Política

Mourão prevê mais rigor nas fronteiras

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.
O general Antônio Mourão, candidato a vice-presidente com Jair Bolsonaro, fez palestra no auditório da ITE

Antônio Hamilton Martins Mourão (PRTB), general da reserva do Exército Brasileiro, esteve nessa quarta-feira (19) em Bauru na condição de candidato à vice-presidência da República na chapa encabeçada pelo deputado Jair Bolsonaro (PSL). Em entrevista ao JC, no Café com Política, Mourão respondeu a temas como a agitação social e política que permeiam o País neste momento. O candidato foi convidado a fazer uma palestra na Instituição Toledo de Ensino (ITE), cujo auditório esteve lotado, na manhã dessa quarta.

Jornal da Cidade - Em função da enfermidade do candidato, convido o senhor a responder como representante da candidatura Bolsonaro. Se eleita a chapa que o senhor representa, a Polícia Federal continua a atuar nas fronteiras ou o Exército assume outro papel no combate ao tráfico de armas e drogas?

Hamiltom Mourão - Temos 16 mil km de fronteira com países diferentes e características distintas de Norte a Sul. Temos uma área bem vivificada no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e Mato Grosso do Sul. A partir daí temos um vazio demográfico, com pequenas localidades e com dificuldade em área de selva e pântano. Nessas áreas não há mobilidade tão grande como ocorre mais ao Sul. Há certa propensão ao exagero quando se diz que armamento e droga entram em grande quantidade vindo pela Amazônia. É uma rota muito extensa pra chegar ao mercado consumidor. A droga mais desce dos países produtores, Colômbia, Peru e Bolívia, e entra por fronteiras com a Bolívia e Paraguai. Para essas fronteiras temos que intensificar o sistema de monitoramento que vai nos dar a tecnologia para conseguir suprir as áreas de vazios e também investir em outras tecnologias em atividades já ligadas à Receita Federal e da própria Polícia Federal, como scanner de alta definição. Só tínhamos um scanner em Foz do Iguaçu e ele está quebrado. O Exército continua com o que está previsto na lei de 2004 que deu o poder de polícia na faixa de fronteiras.

JC: Em reportagens na tríplice fronteira amazônica, em cidades como Tabatinga, o tráfico cooptou jovens, há disputa de gangues e uma região "protegida" por floresta e água. Em Tefe e Coari há aeroportos há 5 horas de Miami. Como fica o isolamento Amazônico nisso?

Mourão: No isolamento amazônico a presença é só do Exército, fora os ribeirinhos. Em cidades como Tefe e Tabatinga, que você citou, temos guarnições militares com Batalhão. E tem guarnições nos quatro rios principais entrantes. Lá tem garimpo ilegal, narcotráfico com dissidentes das Farcs que continuam passando drogas. Não é uma quantidade grande, já tivemos vários confrontos, como no início deste ano no rio Japurá. Esse trabalho vem sendo feito. Agora, a cooptação dos jovens que você falou está muito ligada a esse anseio que as pessoas têm de enriquecer rapidamente e à falta de oportunidade de emprego na região. O governo Amazônico e Federal têm de investir mais nessas áreas.

JC: Todos os cenários apontam baixa renovação no Congresso, apesar da desesperança social. Como ficaria a governabilidade com Bolsonaro presidente ao lidar com perfil de deputados que a candidatura hoje combate do ponto de vista moral?

Mourão: A realidade é que nós esperamos que tenhamos uma bancada na faixa de 130, 150 deputados que estejam efetivamente dentro do nosso programa de ideias. E tenho dito que caberá ao presidente Bolsonaro ir ao Congresso e, num discurso em rede nacional logo que se iniciar o mandato, apresentar o Estado real ao País. O País que tem de entender a situação em que estamos vivendo, praticamente sem recursos. E tem de mostrar ao Congresso as reformas que são necessárias. É a pressão das ideias e a população também fazer sua pressão junto aos congressistas. E lógico terá de haver diálogo ponto a ponto.

JC: Mas o jogo real do poder mostra que mudanças profundas com um Congresso com perfil ruim é muito difícil. O deputado Bolsonaro sabe e viu lá este Congresso engavetar questões como as 10 medidas anticorrupção, apesar da pressão das ruas. Como desmontar isso?

Mourão: Nós só vemos a solução de cooptar via nossas ideias. Porque se for tentar manter o esquema de hoje, o famoso toma-lá-dá-cá, nós não estaríamos cumprindo o que estamos prometendo para os eleitores. Estamos prometendo governo de austeridade, gerencial e sem corrupção. Sei que teremos dificuldade imensa. Mas teremos de ter determinação e coragem pra enfrentar. 

JC: Medidas duríssimas terão de ser tomadas, seja quem for o eleito, para estancar rombo fiscal, resolver a previdência, desemprego...

Mourão: Exatamente. Uma ideia é a redução do IPI, dar 60 dias para o pagamento disso, de modo que as empresas conseguissem tomar fôlego, outras voltarem a funcionar. Mas é uma questão para os tributaristas da equipe do Paulo Guedes verem. Temos uma matriz de 70% no setor de serviços, onde temos de dar uma mordida e a indústria voltar a contratar. O modelo da previdência está esgotado, não só pela quantidade de pessoas que trabalharam e vão se aposentar, mas também pela má gestão, recursos que desapareceram de diferentes institutos de aposentadoria. Teremos de alongar a idade para aposentar, não dá pra fugir disso. Não dá para aposentar com 50, 55 anos. Tem problema da população rural, de casos como o Interior do Nordeste, que terá de ser olhado de acordo com as realidades.       

JC: O plano Bolsonaro fala em estado mínimo? Qual? E o que fazer com Petrobras e Embraer, por exemplo?

Mourão: Não é a questão só da privatização. O estado mínimo começa pelo enxugamento da própria estrutura do Executivo que é muito grande. A burocratização que tolhe a livre iniciativa. O excesso de regulamentação e até nos chegarmos às privatizações. A Petrobras é S/A, o governo tem 51% e os outros 49% são de minoritários. O que eu vejo, e o Bolsonaro concorda, é que a distribuição e o refino podem ser privatizados. O resto mantém. A Embraer tem uma disputa no mercado para poder colocar o KC 390. Ela tem de ter parceria de peso (Boeing) para poder enfrentar a Bombardier que está se ligando com a Air Bus. Temos de preservar o conhecimento. Mas tem de ter abertura nas demais áreas. 

JC: Para outras correntes, a Petrobras investiu para dominar prospecção em profundidade. Tem sentido vender o produto bruto?

Mourão: Também concordo. Só acho, e o Bolsonaro também concorda, que distribuição e refino favoreceriam com a livre concorrência.             

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