Por mais que pareçam contraditórias, mesmo subindo a confiança do consumidor e caindo a confiança do comércio, ambas indicam a mesma coisa: a economia tem recuperação lenta.
Explico melhor. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) apura os índices de confiança tanto do consumidor como do comércio. No mês de julho deste ano, se comparado a junho, o consumidor se demonstrou mais confiante na economia. O índice subiu 2,1 pontos, atingindo a marca de 84,2.
Já o comércio, no mesmo período, reduziu sua confiança na economia em 0,8 ponto atingindo 88,8 pontos. A explicação para que ambas indiquem a mesma coisa está na análise da pontuação: os dois indicadores estão em baixa histórica.
Para o consumidor, os últimos dois meses trouxe enorme transtorno em função da greve dos caminhoneiros. Seria natural que, passado o pior momento, ele demonstrasse que está mais confiante, mas isso não quer dizer que sairá as compras e tampouco que recuperou seu emprego. É somente uma percepção de que, olhando o passado recente, as coisas melhoram. Na prática, precisou piorar mais para agora ter a percepção de melhora. O comportamento do consumidor mescla o racional com o emocional.
Já o comércio é mais cético. O empresário antes de responder a pesquisa levanta suas vendas, analisa seu nível de estoque e ainda seu capital de giro. Quando compara seus indicadores de desempenho com outros períodos, conclui que a coisa anda lentamente, assim, verbaliza sua desconfiança, reduzindo o índice levantado pela FGV. Como colocado, ambos indicam a mesma coisa: consumidor e empresário cautelosos, constatando recuperação lenta da economia, com os mercados de trabalho e de consumo ainda aquém do que seria plausível para este período do ano. Tudo isso foi potencializado pela recente paralisação dos caminhoneiros.
O que esperar? Mesmo considerando, salva nova paralisação dos caminhoneiros, que o segundo o semestre será melhor. Será melhor, mas não será o suficiente para demonstrar que o ritmo de crescimento se intensificará.
As incertezas ainda nortearão o comportamento dos agentes econômicos. Continua a crise internacional protagonizada pelo destemperado Donald Trump, tem ainda o desafio fiscal com a atual equipe econômica do governo Temer quase jogando a toalha no tocante a ações estruturais na economia, somados as incertezas eleitorais, notadamente no tocante ao modelo econômico que será adotado por aqueles que lideram as pesquisas da corrida da sucessão presidencial, não há dúvidas que os investimentos serão adiados e que o mercado de trabalho, principalmente ele, demorará a se recuperar.
Quer pela dinâmica da economia, quer pelas datas importantes para o comércio (dia dos pais, dia das crianças, Black Friday e natal), quer ainda pela injeção do décimo terceiro salário, é possível projetar números melhores, mas como sempre tenho colocado, sempre em ritmo lento, não recuperando o tempo perdido.
Resta-nos estabelecer planos A, B e, se necessário, o C. O ambiente eleitoral exigirá de todos que operam o mercado capacidade de adaptação de mudança no rumo das coisas.
Meses desafiadores pela frente. Quanto aos indicadores de confiança estes ainda demonstram que há muito que fazer para que os agentes econômicos saiam da defensiva.
O autor é economista e articulista do JC. Está no Youtube no canal Planeta Economia.