Ciências

Felizes hoje e reaprendam sempre! Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 4 min

Esta é a 54ª turma da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de SP

Aprender e ensinar são essenciais e fáceis, mas reaprender e mudar são as atividades mais nobres da vida, pois além de difíceis e dolorosas, requerem desapego! Manipular com sabedoria as ferramentas do saber e aplicá-las para o aperfeiçoamento moral e espiritual implica no real desenvolvimento do "ser" humano. Ao entender isto, estaremos na antessala da sabedoria!

O professor, mais do que qualquer outro humano, deve reaprender e mudar o tempo todo! Para Buda, aprender é mudar. Eu sou o somatório de tudo que aprendi na vida? Claro que não, eu sou o produto de tudo que reaprendi e mudei. Cada pessoa, cada aluno, cada questionamento, cada ato que vivi e observei, cada crítica e sugestão, todos foram verdadeiros cinzéis que me esculpiram para que eu pudesse crescer emocional, espiritual e intelectualmente.

Quero ser grato a todos que passaram na minha vida, amigos e inimigos, bonzinhos e maus, hipócritas e cínicos, generosos e carinhosos! Nem quero saber se me usaram, se aproveitaram ou me acharam inocente ou manipulador, o que sei é que todos me fizeram pensar e crescer, pois tive que reaprender e mudar o tempo todo, 24 horas por dia!

Os pais são os primeiros mestres. O verdadeiro professor pode mudar o mundo pelo singelo trabalho de influenciar o caráter, a visão e a postura frente a vida. Em nome da sabedoria, eu peço desculpas aos que são maus, falsos, mentirosos, hipócritas e cínicos. Na verdade, cada um de vocês é resultado de convivências e experiências com professores despreparados, o que talvez explique o ódio e desdém que vocês têm com a figura do mestre.

Me atribuí a missão de ajudar e formar gente, sem jamais formatar a opinião final de meus queridos alunos. Sempre ofereci ferramentas e fatos para suas análises e decisões. Nunca quis colonizar o cérebro e o coração dos alunos fazendo-os pensar como eu. Procuro ver nos alunos os parceiros na jornada de nossos crescimentos humanos! Procurei não criar clones, mas seres que soubessem pensar sozinhos, independentemente de mim!

Informação todos têm, mas a profundidade do conhecimento, apenas o senso crítico e a capacidade de análise permitem para uma formação humana singular e sólida.

Aprender e reaprender o tempo todo, com humildade e dignidade é bom demais! A você, meu aluno da graduação, nunca pense que vou na sala apenas para ensinar. Toda vez que ministro uma aula, eu já sei muito antes que irei aprender muito por ali. Um gesto, uma palavra, uma crítica, uma abordagem, uma pergunta, um comportamento, eu não perco nada, observo tudo, não escapa nada: quero aprender e reaprender sempre!

HOMENAGEM

Esta semana recebi uma belíssima e generosa homenagem. Meu nome foi escolhido para identificar a 54ª turma da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. No meio da aula sobre cistos para o segundo ano da graduação, fui interrompido pela afinada bateria e alunos formandos para me informarem, em clima de surpresa, que estava sendo homenageado!

A escolha, a emoção e especialmente o discurso feito para explicarem por que me escolheram, me fizeram encher os olhos d'água e a molhar a face com gotas salgadas de lágrimas vertidas pelo reconhecimento explícito de que o caminho escolhido foi frutífero.

Espero corresponder à responsabilidade de identificar a 54ª turma, honrando-os, mas principalmente apontando para vocês e orgulhosamente dizer: são seres pensantes, humanos críticos, pessoas do bem cheias de princípios e emoções e que aprenderam que sozinhos não somos ninguém!

Que fique registrado o que repetidamente disse a esses meus parceiros e alunos da 54ª: façam o hoje, construam o hoje, sejam felizes hoje, pois o amanhã pode ser do imponderável, da surpresa e sempre será imprevisível. Digas hoje que ama a quem tenha amor no coração, explicite que admiras a quem tenha este sentimento, beije a quem goste e agradeça a tudo e a todos que lhe fizeram alguma coisa! O amanhã pode ser da doença ou da morte, da lágrima e do infortúnio e, se não o for, será uma surpresa e o novo dia merecerá abrir as janelas, ver o sol e dizer: viva a vida, viva o amor!

Por falar nisto, aproveito para dizer à 54ª turma: amo vocês e tenham minha gratidão! Que reaprendamos sempre!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC. 

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