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Jornalismo em tempos de cólera

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Cartagena de Índias, Colômbia. Esta cidade não é só "hermosa e rumbera". Além de turistas do mundo todo, Cartagena também é um centro de estudos jornalísticos, na condição de sede da Fundación para um Nuevo Periodismo Ibero-americano, criada por Gabriel García Márquez. O autor de "Cem Anos de Solidão" deu os primeiros passos no jornalismo em Cartagena. A antiga sede do jornal liberal El Universal existe, ainda que meio em ruínas, na Rua San Juan de Dios. Depois de famoso e detentor do Nobel de Literatura (1982), o velho Gabo achou essencial que os profissionais do "melhor ofício do mudo" mantivessem vivos os princípios éticos. No final do século passado, o digital, o virtual e o tempo real começavam a promover mudanças no fazer comunicacional. Para ele, as mudanças tecnológicas eram inferiores em importância, diante do processo civilizatório da palavra impressa.

A conclusão a que chegam os estudos patrocinados pela FNPI é que a função pública, a busca da verdade, a responsabilidade e a independência ainda diferenciam o jornalista de outros provedores da informação. Nos últimos dez anos, tem sido objeto de discussão a chamada "ética da audiência". A audiência agora tem voz e parece viver tempos de cólera, além de se dar ao direito de ser, muitas vezes, anônima. Quando não, partidarizada.

As comunicações estão bem mais democráticas. É uma realidade. Existem suportes onde todos podem se expressar. O problema é que ainda estamos em busca de melhorar os níveis das conversações e interações. Se haverá imprensa daqui a 30 anos, ninguém sabe. A certeza é de que seguem os mesmos os valores e princípios que nortearam a ética jornalística até aqui. E precisam continuar, ainda que mudem radicalmente as tecnologias de informação e comunicação.

Esta cidade colombiana, "mui antiga e heroica", foi escolhida por Gabo para ambientar alguns dos seus romances. No Portal de Los Dulces, Fermina Daza rejeita Florentino Ariza, que havia se apaixonado pelas suas tranças. Eles se reencontram 51 anos, nove meses e quatro dias depois. "O amor nos tempos do cólera", virou filme com Javier Barden e Fernanda Montenegro no papel da mãe de Florentino. Cartagena havia sido abandonada em 1800, por medo do cólera, depois de haver resistido a três séculos de assédio dos bucaneiros e corsários franceses e ingleses. Na biografia tolerada de Gabo, escrita pelo inglês Gerald Martin, explica-se que "cólera", como substantivo feminino, significa ira, fúria. A que denomina a doença infecciosa, que dá diarreia e prostração, é substantivo de dois gêneros. O mal é provocado pelo vitrio cholerae. Daí a preferência do escritor por "tempos do cólera". Quem assistiu ao filme, com certeza vai apreciar as cores de Cartagena com outro olhar.

Desde maio do ano passado, as cinzas de Gabriel García Márquez estão no Claustro de La Merced, que faz parte do complexo da Universidade de Cartagena. Nos anos 1950, quando se mudou para a cidade, o escritor virou habitué do Barzuto Social Clube, no pitoresco bairro de Getsemani. O ilustre cliente está no cardápio e na parede. Dizem que também frequenta o local, "em espírito", para ouvir os tambores e cantos africanos do grupo que se apresenta ao vivo É um bom lugar para uma taça de vinho branco gelado, acompanhado de empanadas de camarão. A casa onde morou o expoente da escola literária chamada de realismo mágico, não pode ser visitada porque é uma habitação privada. Na parede há uma frase sua: "Ningún lugar en la vida es más triste que una cama vacía".

No mercado de peixes, bem junto ao mar azul-turquesa do Caribe, quem leu "Cem anos de solidão" vai se lembrar da famosa primeira frase do romance: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo". Trata-se de uma lembrança do autor, de quando o avô o levou para ver peixe coberto de gelo, no mercado. O menino Gabo sentiu os dedos queimarem ao tocar, pela primeira vez, as pedras translúcidas como vidro.

Ele nunca mais se esqueceu. Por trás da frase evocativa veio o romance inteiro, como se fosse um cavalo e a obra tivesse baixado nele. Mal sabia o escritor, do inferno que viria depois...

O autor é jornalista e articulista do JC.

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