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Entrevista da Semana: Paola Yumi Hara

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Os aprendizados por um sonho

Fotos: Divulgação
Paola ainda com 9 anos: começo da carreira de modelo
Paola, Priscila Hara (irmã mais velha) e Leide de Lima (mãe)
Título Miss Nikkey em Lins 2017
Paola Hara desfilou pela Mocidade neste ano em Bauru

Paola Yumi Hara, 20 anos, 1,70 m de altura, criada sob a companhia irrestrita da mãe, a inspetora de alunos Leide de Lima, não sabe, ainda, se fará faculdade de fisioterapia ou odontologia. Mas tem certeza de que alimentar e persistir no sonho de ser modelo e miss fez a diferença. Depois de ouvir os jurados darem cinco negativas em diferentes concursos pelo Interior, depois de ficar doente ao enfrentar a frustração com um agente ao, após o book aos 10 anos, não levar adiante a promessa de que a levaria para fotos e desfiles no exterior, Paola conta que aprendeu. 

Aprendeu com a frustração, a orientação da mãe, e os insucessos. Vencedora de concurso em Lins, eleita miss Bauru em 2017, ela foca, agora, na pré-seletiva para a miss São Paulo, no final deste mês, na Capital.

Paola conta do aprendizado, do amadurecimento, das lições acumuladas nesta entrevista. Antes, pede o apoio de empresários para representar a região do "coração de São Paulo" na disputa estadual. Patrocínio para custear a programação é seu desafio mais pontual. Os outros virão na passarela e no tempo:      

Jornal da Cidade: O que atraiu você para este meio repleto de glamour, mas onde a disputa e exigências são enormes?

Paola Yumi Hara: Eu falo que sonhos parecem que vêm logo que a gente nasce. Mas eu confesso que decidi mesmo depois de um período duro. Eu fiquei doente depois de entrar em uma agência e receber do agenciador a promessa de que eu iria para fora do País. Mexer com o psicológico de uma criança de 10 anos, que é o que eu tinha na época, afeta muito. As promessas me geravam muita expectativa. Tem muita pressão psicológica. Eu era magra, e o cara falou que ia ainda ter de perder medidas. É um padrão muito específico de medidas. Depois que eu passei por essa dificuldade, porém, e fiquei até doente, eu me convenci de que era isso que eu queria. E disse isso pra minha mãe. Alimentei ilusões e voltei com 12 anos e voltei para esse mundo. Mas eu decidi, apesar dessa idade, que ia mesmo voltar com meu corpo.

JC: Você comenta isso agora, com 20 anos. Mas dava para ter toda essa noção apenas com 12 anos?

Paola: Eu tinha essa noção. Eu acabei aprendendo rápido por sofrer com a ilusão que eu alimentei. Eu sei que é pouca idade, que isso é difícil. Mas eu amadureci rápido, se vermos a idade. Acho que a questão central foi que minha mãe foi muito tranquila ao encarar tudo isso. Claro que ela ficou com um pé atrás, porque gastou muito dinheiro no começo, com book, roupas. Mas quando eu disse que queria isso, ela disse que estaria junto. Ela apenas orientou que ia me ajudar, mas que não ia mais pagar por book, gastos que as agências exigem em todo começo. Hoje eu falo que tem que ter aquela confiança desconfiada. E os pais têm de sempre estar junto. E não importa se a menina, ou menino, já têm 18 ou 19 anos. Os pais juntos são garantia. É a base. 

JC: É um aprendizado lidar com frustração, com exigência de padrões, comentários de fora?

Paola: Sim. Mesmo entre alguns familiares, pessoas próximas, sempre tem aquele que vem e diz "você não tem porte", "isso nunca vai acontecer". E tem oportunistas sim, aqueles que estão do lado de lá e querem tirar algum tipo de proveito. Alimentar esse sonho dá dinheiro. Tem de ter muita cabeça. Por isso insisto que a família, os pais, os mais experientes, é que faz a diferença. Eu participei do primeiro concurso de beleza com 15 anos. Eu falava que estava preparada para modelo. E concurso de beleza envolve sorrir, passarela, postura, pensar o que se fala. São coisas diferentes. E confesso que fiquei bem triste com o primeiro não. Participei no início de concurso para meninas orientais. E os orientas são mais rígidos. E disputei com meninas sem a mistura. Eu sou mestiça. E não fui bem nos primeiros concursos. Foi difícil sim lidar isso. Eu enfrentei orientais, tipo bem orientais, e eu filha de uma mãe de mistura indígena com japonês. E tive de aprender a lidar com a frustração. Foram cinco nãos que eu tive.

JC: Aí você partiu para outros concursos?

Paola: Sim. Conversei com minha mãe de tentar em concursos de miss e não só de orientais. A miss Brasil, miss universo hoje são concursos com muita mistura e inclusive com mudanças em relação ao padrão, às medidas das modelos. Já caiu um pouco aquela exigência rígida de tudo muito magro. Então eu resolvi apostar exatamente em ser brasileira e mestiça. Quero incentivar muitas meninas com o fato de eu ter também recebido muitos nãos, perdido várias vezes, mas ter conseguido vencer. Têm muitas meninas que escondem o sonho de ser modelo porque não são tão magras. Concursos de beleza hoje aceitam perfis diferentes. Primeiro eu quero que elas vejam, pelo meu caso, que é possível sim ir lá e insistir, levar o sonho de ser miss adiante. É claro que neste momento eu estou focada na seletiva para a miss São Paulo, que já é dia 24 de fevereiro, na Capital. E se passar nessa pré-seletiva você já está automaticamente entre as que vão disputar o concurso miss São Paulo, que deverá ser entre março e abril. E tenho de sonhar alto. Quem sabe para o miss Brasil.

JC: Como você se cobra nessa etapa em relação aos quesitos do concurso?

Paola: Acho que hoje sou muito tranquila em relação a tudo isso. Mas também sei que tenho pontos a ajustar, como em postura por exemplo. E estou aperfeiçoando isso. Eu tenho o sonho de ser miss, estou nele, mas também tenho o sonho de me formar. E hoje eu estou avaliando se é melhor eu fazer odontologia ou fisioterapia. Tenho dúvida. E sei que essa carreira não é tão longa. A Gisele Bundchen conseguiu levar a carreira por tempo longo. Mas isso não é fácil. Então não vou abrir mão de meus estudos. Vou conciliar meu sonho como modelo, mas sem abrir mão dos estudos. Quero ter formação universitária.

JC: Como você se vê em relação a garotas e garotas de sua faixa etária. Muitos estão no chamado 'mundo da lua'? Não é nada disso?

Paola: Eu vejo que minha mãe me tornou uma pessoa responsável. Ela sofreu muito. E foi difícil porque eu não tive convivência com meu pai. Ela soube me mostrar realmente como é o mundo. Me preparou. Ela soube conciliar as diferenças da idade. E eu vejo que os "nãos" que eu recebi, nos concursos, em casa, me tornaram forte. Eu me considero sim uma menina madura para minha idade. E vejo que isso não é assim pra todas. Existem sim as que não estão nem ai para o mundo, a fase em que estão vivendo. Eu tento dizer para quem a gente pode dizer. E tem muita gente que atrapalha, até próxima. Tem inveja, tem muita opinião contrária. E o mundo está mesmo muito cruel. Mas eu não vou desejar o mal para ninguém. Se a pessoa quer o mal, eu desejo felicidade. Eu sou assim, não sei ficar guardando raiva. Não vai adiantar. Isso tudo me ensinou muito. Eu não parei. Levei "não" em cinco concursos. Mas ganhei em Lins e agora venci em Bauru. Eu sei que mesmo tendo perfil eu posso perder. Mas eu creio que vou me sair bem. Eu vou fazer o melhor que eu puder.   

JC: O que mais você quer fazer?

Paola: Focar agora no miss São Paulo. Depois definir a faculdade que quero fazer. E quero também aprender teatro, uma área que vai me abrir outros campos depois, quem sabe em televisão, em outras coisas. Tem passarela, tem concurso de atriz, tem televisão. Eu quero ver as portas e ver se consigo abrir caminhos. 

JC: É muito difícil decidir carreira aos 17 anos?

Paola: Tenho várias amigas que estão com muita dúvida. Algumas que estavam querendo medicina, batalham há tempo em cursinho, e agora já falam em outra carreira. E é mesmo muito difícil escolher uma faculdade para decidir uma profissão com 17 anos. Eu tenho essa dificuldade também. Eu tenho uma irmã com 30 anos que, com 17 anos, queria medicina. E hoje ela está no Brasil e faz engenharia civil. Tem de ver isso, resolver com o tempo. Em casa somos eu, duas irmãs, minha mãe, e uma sobrinha agora (Lara).

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