Articulistas

O que se pensa não se fala

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

A gente dorme, acorda, dorme novamente, acorda de novo e não percebe a máquina incrível que a gente é. O coração, por exemplo. O dia todo batendo 100 mil vezes sem parar (ainda bem). Tudo para bombear 7,5 mil litros de sangue para todas as áreas do corpo. Incrível. Como um verdadeiro surdo de escola de samba, lá vai ele - enquanto houver avenida - marcando os passos da nossa vida.

Deixemos de lado o poético coração para falarmos do prosaico nariz. Dá pra acreditar que, num daqueles espirros gostosamente escandalosos, expelimos mais de 40 mil micro gotículas de saliva? E mais, todas voando numa velocidade que pode atingir 950 km por hora! Coisa de avião a jato, nossa!

Agora, nessa incrível engenharia humana, existe algo incomparável: a privacidade absoluta do nosso pensamento. Se, hoje, os hackers e os fofoqueiros de plantão invadem cada centímetro da nossa vida, na praia do nosso pensamento ninguém entra. Na nossa caixinha pensante, graças a Deus, o sigilo continua absoluto. E como ninguém tem acesso ao que pensamos, ficamos à vontade para imaginar coisinhas impublicáveis sem o menor constrangimento. Agora, fico pensando que algo terrível poderia ter acontecido conosco. Imaginemos que o Criador desse mundão tivesse colocado, na nossa testa, legendas. Sim, legendas, exatamente como nos filmes estrangeiros. Seria impossível viver. Seria o mais absoluto caos. Todos usariam franja ou boné. Ouviríamos coisas assim: "Vai pensar isso da sua mãe, desgraçado!" Também assim: Filho de uma Santa, pensando nessa vagabunda outra vez! Respiremos fundo, disso estamos salvos. O Pai, na sua infinita sabedoria, soube nos preservar. Deu-nos cabeça trancada e boca aberta e esperta, que sabe dizer até mesmo o contrário do que pensamos. E poderia ser diferente? Claro que não. Ler, na testa do outro, o que ele pensasse de nós seria doloroso demais. Melhor continuar assim, todas as cabeças trancadas e mantidas as necessárias mentirinhas. Luz demais não suportaríamos. Transparência, também ela tem que ter limites.

Às vezes, a coisa se complica. Isso ocorre quando um pensamento indevido escapa da boca imprudente. Que o diga o jornalista William Waack. Fora do ar, resolveu fazer gracinha racista. Resultado: acabou ficando fora do ar. O Temer, peixão descuidado, conheceu o inferno ao fazer confidências ao gravador do Joesley. Já o sabido Delcídio fez a coisa diferente. Só aceitou negociar com o marqueteiro João Santana com uma condição: os dois pelados na sauna do ex-senador. Assim, o Delcídio praticamente eliminou a possibilidade de um gravador traidor. Digo "praticamente" porque a nanotecnologia tem feito milagres...Vai que um minúsculo gravadorzinho caiba onde não devia...

Essa coisa de fazer negócio pelado foi, reconheçamos, medida inteligente, mas reconheçamos também os sempre possíveis efeitos colaterais. Poderia, por exemplo, ter pintado um clima entre os peladões. Bem, aí o problema seria só deles. E somente eles poderiam decidir o que fazer com o inesperado "negócio".

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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