Tribuna do Leitor

A é!

José Marta Filho
| Tempo de leitura: 2 min

Enquanto aguardavam o início de uma reunião, os executivos de uma empresa comentavam a "escorregada" de um diretor. "Nossa que desagradável! ", diziam uns. "Ele deve ter motivos para tamanha mudança", ponderavam outros. No calor da discussão, surge uma pessoa que, com firmeza, diz: "Parem. Estão perdendo muito tempo comentando um caso de gestão negativa". E completou: "Percebem como nos empolgamos com assuntos ruins, trágicos e sofridos? Quase nunca comentamos casos de pessoas bem-sucedidas. Se você diz que conseguiu, finalmente, um carrão bacana resmungam: - A é! Você não tem medo de ser assaltado, dirigindo uma máquina dessas?"

É verdade. Vejam os assuntos negativos tratados nos grupos do WattsApp: geralmente são solidários com a desgraça do traído, do falido, do assaltado, do adoentado, do falecido. Parece que ao ser solidário na dor, aflora o altruísmo e a sensação de estar junto.

Na alegria pouco se comemora, sinceramente. Qual o motivo para ficar elogiando o filho do amigo que passou no vestibular da melhor Universidade ou daquele que foi aprovado no concurso da magistratura, por exemplo? Melhor deixar o vitorioso solitário. Que comemore sozinho seu sucesso! A vitória do outro incomoda e, ao invés da luta para imitá-lo, muitas vezes surgem críticas, questionamentos, dúvidas da conquista. Chegam a dizer que ele não tem competência para chegar onde chegou, insinuam que deve ter havido cambalacho. Poucos entendem que a regra está na frase de Kant: "Toda mudança para melhor depende exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço". Coitado do vitorioso! Fica isolado. A mesma sociedade que o acolhe na dor, paradoxalmente, o deixa órfão na vitória. Se alguém diz que fulano sofreu um grave acidente, a reação é: nossa! Coitado, precisamos ajudá-lo, estar do lado dele! Entretanto, se disser que está bem casado ou que teve uma grande promoção no emprego, a primeira reação, quase sempre, é: "a é!" E para não demonstrar "dor de cotovelo", completa-se com um "Deus o ajude". Com o sucesso - do latim "cedere" que equivale a ceder, o que vem depois, suceder -, como diz a canção do Roupa Nova, nada mais será como antes: "Eu já estou com o pé nessa estrada. Qualquer dia a gente se vê. Sei que nada será como antes, amanhã. "

No sucesso ou no fracasso deixa-se um estado, abre-se um outro, desconhecido, no qual será preciso aprender a habitar. "Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças (Charles Darwin)". O importante é sobreviver ao "nossa!" e ao "a é!", sabendo que, geralmente, o fracasso é solidário e a vitória é solitária. A eles (sobreviventes), Friederic Nietzsche diz: "É a partilha da alegria, não do sofrimento, o que faz o amigo".

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