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| Torre com as três cornetas de alto-falante para o som se espalhar por Areiópolis |
Mesmo frente à modernidade com recursos comunicacionais como a Internet, televisão, rádio, jornais e panfletos informativos, o serviço de alto-falante ainda resiste em municípios de pequeno porte na região de Bauru e até em cidades como Botucatu, de de 144.820 mil habitantes. É uma tradição fundamentada na oralidade e nos valores culturais da comunidade.
O conteúdo da divulgação se baseia no noticiário necrológico, de festas religiosas, de utilidade pública, extravio de documentos e propaganda comercial. Em Areiópolis, o coveiro aposentado do cemitério municipal Benedito Paz mantém desde 1968 o serviço de alto-falante. É ainda a principal fonte de informação na divulgação de notas de falecimento da cidade.
O estúdio fica na garagem da casa de Paz, conhecido popularmente como Dito Coveiro. Ele já foi locutor de rádio, mas nunca abandonou o serviço de som. Já teve reclamação de perturbação de sossego de vizinhos, mas a tradição superou eventuais problemas com o setor de fiscalização da prefeitura.
O Serviço de Som Santa Cruz funciona somente uma hora por dia e esporadicamente o locutor lê nota de falecimento quando necessário. Pelo alvará de funcionamento pode operar das 8h às 20h.
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| Dito Coveiro anuncia falecimento de pessoas pelo serviço de alto-falante |
Dito Coveiro virou um "patrimônio histórico" de Areiópolis. Começou na praça central da localidade e depois se transferiu para a sua residência em meados de 1980.
Ele não é o único nessa atividade, outras cidades mantêm esse tipo de serviço. Em Piratininga, as notas de falecimentos são lidas por Helio Pires Rosa no serviço de som mantido pela paróquia. Há outros similares como em Arealva também mantido pela igreja Santa Catarina de Alexandria, cujo locutor é Dorival Donizete Martins de Azevedo que passou a ficar encarregado, depois que o antigo locutor decidiu se aposentar. Em Boraceia e Fernão, também o serviço é mantido pelas paróquias da cidade.
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| O Lau Som herdou a profissão do pai, que começou o serviço de propaganda em 1950 |
O alto-falante foi utilizado pela primeira vez no Rio de Janeiro durante um evento comemorativo do centenário da Independência da República em 7 de setembro de 1922, o que impressionou os participantes da festa. A partir de então se popularizou no restante do País, principalmente nas cidades de interior. Com o advento do rádio, a sua influência foi sendo reduzida, mas persistiu em pequenas comunidades, sempre voltado para a prestação de serviço.
Mas até em Botucatu, um município com população de porte médio, a tradição ainda é mantida, com pequena diferença. Em vez do sistema funcionar fixo em um local, o alto-falante é volante. Com 34 anos de serviços prestados, Wenceslau Pinto Junior, o Lau, herdou a atividade de seu pai, que manteve o ofício por 34 anos até passar para ele. No município mesmo existindo sete emissoras de rádio nas frequência de AM e FM, a população ainda se informa por nota de falecimento de carro de som.
Dito Coveiro, o locutor funerário
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| Benedito Paes, conhecido por Dito Coveiro, anuncia falecimento de pessoas pelo serviço de alto-falante em Areiópolis; chapelão com broches de Nossa Senhora da Aparecida |
O aposentado Benedito Paz, o Dito Coveiro, de 79 anos, é uma simpatia em pessoa. Devoto de Nossa Senhora da Aparecida, gosta de usar um imenso chapelão com dois broches bem no alto da aba com a imagem da padroeira do Brasil. A sua casa fica no alto do bairro Nosso Teto, em Areiópolis, pequeno município de 11.099 habitantes, entre Lençóis Paulista e São Manuel. De onde um mastro de mais 12 metros de altura sustenta três cornetas de alto-falante que irradiam o som para a cidade. É de um potente amplificador de 300 watts que é transmitida a voz de Dito Coveiro na divulgação de nota de falecimento, publicidade e "modão" sertanejo.
O apelido ele ganhou pelos 34 anos que trabalhou no Cemitério Municipal. Ele é dos tempos que enterrava o defunto na cova com 7 palmos de profundidade, sem caixão. Nada de carneira e "modernidades". Dito Coveiro é o locutor, vendedor de propaganda e "estrela" do Serviço de Alto-Falante Santa Cruz. É uma atividade prestada à população desde 1968, considerado "patrimônio histórico" da cidade.
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| Chapelão com broche de Nossa Senhora da Aparecida de Benedito Paes, o Dito Coveiro |
Recentemente, uma polêmica para "calar a voz" de Dito Coveiro acabou numa negociação que entrou até o prefeito na renovação do alvará. É que houve uma reclamação de morador contra o som alto que acabou indo parar na delegacia por pertubação do sossego. Houve, então, um abaixo-assinado de apoio a favor do serviço prestado por Dito Coveiro.
Em Areiópolis, não é pelo rádio, Internet ou essas modernidades que o cidadão fica sabendo sobre quem morreu, lá é como antigamente: pelo alto-falante que a população toma conhecimento de "quem partiu dessa para melhor", como ele diz.
O serviço começou em 1968 na praça da Matriz, de onde ficou até 1998, depois Dito Coveiro mudou para a residência que se localiza no alto do espigão do bairro Nosso Teto. Dali em diante ele abriu firma e recolhe regularmente na prefeitura a taxa para ter o alvará de funcionamento.
Dito Coveiro já teve programa de rádio por oito anos numa emissora comunitária do município que acabou fechando, mas nunca abandonou a sua pequena empresa. De segunda a sábado, o serviço de alto-falante é a sua maneira preferida para se comunicar com a população, que opera das 17h às 18h05 com música sertaneja, lê propaganda de lojas, mercado e as notas de falecimento.
PROSA
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| Estúdio fica no fundo de uma garagem, onde está o amplificador e onde Dito lê as notas de falecimento |
Sentando na área da casa, Dito Coveiro é bom de prosa e vaidoso. "Vai tirar a foto de mim, pera aí, vou pôr a botina, eu tô de chinelo".
As notas de falecimento que ele lê no alto-falante não cobra das famílias. Quem envia é a funerária, que em troca garante um convênio de auxílio funeral para ele e seus familiares. "Nunca quis cobrar por esse serviço, a funerária é quem cobra", conta.
O alvará que conseguiu na prefeitura permite que Dito possa funcionar das 8h às 18h, mas ele prefere só operar no final da tarde por uma hora e cinco minutos. "Não vou ficar com a porta aberta o dia inteiro", emenda, ao mostrar o pequeno estúdio que funciona no fundo da garagem, numa sala que só cabe ele, uma poltrona, com um amplificador acoplado a dois toca CDs de carro e o microfone. Na estante os papéis de publicidade e CDs.
As notas de aniversário também fazem parte das que são lidas ao microfone, mas em menor quantidade. Durante uma hora, em média, são tocadas cinco músicas. E deita a falação, na voz pausada de Dito, que emposta para pronunciar bem as palavras.
Animado com o apoio recente da população, inclusive veio manifestação de Bauru, Botucatu, São Manuel, quando o prefeito e vice foram até a sua casa e garantiram que não vão cassar o alvará da empresa. "Enquanto você for vivo, o alto-falante vai continuar. A hora que você morrer, vai acabar tudo, aí já era, será um sossego. Aí não vai ter mais barulho", relembra a conversa dando um sorriso.
A polêmica deu alguns dissabores, como ter que ir à delegacia se explicar, e paralisação do serviço por três dias, mas tudo se resolveu.
VISITA A CEMITÉRIO
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| Mastro com santo é erguido todo ano e no fundo as cornetas |
Dito Coveiro, nasceu em Regente Feijó, e veio para Areiópolis ainda menino e residiu na zona rural até os 13 anos, depois mudou para a cidade.
Ele conta que entre criança e "grandes" (ao se referir a adultos) deve ter enterrado umas 7 mil pessoas nos seus 34 anos de serviço prestado como coveiro no município. A experiência na antiga profissão ajuda a não se emocionar na hora de ler as notas de falecimento. "A gente que trabalha de coveiro enterrava amigo que andava comigo. Cheguei a jogar terra na cara do defunto, o roldão de terra cobria tudo. Atualmente em sepultamento põe laje por cima do túmulo, no meu tempo era sete palmos de buraco e o corpo enterrado na terra. Cemitério é roça minha", conta.
E diante disso tem um hábito que cultiva até hoje: sempre vai ao cemitério. Isso até quando vai visitar uma cidade que não conhece, dá uma passada na necrópole. "Se eu não vou todo dia no local que trabalhei não tá bom. Se eu ficar um dia sem ir no cemitério, começo a sonhar de noite que tô cavocando, abrindo túmulo. Lá vou fazer oração para meu pai, minha mãe, meu avó e a meus amigos. É um costume antigo, por exemplo, acendo velas. No dia do pagamento, após receber a aposentadoria, compro 14 maços de vela e acendo no cemitério. É para pedir paz pelas almas", revela Dito sobre o hábito.
Também gosta de levantar mastro todo ano em homenagem a Santo Antonio, Santo Pedro e São João, além de ter a imagem dos três no quarto. "Quero morrer católico. A gente não pode falar nada nesse mundo, às vezes no fim da vida vira a cabeça. Não quero virar, como nasci quero morrer".
A música predileta é a sertaneja daquela raiz, de vez em quando toca um Zé Camargo e Luciano e música popular, quando alguém pede, mas Tonico e Tonico e Tião Carreiro são as preferidas. "Sendo moda de viola gosto de tudo", finaliza.
Carro de som do Lau divulga falecimento
| Malavolta Jr. |
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| Lau herdou a profissão do pai, que começou em 1950 com carro de som para anunciar notas de falecimentos |
Há tradições que não mudam e resistem ao tempo. O botucatuense também confia e se informa ao som do alto-falante para saber sobre nota de falecimento. No município, com 144.820 habitantes com sete emissoras de rádios e até TV a cabo, quando morre alguém na cidade ainda é informado pelo carro de som de Wenceslau Pinto Jr., o Lau, como é conhecido em qualquer quarteirão da localidade.
A voz pausada, com uma ótima dicção, informa quem morreu pela propaganda volante que percorre os bairros nos arredores da família do falecido. O serviço funciona desde 4 de abril de 1950. Começou com Wenceslau Pinto, inspetor de quarteirão e comissário de menor, que passou o conhecimento para o filho.
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| Perua usada como serviço de som quando pertencia ao pai de Lau, Wenceslau Pinto |
O 'Serviço de Alto-Falante Volante Popular, uma voz independente a serviço do povo', como começou a ser divulgado na época, é atualmente feito em um veículo Uno. São 68 anos de atividades, 34 sob a direção do pai e depois de 1984 o filho teve que assumir o serviço, porque Wenceslau Pinto teve uma queda e precisou afastar-se da atividade com problema de saúde.
Lau deixou um cargo de diretor administrativo na Unesp para se dedicar ao serviço de som, continuando assim com a tradição na cidade e da família.
O serviço contou ao longo dos anos com muitos locutores que depois seguiram carreira no rádio. Um deles é Oliveira Neto, já falecido, uma das mais belas vozes do rádio brasileiro. "Meu pai ensinou muitos locutores a como falar ao microfone, um deles o Oliveira Neto", emenda Lau.
"A nota de falecimento não pode errar, tem que ser precisa. A fala tem que ser com pêsame, como se fosse anunciar a morte de um ente querido da família", explica Lau ao citar a "receita" da boa locução que o pai passou para ele.
Muito do sucesso e da credibilidade adquirida ao longo dos anos é a voz cadenciada. Lau conta que, quando passa com seu Uno no final da tarde nas avenidas de Botucatu, as pessoas já ficam ligadas prestando atenção. Sabem que vão tomar conhecimento sobre a morte de alguém, de um amigo ou até parente.
Tudo é gravado com antecedência, sem fundo musical, e sempre no volume que não ultrapassa os 60 decibéis. "Sou rigoroso em obedecer às normas. Partiu da minha iniciativa uma lei municipal que regulamenta a atividade. Senão vira bagunça", relata.
Lau conta que desde os 9 anos já era locutor. E pela boa voz até trabalhou em emissoras de rádio do município, mas preferiu continuar na sua atividade, que rende mais do que estar vinculado ao serviço à alguma empresa de radiodifusão. "O pessoal confia no meu trabalho. Não tem jeito, nota de falecimento, anúncio de missa de sétimo dia, 30º dia ou de um ano, é com o meu serviço. O pessoal confia", atesta o locutor.
QUATRO INFARTOS
| Álbum de Família |
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| Documento expedido pelo Dops, de 1953, que autorizava a atividade do serviço de alto-falante |
Com quatro infartos, fumante inveterado por 60 anos (só abandonou o vício do cigarro há pouco mais de quatro anos), Lau conta que para manter a voz bebe muita água. Neste mês já leu 20 notas de falecimento. O chamado vem por telefone pela funerária."Já acostumei, gravo rápido e já saio para percorrer a região de onde reside o falecido para informar a hora do sepultamento. Ninguém em Botucatu faz igual, porque tenho locução própria. Consigo gravar rápido em dois minutos e já passar para o pen drive. Depois disso, a família escolhe o local que percorro para avisar", explica o locutor.
Nesses 34 anos, ele calcula que deve ter lido umas 60 mil notas de morte na cidade. Isso também lhe garantiu ter um conhecimento e guardar nomes de muitas famílias. A fama é grande, já foi entrevistado até por uma televisão americana.
E histórias não faltam como de uma greve que ocorreu em Botucatu e houve interdição em frente à delegacia. O delegado que ocupava o cargo à época era prefeito de Tatuí e ao se deparar com o carro de Lau em frente ao cordão de isolamento implicou com um policial que permitiu o veículo "furar" a rua interditada para que ele pudesse prosseguir com a divulgação de uma nota de falecimento.
Foi quando o delegado de Botucatu Antonio Soares da Costa Neto, conhecido por Toninho Malvadeza, interferiu: "Esse é dos nossos, pode deixar ele passar, porque ele divulga a notícia de pessoas que já morreu. E a gente não quer ser anunciado por ele".
O delegado ficou impressionado com serviço e quando acabou a greve quis até levar o carro de som de Lau para Tatuí, mas ficou nisso, por ser longe de Botucatu.
Lau inclusive já gravou a nota de falecimento dele com a sua própria voz. Quando partir deste mundo, o carro de som vai percorrer as ruas da cidade para divulgar que o mais importante locutor fúnebre, que divulga os nomes dos ilustres botucatuense, também partiu, mas o serviço deve continuar: uma das filhas (Karina de Oliveira) aprendeu locução e quando ele se ausentar em definitivo a moça deverá ser a herdeira do ofício.
Paróquias católicas da região ainda recorrem ao alto-falante
A tradição de divulgar nota de falecimento em alto-falante de igreja ainda perdura em municípios pequenos na região de Bauru mesmo tendo rádio comunitária de pequeno alcance. Geralmente é um trabalho voluntário exercido por integrante ligado à igreja católica.
A rigor, o alto-falante é uma espécie de rádio transmitido sem as ondas hertezianas por som com característica comunitária.
No Brasil, o alto-falante foi utilizado pela primeira vez no Rio de Janeiro durante um evento comemorativo do centenário da Independência da República em 7 de setembro de 1922, o que impressionou os participantes da festa e a partir de então se popularizou no restante do país, principalmente nas cidades de interior.
Em Arealva, na paróquia Santa Catarina de Alexandrina essa "missão" de divulgação de informes da paróquia e nota necrológica ficou para Dorival Donizete Martins Azevedo, de 59 anos, que "herdou" de Nelson Leteoviler que já está com 90 anos e passou o bastão para o amigo. "Ele deixou a atividade por causa da idade. Eu era responsável por ligar o som na igreja e devido a falta de pessoas para assumirem o serviço, acabei ficando encarregado e estou até hoje", relata.
Exercendo a função há cerca de 20 anos como locutor do serviço de som da igreja, Dorival conta que elabora e lê as notas de falecimento, além de prestação de serviço como anunciar documentos perdidos. "Aqui (na cidade) tem emissora de rádio e já pensaram em passar para ela, mas o povo prefere ouvir pelo alto-falante. A maioria é anunciado na igreja matriz e também na capela São Pedro", conta.
A família do falecido procura Dorival para passar os dados do anúncio, que são gratuitos.
Durante esses anos há momentos que não tem como não se emocionar, principalmente quando morre amigos íntimos ou como no caso da morte do pai e da mãe do locutor. "Deus me deu força para eu fazer a nota e comunicar a morte da minha mãe e depois do meu pai. A gente faz com certo sentimento e não vou falar para você que não fiquei emocionado. Tem que fazer o anúncio", cita o locutor do serviço de som de Arealva.
Em Piratininga, também existe o hábito de divulgar pelo alto-falante da igreja as notas de falecimento. Quem é o responsável é Helio Pires Rosa. Procurado pelo JC, ele não quis dar entrevista. Já com muita idade, ele contou que no momento se dedica a escrever um livro sobre a história do município. A pedido da paróquia ficou responsável pelos serviço de divulgação.
A paróquia Santa Luzia de Duartina já teve o serviço de divulgar nota de falecimento em alto-falante, mas o aparelho danificou e acabou suspensa a atividade. Em Fernão e Boraceia, também os moradores são informados pelo serviço de som da igreja sobre o sepultamento de algum morador.









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