| Fotos: Bruno Freitas |
| Celso Sacomandi treinando como paratenista no BTC |
| Celso, ao centro, com os amigos tenistas do BTC, que o presentearam com cadeira de rodas adaptada |
Do topo do tênis no Brasil ao medo de morrer por uma rara doença degenerativa. O ex-tenista Celso Sacomandi, um dos desportistas mais talentosos que Bauru já teve, contou com exclusividade ao JC sobre como lidou com o abandono das quadras e como vence os desafios diários devido a adrenoleucodistrofia, que limitou seus movimentos. Hoje, com 58 anos, mas com a mesma alegria daquele menino que encantou o País com a canhotinha potente, ele se propôs ao desafio de encarar o tênis de cadeira de rodas.
Com o saudoso pai Claudio Sacomandi como treinador, o caçula da família de cinco irmãos foi moldado no esporte e passou a treinar aos 6 anos de idade, no Bauru Tênis Clube (BTC). Aos 10, ele ganhou fama nacional ao conquistar o vice-campeonato brasileiro na categoria sub-12. A partir daí, foram muitos títulos. Os principais deles foram o heptacampeonato brasileiro de simples, o bicampeonato sul-americano, os dois vices do Orange Bowl - tido como Mundial juvenil -, bicampeonato do Banana Bowl e título mundial por equipes, ao lado do amigo Cássio Mota.
ABANDONO DAS QUADRAS
Com tremendo potencial, Celso encerrou a carreira aos 23 anos idade, segundo ele, por não querer ser "só mais um". "Eu queria jogar no profissional para ser um dos melhores do mundo. Se não fosse para ser atleta de ponta, eu preferiria parar. Até os 18 anos eu era top 10. Mas, depois, surgiram grandes tenistas também, e eu já tinha um desgaste de ter treinado e jogado vários campeonatos desde meus 6 anos. Lembro que, às vezes, eu queria jogar futebol com meus amigos, mas meu pai não deixava. Eu tinha que ficar focado e evitar lesões", revela Celso. O ex-tenista conta ainda que estava cansado de viajar e, quando conheceu a namorada que veio a se tornar esposa, Daisy Sacomandi, resolveu dar atenção a família e se dedicou, na época, a dar aulas e a ser consultor de tênis.
A DOENÇA E O MEDO DE MORRER
Pai de João Paulo e de Gabriela, Celso percebeu que havia alguma coisa errada com suas pernas quando jogava tênis no BTC, há 15 anos, quando tinha 42 de idade. "Eu corria muito em quadra e no fundo eu rebatia e deslizava no saibro. Houve uma vez que senti as pernas tremendo, instáveis. Assustei. Aquilo não era normal. E foi ficando mais constante. Foi então que li uma matéria no JC com entrevista do médico Laertel Fassoni, sobre esclerose. E eu senti que tinha aquilo. Procurei o Laertel e passei a me consultar com vários neurologistas. Um deles, inclusive, me disse que eu tinha esclerose lateral amiotrófica (ELA). E na hora eu fiquei apavorado. Achei que iria morrer", conta. Depois, Celso descobriu que na verdade era adrenoleucodistrofia, uma doença metabólica e degenerativa que limitou seus membros inferiores. "Fui cogitado a participar de transplante de medula, mas percebi que era arriscado. Optei por não fazer e tomei a decisão certa", ressalta.
ALEGRIA RENOVADA
Celso alimenta hoje um novo sonho. Com o crescimento dos torneios de tênis de cadeira de rodas e com seu desejo de voltar a jogar, ganhou dos amigos do BTC um grande incentivo. Liderados por Constantino Sahade, João Cruz e dezenas de amigos da Turma dos 30 e outros sócios do BTC, Celso ganhou de presente uma cadeira de rodas adaptada no valor de R$ 7 mil.
Treinado pelo especialista no assunto, Helder Gouveia, Celso projeta voltar às competições como paratenista. "O processo é longo. Preciso me adaptar e fortalecer meus músculos, mas a técnica a gente nunca esquece", diz o tenista, que projeta disputar campeonatos a partir de 2018.
"A vitória dele é vitória de muita gente. Um exemplo para muitas pessoas. O gesto do Celso dá esperança para aqueles que se encontram com a mesma condição física. E isso não tem preço. As pessoas precisam de referências de superação e vitórias na vida. E o Celso é uma delas", disse Renato Zaiden, amigo e sócio-diretor do Grupo Cidade de Comunicação.