Depois de conseguir sobrevida no Tribunal Superior Eleitoral, o presidente da República, Michel Temer, estabelece estratégia para se manter no cargo. Vale lembrar que são inúmeros os pedidos para seu impedimento. A lógica do Planalto é: nada de assuntos polêmicos enquanto não houver definição de que o presidente terminará seu mandato. Evidentemente que é fato que não há qualquer garantia de que a base de sustentação do atual governo teria maioria para aprovar tais reformas, mesmo com o recente posicionamento do PSDB (aliado do PMDB, partido do presidente Temer).
A reforma trabalhista deve caminhar com mais velocidade, uma vez que já passou pela Câmara dos Deputados sem alterações e segue seu trâmite normal, já a reforma previdenciária, polêmica por si só, terá um ritmo mais lento. Caso toda pressão seja contornada, projeta-se que seu trâmite se dará no segundo semestre deste ano.
Diante deste cenário, o que esperar da economia brasileira? Quem está atento ao cenário econômico observa que a estratégia da atual equipe econômica é trabalhar no equacionamento das causas dos desequilíbrios econômicos que nos levaram a recessão.
O pilar central é não deixar o endividamento público fugir ao controle. Para que isso seja realidade, está em vigência o limitador de gastos da União, tentando demonstrar austeridade no controle dos gastos públicos e as reformas, notadamente da Previdência Social, complementariam para segurar tais gastos, evitando, pelo menos por enquanto, elevação na carga tributária.
Os operadores do mercado, de certa maneira, já precificaram o momento político agudo e a dificuldade que a equipe econômica de Temer terá para levar em frente as reformas como foram concebidas. Esta precificação indica que o fato de a inflação estar sob controle, com ela juros em queda e que a economia terá sua própria dinâmica, independentemente da pressão sobre Temer, é possível apostar na retomada do crescimento ainda este ano. Os números positivos no tocante ao crescimento econômico brasileiro do primeiro trimestre deste ano não são parâmetros, entretanto, muitos setores começam a colocar a cabeça para fora, oferecendo subsídios para a aposta no crescimento, mesmo que baixo, algo na ordem de 0,5% no ano fechado de 2017.
Evidentemente que há pontos vulneráveis nesta avaliação. Primeiro ponto a ser considerado é se Temer não se sustentar e um novo governo, vindo da oposição, se instale. Sem a atual equipe econômica e com eventual mudança de rumo no modelo econômico vigente, a economia brasileira poderia sofrer crise de confiança e voltar à estaca zero. Modelos populistas podem ir nesta direção. Outro ponto vulnerável é se a arrecadação tributária não crescer na dimensão esperada. Se o endividamento público crescer, a necessidade de reformas estruturais será imperiosa, e esta, diria, trégua, até as coisas se acalmarem, seria revista. A pressão seria inevitável.
Mesmo considerando que as reformas são imperativas para sustentar o crescimento econômico do País, é possível considerar que esperar um pouco mais não irá trazer consequências mais graves do que as vivenciadas até agora. Por sinal, se a reforma trabalhista sair, poderá, na visão microeconômica, estimular os empresários a saírem da defensiva.
Há muito a fazer. O consumo das famílias em queda não ajuda. Os investimentos represados são limitantes, mas a chama da confiança dos agentes econômicos não pode apagar. Não compartilho com aqueles que preconizam o quanto pior melhor e é preciso ter os pés no chão, mas não perder de vista a dimensão que é a economia brasileira e a capacidade de superação de seu povo.
Se o recuo nas reformas é estratégico, que ao menos seja mantida a estrutura básica do modelo econômico definido pela atual equipe econômica, e com ela, a aposta na recuperação da economia, nem que seja pela inércia.