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| Auditório discutiu a importância do problema ser tratado na escola, mas principalmente em casa |
O uso das novas tecnologias, sobretudo a Internet, se incorporou à vida das famílias. Mas, como tudo o que é demais, o excesso trouxe consequências à saúde física e psíquica de pais e filhos. A utilização desmedida da ferramenta virtual ainda distanciou pessoas e, regra geral, gerou ruídos por vezes intransponíveis de relacionamento. Na última semana, o plenário da Câmara Municipal de Bauru recebeu educadores, gestores em educação, conselheiros tutelares e assistentes sociais para o debate "conscientização das doenças causadas pelo uso excessivo da Internet".
A audiência pública foi iniciativa do vereador Miltinho Sardin, autor de projeto de lei autorizativo pela inclusão na educação infantil e fundamental da rede pública de Bauru de campanha de conscientização das doenças causadas pelo uso da ferramenta virtual. Para o vereador, a dificuldade no gerenciamento do tema extrapola a estrutura pública.
"Não é há tempos um problema a ser gerenciado dentro das escolas. Os pais das novas gerações não foram treinados a educar com o ambiente de tecnologia, porque eles também foram seduzidos pelo uso. É claro que Internet, mundo virtual e comunicação on-line são fantásticos. Mas o excesso está causando uma série de doenças. E a escola não está conseguindo dar conta de lidar com isso. Até porque as crianças vêm de casa com liberdade irrestrita de uso do celular, do tablet. E fica muito difícil disciplinar no ambiente de ensino", alerta.
O fato é que o excesso no uso está disseminado e, com ele, multiplicam-se os males. A secretária de educação e professora Isabel Miziara pontua sobre a realidade. Ela começa pelo diagnóstico de comportamentos que indicam exageros.
"Usar a Internet como ferramenta é maravilhoso. Mas temos de refletir sobre várias consequências em razão dos excessos. A ansiedade é um dos perigos claros. Basta que o usuário perceba como ele fica quando está fora, sem o alcance da conexão. Há causa real de monofobia (medo intenso de ficar só). Há pessoas que tem a sensação falsa de que o celular vibra na calça. Há síndromes indicadas pelo isolamento decorrente de quem usa o Facebook por horas a fio. É muito preocupante", situa.
Cristiano Nabuco, psicólogo especialista em análise de comportamento pelo uso de tecnologias, acrescenta: "a tecnologia entrou na vida das pessoas pela porta da recreação e virou motivo de glamour dar celular para a criança logo cedo. Mas quanto mais cedo os pais dão o celular para a criança, maiores os malefícios. A criança encontra no mundo paralelo grau de satisfação que não tem na vida real. E é uma satisfação virtual, mentirosa. A criança não consegue ficar longe. Os adultos também não. Há relação de dependência e são gerados vícios de comportamento", adverte.
POLÍTICA DE ACESSO
A posição de Cristiano Nabuco é de que as crianças não tenham acesso ao telefone celular antes dos dois anos. E, mesmo a partir disso, o uso tem de ser restrito, com tempo mínimo diário. "Tem de estabelecer tempos de 15 minutos por período e explicar, desde cedo, as implicações desse controle. É preciso que os pais tenham consciência de que liberar celular é ser conivente com prejuízos reais ao desenvolvimento cognitivo da criança. E permitir o acesso e não estabelecer limites de uso é igualmente ter conivência com prejuízos físicos e psicológicos que vão surgir depois", esclarece o psicólogo. Educadora, vereadora e mãe de duas filhas pequenas (de 2 e 8 anos), Chiara Ranieri aponta para o caminho de reversão a partir dos pais. "Não tem outro jeito. Até porque também estamos viciados e isso se multiplica. Tem de começar pelos pais esse processo", cita.
Presidente da Comissão de Educação da Câmara, Chiara cita o estudo do psicólogo Augusto Cury. "Os prejuízos estão na lesão por esforços repetitivos, mas os problemas também são psíquicos, emocionais. A dificuldade em estabelecer raciocínio, os prejuízos de cognição aparecem na fase seguinte. O Augusto Cury aponta para a Síndrome do Pensamento Acelerado. As pessoas estão sendo saturadas de informação e poucos conseguem administrar, ter controle. Sobre as crianças isso é devastador. Elas ficam irritadiças, sentem isolamento e vão apresentar problemas de desenvolvimento de cognição depois", finaliza.
RISCOS OCULTOS
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| Casemiro de Abreu Neto: alunos têm seu próprio Wi-Fi |
Para o conselheiro tutelar Casemiro de Abreu Neto, as ações contra o uso excessivo da Internet extrapolam os muros da escola. "A escola não dá mais conta porque os filhos das novas gerações têm sistemas próprios de uso em rede. Os alunos pularam o sistema público, porque vão para a escola já conectados, com aval dos pais e pagamento de suas redes próprias de Wi-Fi. Os adolescentes montam comunidades próprias, grupos fechados, marcam ações em segredo, organizam festas em chácaras com open bar com integrantes já desde os 12, 13 anos. Isso é realidade, está oculto, mas é sabido. Então é preciso falar disso e ver o que fazer", alerta. De novo, Casemiro reforça que a maior responsabilidade pela redução dos prejuízos está nas mãos dos pais. "O uso está muito facilitado e eles estão muito organizados. Ficou muito mais fácil para crianças burlarem os limites e barreiras. E o perigo está posto na casa de todos por meio do aparelho e do acesso externo irrestrito", pontua Casemiro.
OS YOUTUBERS
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| Para Rute, TV foi trocada por celular |
Diretora de educação infantil em escola na Pousada da Esperança, mãe de um filho de 8 e outro de 12 anos, Rute Câmara chama a atenção para duas questões importantíssimas.
"Tenho filho pequeno e descobri que ele mudou seu interesse da televisão para o celular. Eu ofereci jogos com exercícios de imaginação e ele não quer. Pais, atentem que as novas gerações largaram o antigo 'vício' pela televisão para o celular", aponta.
E o que, além do contato amplamente aberto com o mundo externo, está seduzindo essas crianças e adolescentes? Rute menciona: "quem dita regras de comportamento, quem está definindo padrões de comportamento para seus filhos são os youtubers. É claro que tem muito youtuber consciente, mas tem muita porcaria, influência negativa e sem escrúpulo. E isso seu filho pode esconder de você com facilidade. Cuidado. Até porque eles dominam muito mais a tecnologia e sabem como esconder isso de você. Preste atenção no que está acontecendo entre seu filho e o conteúdo do celular que ele usa", enfatiza.
Como educadora, ela defende que os pais sejam inseridos na discussão de políticas de uso da Internet na escola, junto com os professores. O representante de entidade assistencial Edilberto Augusto Mello defende ação dirigida, por faixas etárias.
"Para os menores tem de estabelecer limite, tempo de uso restrito diário e explicar desde cedo. Para o adolescente tem de trabalhar em ação de redução de danos porque os vícios já estão acontecendo. Combater com protocolo por idade para reduzir, no tempo, os prejuízos à geração de cabeça baixa, que fica com o olho o tempo todo no aparelho. Uma geração carente de atenção, afeto", comenta.
CONTROLE COMEÇA PELOS PAIS
A secretária Municipal de Educação, Isabel Miziara, clica direto na tela principal do problema: o controle pelo uso excessivo da Internet em crianças depende dos pais. A dificuldade esbarra no fato dos responsáveis, em muitos casos, serem igualmente viciados no uso da ferramenta.
"Para mim está claro que esse processo tem de ser iniciado por nós adultos. Vamos confessar: quem de nós não tem dificuldade em se desconectar? Famílias inteiras não conversam mais em casa e, quando estão juntos fisicamente, estão cada um com um aparelho em mãos. A Internet em excesso gerou isolamento das pessoas. Sem atentar para essa questão, não vamos avançar", opina.
A educadora sugere, ainda, que a campanha leve em conta outros elementos. "Conscientizar a partir de casa, envolver os pais na discussão desse processo junto com a escola, que é nosso papel como poder público. Mas também tomar o cuidado para orientar que ação proibitiva não dá resultado. Não vai chegar agora em casa e tirar o celular que não resolve. Ao contrário, gera outra frente de conflito. Onde o excesso já está instalado, os pais têm de primeiro se conscientizar e estabelecer política de controle de uso entre os adultos. Envolver as crianças e jovens na discussão, na problematização, apresentar as doenças físicas e psíquicas, emocionais", sugere.
Para quem terá ou ainda tem filho pequeno, o processo deve ser instalado desde os primeiros contatos da criança com tecnologia. "Estabelecida a conscientização, o que inclui os pais, é preciso que as famílias destinem tempo para convivência interpessoal. A criança tem de ser estimulada desde pequena a experimentar o prazer do afeto em brincadeiras, contatos de carinho e de convivência em ambientes ou momentos em que não há a presença da tecnologia", aborda.
A secretária aborda outra questão da "frieza tecnológica". "Além de subtrair as relações, a Internet gera um problema grave de identificação de relacionamento interpessoal. No celular, o usuário pode retirar da conversa, bloquear quem não gostou, deixar de falar, se esquivar ou fugir do diálogo quando ouve algo que não gosta. Isso é um comportamento egoísta acentuado pela tecnologia muito prejudicial e que não está sendo levado em conta. Quebrar o frente a frente, a conversa com o que não gosto, não só robotiza as relações como impede o desenvolvimento da capacidade de desenvolver contatos emocionais e a convivência com o que não gostamos. Vejam os sinais cada vez mais presentes de intolerância em várias frentes", reforça Miziara.
E NA ESCOLA?
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| Audiência Pública na Câmara Municipal sobre internet |
Como gestora pública, Isabel Miziara defende posicionamentos centrais a respeito do uso da Internet e dos aparelhos eletrônicos na escola.
"Na escola, o professor tem de usar as possibilidades da ferramenta tecnológica como instrumento pedagógico. É evidente. Mas, ao mesmo tempo, atentar para o uso indevido do celular pelos alunos, durante a aula. E, mais que isso, observar o risco do uso da Internet como 'copia e cola'. E como? Inserindo apresentações orais, pedindo texto manuscrito de resumo dos conteúdos e revisando e dando retorno sobre o que foi escrito. Sem isso, não há como identificar a robotização do copia e não corrige", aponta.
Para a diretora da Secretaria do Bem-Estar (Sebes), Walquíria Valério, a extensão do programa de capacitação, entre educadores e pais, é alternativa.
"A incidência do desafio da Baleia Azul deixou todos alertas. Mas não se pode interromper a ação de combate aos extremos. Na Sebes, tivemos capacitação dada por psicólogos para analisarmos conteúdos e de que modo fazer a abordagem. O caminho é a sensibilização, o diálogo sobre os perigos. E é um trabalho longo, um a um. Tem de espalhar esse processo entre os Cras, assim como na rede de educação. Mas é um trabalho que tem de ser permanente e não incorrer no risco da ação pontual", estabelece.
Em contato com as famílias, até em razão das ações assistenciais de campo, a profissional destaca: "O problema de uso excessivo contaminou tanto pais quanto filhos. Então, é evidente que tem de concentrar nos pais para interromper o processo de acúmulo de erros e prejuízos na origem", enfatiza.



