Articulistas

Alguns vícios da sociedade brasileira

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Pelo pouco que já sabia e pelo muito que tenho lido a respeito da calamitosa situação brasileira, temos de admitir nossa ignorância a respeito do perigo que corremos. Que poderá ser feito? Primeiro, darmos um corretivo exemplar nessa cambada de salafrários que assaltou a nação; segundo, metermos na cabeça que se o país não investir em produção não vai melhorar. Margareth Tatcher dizia que não há dinheiro público, o que há é dinheiro do contribuinte. É fazer uso desse dinheiro que é nosso e fazer crescer, diversificar a produção, a riqueza humana. A história ensina que novos produtos não reduziram a produção dos velhos. Uma fábrica de sapatos diferenciados não levaria as fábricas não especializadas à falência. As pessoas desenvolveriam novos gostos, diversificariam e comprariam mais.

Posso ser rico sem que você fique pobre. Acontece que nos últimos tempos, o Brasil não tem investido em nada. Parou. Só pensou em roubar. A individualização, essa sim, cresceu de tal modo que não sobra tempo para pensar no outro. Só se pensa em engordar a própria carteiro.

A ideia de progresso precisa convencer as pessoas a confiarem no futuro. Sem isso, o crédito não cresce; crédito em alta gera mais crédito. Claro que isso não acontecerá de hoje para amanhã. O economista Adam Smith argumentava que quando um proprietário de terras, um tecelão, um sapateiro tem mais lucro do que precisa, deve usar o excedente para empregar mais pessoas, a fim de aumentar ainda mais seu lucro e quanto mais lucro conseguir, poderá contratar outros tantos empregados.

Disso decorre que quanto mais lucro os empreendedores privados tiverem, a riqueza e a prosperidade coletivas também aumentarão. Muitos combatem Adam Smith alegando que sua tese alimenta o desejo egoísta de aumentar o lucro privado. Não é bem assim. O que esse economista afirma é que a ganância é algo bom e que, ao ficar rico, eu beneficio a todos e não só a mim mesmo. Para ele, Egoísmo é Altruísmo.

Infelizmente, o brasileiro empreendedor, na maior parte das vezes, é ganancioso. Não tem esse desprendimento, essa nobreza de caráter que seria de esperar-se de quem tem a cabeça bem feita, bem formada. Ser rico, para Adam Smith, significa ser moral. Ele negou, pois, a contradição entre riqueza e moralidade e abriu as portas do paraíso para os abastados. Se sou pobre, você também será pobre, porque não posso comprar seus produtos. Se sou rico, você também enriquecerá porque agora pode me vender alguma coisa. Isto é importante destacar: para Adam Smith as pessoas não enriquecem saqueando, fazendo como a grande maioria dos políticos e dos empresários brasileiros, metendo a mão no dinheiro do povo, roubando e mandando dinheiro para paraísos fiscais. Não! Ele faz disso um mantra: "quando os lucros aumentam o empresário emprega mais gente" e não "quando os lucros aumentam Tio Patinhas guarda seu dinheiro num cofre ou manda a grana para longe e só a tira de lá para contar as moedas". Os ricos, portanto, são pessoas benévolas e úteis à sociedade porque impulsionam o crescimento.

É bonito isso: a economia capitalista moderna deu origem ao crescimento de uma nova ética, segundo a qual os lucros têm que ser reinvestidos na produção, que gera mais lucro et cetera ad infinitum. "Os lucros da produção devem ser reinvestidos no aumento da produção." Acredite: há países que seguem esse lema.

Aqui na terrinha tupiniquim, entretanto, a falta de escrúpulos de nossos empresários e políticos é nauseante. Enquanto não assimilarem e viverem o real sentido do capitalismo, o Brasil não vai sair desse cenário infecto. Essa turba ignara confunde capital com riqueza. As odebrechts da vida acham que o capital pode tudo: subornar, corromper, ludibriar. O capital consiste em bens e recursos que deveriam ser investidos na produção.

A riqueza, como já disse, é enterrada debaixo do solo, é empregada na compra de joias, carrões, viagens mirabolantes, ou desperdiçada em outras atividades improdutivas. Temos de criar uma nova elite que saiba como se comportar, educar os filhos e até mesmo pensar. Se demorar muito poderá ser tarde demais. Uma sociedade de lobos seria muito tola se pensasse que a oferta de ovelhas continuaria crescendo por tempo indefinido.

 

Comentários

Comentários