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Pegaram a exposição pra Cristo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A arte trata de estímulos e reações. Deixou de ser meramente contemplativa, "para o deleite dos olhos e dos sentidos", para adquirir um engajamento político e social. Principalmente a partir do início do século 20, embora nos anos 1500 Leonardo Da Vinci e Michelangelo já não se bicavam pela diversidade de interpretações da vida e do transcendente. A discussão transposta às telas fez suas obras atemporais. Eles carimbaram o seu tempo com as marcas da genialidade.

O fato histórico vem a propósito de uma exposição cancelada no domingo passado, em Porto Alegre, depois de fortes pressões pelas redes sociais contra o patrocinador da mostra, o Santander. As obras e seus autores foram acusados de blasfemar contra símbolos religiosos e fazer a apologia da zoofilia e da pedofilia. O fechamento da exposição, que reunia 270 trabalhos de 85 artistas, foi considerado um "ato de censura". Alguns dos autores têm trabalhos que fazem parte das coleções de renomados museus mundiais, como Adriana Varejão, Lygia Clark e Cândido Portinari.

O Querrmuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, local e tema da mostra, destinava-se, exatamente, a provocar discussões sobre a diversidade na formação sexual do brasileiro. Causou polêmica. Serviu para chamar a atenção à intolerância que ainda pesa sobre os que têm orientações sexuais "diferentes". Incluem-se as reações adversas, renitentes, da parte de grupos religiosos em questões de gênero. "Querr" é o termo inglês para algo estranho, peculiar, mais usado hoje como sinônimo de gay. Ninguém é obrigado a gostar de uma obra de arte - diz o batido argumento.

O que não se pode aceitar é o pouco apreço à liberdade de expressão. Justamente porque ameaça o poder transgressor da arte. Sem o livre pensar e a sua manifestação, a sociedade entra em estagnação. Para exercer esse papel, a arte contemporânea se distancia da sensibilidade do grande público e da sua estética. Tudo o que fere nossos valores é provocativo. Nem por isso deve ser censurado. Cala a boca já morreu.

Na exposição, ganhou foros de indignação o trabalho de Adriana Varejão, que é de 1994 e trata de uma compilação de práticas sexuais existentes. Algumas são históricas e outras baseadas em narrativas pesquisadas pela autora.

Se retrocedermos no tempo, "Leda e o Cisne", do século 16, também seria considerado um caso de pedofilia e zoofilia. O mito grego foi simbolizado em tela por Da Vinci, Michelangelo, Rubens e Cèzanne. Zeus, encantado com a beleza de Leda se transforma num cisne de longo pescoço para seduzi-la. Em telas e esculturas, a moça nua aparece abraçada à ave, rodeada de querubins sexuados. Uma coisa é pedofilia e zoofilia, outa coisa é a representação artística dessas aberrações. Outra obra boicotada retrata Jesus Cristo na cruz, com vários braços, como a deusa Shiva. Em cada mão santa um objeto moderno. Alguém viu um vibrador, numa delas. Lembro-me de ter visto na Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul, a Via Sacra de Aldo Locatelli, repetindo cenas já retratadas desde a Renascença, misturada com objetos contemporâneos: Cristo carrega sua cruz e é apupado pela turba que lança contra ele um chinelo de dedo e uma lata de Coca-Cola. O dia em que ele voltar será alvo da mesma intolerância.

Quem sabe ainda atirem um smartphone de tecnologia ultrapassada. Perdemos a capacidade de compreender a metáfora e a ficção. A esquerda, depois que se rendeu à economia de mercado, ficou meio perdidona. Acabou buscando refúgio nas chamadas políticas identitárias, pelas quais busca emancipar minorias oprimidas e eventualmente compensá-las por injustiças históricas. Saíram a mais valia e a socialização e entraram a agenda LGBT e as ações afirmativas.

Várias correntes da esquerda abandonaram a defesa da liberdade de expressão, que era, desde o iluminismo, uma das suas principais bandeiras. As facções mais à direita também são intolerantes quanto ao direito de manifestação, sob o argumento de proteger valores que lhes são caros, como pátria, família e religião. Brigam com as mesmas pedras. A liberdade de expressão não é licença para ser estúpido. Também não serve para que cada um solte seus demônios pela rede social, sob pretenso anonimato.

O que vemos hoje é o mundo virtual servir para os intolerantes ampliarem seu alcance. Dói ver um jornalista sério como Ricardo Boechat, execrado por meio de um palavreado chulo, somente porque deu a sua opinião. Ele é pago para isso.

O Movimento Brasil Livre, de ativismo político, assustou os banqueiros do Santander que, com medo de perder clientes, fechou a Exposição. Lamentável a oportunidade perdida com essa intransigência ao debate, incompatível com a sublimidade da arte.

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