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Família Maringoni guarda 'relíquia' escrita em 1913

Marcus Liborio
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Marcus Liborio
Junto com a carta, Clotilde Maringoni mandou uma foto dela para saudar o irmão Giulio que havia deixado a Itália pata tentar a sorte no Brasil

"O tempo passa velozmente". Assim começa uma carta escrita na Itália em 1913 com destino a Bauru. O tempo realmente passou e, mais de um século depois, o papel amarelado com marcas de fita adesiva tem lugar reservado na escrivaninha do médico e professor universitário aposentado Roberto Loureiro Maringoni, 85 anos. "É relíquia de família", diz.

Foi a tia-avó dele, Clotilde Maringoni, quem escreveu a carta, em italiano, para o avô paterno de Roberto, Giulio Maringoni, pedindo notícias do irmão que havia deixado o país de origem anos antes para tentar a sorte no Brasil.

O texto, datado de 30 novembro de 1913, leva ainda mensagem de fé e esperança em razão do Natal que se aproximava (veja carta traduzida ao lado). Por conta da Sexta Santa, outra data religiosa, Roberto decidiu divulgar a lembrança familiar.

No envelope, consta apenas o nome do destinatário e a localidade: "Bauru, Estado de S. Paulo, Brasil". "Não havia endereço e, mesmo assim, chegou até o meu avô. Eu não fiquei sabendo, entretanto, se ele respondeu", conta ele. 

Roberto encontrou a relíquia na casa de sua irmã Maria Tereza, em 2002, ano em que ela faleceu. Ele relata que Clotilde era freira em Cremona, onde vivia quando escreveu para o irmão. "É uma carta bonita, que fala do nascimento de Jesus e da importância da religião em nossas vidas".

HISTÓRICO

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Roberto lê com carinho carta enviada da Itália para o seu avô

Giulio e Clotilde tinham ao menos mais um irmão, conforme recorda-se o médico aposentado. O primeiro nasceu na comunidade de Alfianello, na Itália, em 1864. Filho de sapateiro, começou a trabalhar ainda na adolescência para ajudar em casa.

"Anos depois, ele enxergou uma oportunidade de melhorar de vida quando houve a migração para o Brasil. Depois de um tempo por aqui, mandou buscar a esposa, Rosa Moroni Maringoni. Os dois tiveram gêmeos ainda na Itália, que morreram, e três filhos no Brasil, entre eles o meu pai Ângelo Maringoni". 

O casal montou uma fábrica de móveis na cidade de Campinas, em 1906. Porém, um incêndio atingiu o estabelecimento e os dois perderam tudo. "Foi quando ele (Giulio) ouviu notícias de que a Estrada de Ferro Noroeste, em Bauru, estava contratando funcionários".

Em terras bauruenses, Giulio recomeçou a vida como carpinteiro e chegou a ser chefe da Oficina Noroeste. Ele morreu em 1940, com 86 anos. Por aqui, Roberto também fez carreira como médico e professor titular da USP de Bauru, onde se aposentou.

Autor do livro "Conversa de Médico e outras histórias", ele é casado com Maria Rita. O casal, que tem quatro filhas e quatro netos, vive em um prédio no Jardim Panorama, onde a carta escrita pela tia-avó de Roberto permanece guardada como sendo um valioso tesouro de família. 

"Essa carta reflete emoção e o amor verdadeiro entre dois irmãos. Ela representa uma ligação com o passado muito forte, muito intensa. Fala de saudade e também de boas lembranças familiares, que devem ser preservadas", finaliza Roberto Maringoni.

 

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