O século passado viu nascer, com diferença de apenas um ano, dois gênios absolutos em seus ofícios: Jerry Lewis (que veio ao mundo em 16 de março de 1926) e Tom Jobim (25 de janeiro de 1927). Acho que jamais se conheceram pessoalmente, mas ambos tinham uma relação intensa com os EUA (onde moraram) - e Las Vegas, em particular, onde se apresentaram. Aliás, o disco o disco "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim" completa, em 2017, 50 anos, mas nem Tom nem Jerry poderão ouvi-lo novamente. Nem Sinatra. Que absurdo.
Em 2016, no programa "Titio Doni na TV", gravado em São Carlos, o veterano cantor sertanejo Léu (não o da dupla com Victor) ouviu do apresentador algo assim: "Tem tanta gente que é boa que não deveria morrer nunca, igual a você, Léu". E ele: "Mas eu não vou morrer!". Torço por isso.
Léu deveria ter ensinado essa frase a Tom e Jerry. E a Liu, seu irmão, com quem formou dupla até a morte dele, em 2012. "Eu não vou morrer!". Quem sabe se, repetida à exaustão, a impositiva declaração não se transforma em verdade imortal?
Para muitos, o Jerry Lewis artista morreu ainda nos anos 60 (quando Tom conheceu o auge e Liu e Léu estavam em começo de carreira na música raiz). O que Jerry fez foi tão absurdamente perfeito que, de fato, nem precisaria ficar se repetindo nas décadas seguintes.
Tom e Jerry viveram as maravilhas de uma mesma época, mas Jerry resistiu mais às dores do mundo e de sua coluna. O coração do comediante parou em 20 de agosto de 2017 - muito depois de Tom, morto em 8 de dezembro de 1994.
Gente boa e talentosa não devia morrer. A gente se espelha em gente assim. Léu, atualmente com 80 anos, segue desafiando o tempo, o vento e a dona morte. Espero que ainda dance o catira e que faça mais shows. E que venha a Bauru. Quanto a Jerry Lewis e Tom Jobim, bem, a obra deles está toda ao alcance de nossos olhos e ouvidos sedentos por qualidade. A obra nunca morre.
Na minha cabeça, Léu algum dia deve ter apreciado a bossa nova de Tom e gargalhado com a graça maluca de Jerry. Na minha cabeça, Tom Jobim e Jerry Lewis estão vivinhos da silva. A arte não se curva a essa besteira de morte e verdadeiros artistas, como Léu talvez tenha tido a intenção de dizer, são para sempre.