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Esquisitices de estimação

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Muita gente normal não entende como é que vou ao shopping e passo batido pelas vitrines. Olho o quiosque de sorvete à frente, as decorações, o movimento, mas vitrine que é bom, nada. E nada tenho contra comprar. Só não dá para ficar andando de pouquinho, pelos cantos, parando a toda hora, para espiar o tênis da moda.

E o que dizer de não conseguir sair do carro quando uma música no rádio está no fim: é preciso aguardar mais um pouco para saber qual começa em seguida. Só para saber mesmo, não precisa seguir ouvindo.

Falar sozinho, hoje em dia, é normal. Mas... e ficar desconcertado quando chega em casa e está lá a imagem estarrecedora de um chinelo sozinho, um só, sem pistas nem pegadas do outro. Só resta revirar tudo até encontrar o pisante que falta ou... noite em claro.

Sigo curado desde a adolescência desse negócio de morder a gola da camisa para sentir a arrepiante sensação gerada entre os dentes, mas nem tudo parece ter jeito. Elevador panorâmico: tô fora! Lotar a carteira de papeizinhos e cartões de visita: tá dentro.

Aliás, não resisto a duas coisas: cartões e bebedouros. São três bebedouros no caminho? Vamos parar nos três e provar dessa água boa. Bem que eu poderia ser contratado como degustador de água de bebedouro.

Frango frito, bistequinha: parece que sempre estão crus. Toste-se. Tomate: só uma cachoeira da torneira para lavar de acordo. Alguém caminhando sozinho à frente na mesma calçada? É preciso ultrapassar.

E por aí vai. Já foi pior: aos 14 anos, ouvia vozes (lamúrias do outro lado (?) como algazarra de turma antes de uma reunião). E ficava horas regulando o grave do som (com o som ligado).

Simba, meu cachorro que se foi aos 14 anos, entendia minha manias. Talvez porque ele também curtisse as dele. Talvez a maior esquisitice seja não ter nenhuma. Quais são as suas? Cuide bem delas. Pensando bem (ou melhor, falando sozinho) anormal é não ter estima pelo esquisito. Sem exageros, ele até que é legal e sociável: não estranha ninguém.

O autor é editor do JC.

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