Intelectuais do mundo inteiro produzem grandes ensaios para marcar os cem anos da revolução de 1917. Falo da revolta popular que derrubou 300 anos de monarquia na Rússia e serviu como prelúdio para o movimento que instaurou o comunismo sob a liderança de Lenin. Curiosamente, a insurreição popular que desembocaria na renúncia do czar, começou com as operárias têxteis no Dia Internacional da Mulher (8 de março de 1917, no calendário atual). Elas desobedeceram a ordens dos líderes comunistas de não deflagrar a greve. Acabaram arrastando todo o proletariado. O objetivo era, com a queda do imperador, instaurar uma democracia constitucional e parlamentar.
O comando bolchevique, partido de Lenin, tomou o Palácio de Inverno de Petrogrado em 7 de novembro (25 de outubro pelo antigo calendário juliano). Foi uma operação militar. Lenin, condenou os mencheviques, mais à direita, “ao lixo da História” e adotou o regime comunista teorizado por Marx. A União Soviética foi fundada em 1922, país que acabou em 1991, sob o governo de Boris Ieltsin. No atual governo Putin, nenhuma dessas datas fazem parte do calendário de comemorações na Rússia. Os 150 anos do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, passou em branco.
O que teria acontecido com o homem soviético. Imagine milhões de pessoas que nasceram e vivaram sob o regime comunista e, da noite para o dia, vê o império da URSS passar para o capitalismo. Havia uma ideologia a dirigir suas vidas. Só de passar diante de uma estátua de Stelin o soviético já suava frio. “Vai que ele advinha o que a gente está pensando”.
O exercício diário era entrar na fila para pegar um franguinho passado e umas batatas podres. O dinheiro não existia. Todo mundo recebia 120 rublos, e era o bastante. Para comprar o quê? Hoje, em um supermercado russo, existem mais de cem tipos de kolbassá (salame russo associado à comida e à abundância). Antes, era um só. Há a vodca que o cidadão quiser, queijo, peixe. Tem banana. Só não há dinheiro. A maioria ficou desempregada com o fim das empresas estatais. É comum, hoje, o anúncio de “Procura-se empregada doméstica, com diploma superior”. Médicos vendem na feira coisas antigas da família, livros, e bitucas de cigarros apanhadas nas ruas.
Quem conta essas histórias é a escritora russa Svetlana Aleksiévith, prê- mio Nobel de Literatura de 2015, no livro com o título que empresto para este artigo. Li o cartapácio de 600 páginas e compartilho com vocês. A autora não opina sobre nada. Apenas entrevistou centenas de “homo sovieticus” entre 1991, quando desapareceu a URSS, a 2012 quando terminou o livro.
Em O Grande Inquisidor, Dostoiévski dizia que o caminho da liberdade é difícil, penoso, trágico. O tempo todo o ser humano deve escolher entre liberdade ou o bem-estar: a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a maioria das pessoas escolhe o segundo caminho. Sob o comunismo, a democracia era um animal desconhecido. A maioria das pessoas não tinha posi- ções antissoviéticas, elas só queriam uma coisa: viver bem. Para poder comprar jeans e o limite dos sonhos: um carro.
O americano Jack London tem um conto sobre esse tema: você pode viver até numa camisa de força. É preciso espremer-se, apertar-se e acostumar-se. E dá até para sonhar. Assim viviam os “sovok”, pejorativo usado a partir de 1970 para denotar o soviético que aderia cegamente à ideologia oficial.
Eles foram os primeiros a ir para o cosmos. Fizeram os melhores tanques do mundo. Perseguiram os nazistas até Berlim. Só não tinham sabão em pó, nem papel higiênico. Ter um videocassete em casa era como ter um helicóptero. Svetlana conta a história do garoto que vendia chiclete no metrô, lavava carros depois das aulas e ganhava mais do que o pai que era cientista.
As filas para ver a múmia de Lenin passaram para o McDonald´s da Rua Puchkin, em Moscou. Os consumidores guardam as caixinhas e os guardanapos. Heróis da guerra do Afeganistão, voltaram feridos e mutilados e a Pátria não existia mais. Andar à noite vestindo uniforme militar era um perigo. Poderiam ser espancados por grupos raivosos. Metade do país espera por um novo Stalin. Quando ele chegar, vai colocar tudo em ordem...
Guardam ainda no sótão bustos de Lenin... vai que ainda serve. O hábito russo de conversar em família na cozinha continua. A piada clássica: comunista é aquele que leu Marx, e um anticomunista é aquele que entendeu.
O autor é jornalista e articulista do JC