décadas em todo o mundo acabou no Brasil e, por uma coincidência do destino, teve a morte atestada por um médico bauruense. Em 1979, Berriel estava no segundo ano de residência e, aos domingos, era plantonista do pronto-socorro de Bertioga, pacata cidade que, à época, ainda não havia sido emancipada e pertencia ao município de Santos.

"O corpo estava em estado de rigidez cadavérica e não apresentava sinais de violência. O homem aparentava ter uns 60 anos de idade. Possivelmente, ele sofreu um mal súbito enquanto nadava no mar", pontua Berriel, que, por alguns minutos, esteve diante do "Anjo da Morte", sem saber. Entretanto, não se recorda de ter sentido energias negativas enquanto atestava o óbito.

ANOS MAIS TARDE...

Josef vivia no Brasil desde 1960. Durante parte das duas décadas que passou em terras brasileiras, assumiu o nome de um amigo, Wolfgang Gerhard, que viveu no País por um tempo, mas voltou para a Europa deixando os documentos para trás. O nazista, então, foi enterrado com esta identidade em cemitério na cidade de Embu, região metropolitana de São Paulo.

Ficou no anonimato por seis anos. Em 1985, autoridades alemãs encontraram uma carta escrita pela família Bossert - que apoiou Josef durante o período em que ele viveu no Brasil - para a família Mengele, informando da morte. A Polícia Federal brasileira passou a investigar e, interrogado, o casal Bossert revelou: o homem que morreu afogado na praia de Bertioga era, de fato, Josef Mengele.

Universal History Archive
À esquerda, Josef Mengele, ao lado de soldados nazistas: ele amputava pernas e braços de crianças para tentar regenerá-los e jogava prisioneiros em água fervente para ver o quanto suportavam

A notícia se espalhou pelos quatro cantos da Terra e o médico bauruense se deu conta, então, de que constatou a morte de um dos homens mais odiados do mundo. "Fiquei chocado ao saber", diz Berriel, que, depois do fato, procurou conhecer um pouco mais da história do nazista. Viajou para Polônia, onde visitou Auschwitz, a rede de campos de concentração de Hitler.

"Então eu descobri: esse cara foi, realmente, um monstro", diz o médico, e revela que, na atual conjuntura da humanidade, teme que algo semelhante ao nazismo volte a assombrar a população mundial. "Sempre existe o risco", observa. 

"Quanto mais você se lembrar do holocausto, mais procura se prevenir. A pior coisa que pode acontecer diante de uma história dessa é esquecer. É preciso olhar o que aconteceu para tirar uma lição", finaliza Ricardo Berriel.

Experimentos iam desde injetar tinta em olhos até matar bebês de fome

Josef Mengele nasceu em Günzburg, Alemanha, em 1911. Estudou medicina e filosofia na Universidade de Munique. Na Segunda Guerra, em 1942, foi condecorado por bravura militar e, no ano seguinte, estava no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

Ele quem decidia quem ia para os campos de trabalho forçados ou para a morte nas câmaras de gás. Ficou conhecido pelas torturas, disfarçadas de experimentos científicos. Seu objetivo era testar os limites humanos. Tinha por obsessão gêmeos idênticos. 

Josef fazia experiências mirabolantes. Transplantava órgãos sem anestesia, injetava tinta nos olhos de suas vítimas para ver se mudavam de cor e deixava bebês sem comida para saber por quanto tempo sobreviveriam.

Entre as inúmeras torturas, ele também dissecava anões vivos a fim de provar serem frutos da excessiva miscigenação de raças, jogava prisioneiros em água fervente para ver o quanto suportavam e amputava pernas e braços de crianças para tentar regenerá-los. 

FUGIDO

Reprodução
Mulher se desespera ao caminhar por corpos em campo de concentração onde Josef Mengele matou milhares de pessoas, incluindo crianças 

Depois da Segunda Guerra, passou a viver escondido e contava com o dinheiro da família. Em 1949, fugiu para Áustria. De lá, para a Itália e depois para Argentina, em Buenos Aires, onde viveu por mais de 10 anos.

Em 1960, fugiu para o Paraguai e, logo depois, para o Brasil, ainda no mesmo ano. Por quase duas décadas, morou em diversas cidades paulistas. Com medo de ser reconhecido, assumiu o nome de Wolfgang Gerhard.

Em 7 de fevereiro de 1979, morreu afogado em praia de Bertioga. Em 1985, após a suspeita de que o corpo enterrado em cemitério de Embu era de Josef Mengele, a ossada foi submetida a exumação e o médico Daniel Muñoz confirmou que se tratava do "Anjo da Morte".  

Os restos mortais de Josef ficaram no IML de São Paulo por 30 anos, após serem desprezados pela própria família. Depois, foram transferidos para a USP-SP.

Hoje, servem de estudo para a formação de novos médicos, pois todo o processo que identificou a ossada é exemplo de estudo na formação de especialistas em medicina legal.

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