Décadas atrás, eram poucas as mulheres que não tinham aprendido com suas mães, avós e bisavós a costurar, tricotar, bordar ou fazer crochê. A prática hoje pode não ser tão comum, mas essas técnicas ainda conquistam as novas gerações - principalmente, pela memória familiar que carregam consigo.
A bióloga Maria Alice Salvador de Oliveira, 60 anos, por exemplo, aprendeu as técnicas observando de longe a bisavó, quando ainda era criança. Muitos anos mais tarde, o hobby tornou-se negócio e há 32 anos ela é proprietária de uma loja de lãs e linhas, em Bauru. Neste período, deu aula para interessados de todas as idades, sinal de que as novas gerações também passaram a se interessar.
"Tive alunas também com 6, 8 e 12 anos. Inclusive para crianças autistas e com Síndrome de Down. É preciso sempre respeitar o tempo de cada um", comenta. Quem também aprendeu com ela foi a própria filha Fernanda Cristina Salvador de Oliveira, 34 anos. Aos 8 anos, ela bordou a primeira toalhinha de lavabo. Agora, a prática tornou-se sua segunda renda.
Fernanda é formada em turismo e tem pós-graduação em administração hoteleira, mas tem trabalhos manuais vendidos para países da Europa e nos Estados Unidos. "Bordar ainda serve como terapia. Me ajuda a relaxar e a manter o cérebro sempre ativo", garante. Sua pequena, de 2 anos e sete meses, Sophia de Oliveira Igepi também já se aventura com as agulhas.
LEGADO
A aposentada Maria do Rosário Catão Masiero, 69, conhecida como Rosarinha, aprendeu a bordar com a mãe e com as tias. "Todo o pessoal mais antigo da roça bordava", conta. Ela explica que, até hoje, quem não sabe desenhar continua dependendo de modelos para fazer os riscos que, com a linha, formarão a figura desejada para o trabalho.
"Tenho uma caixa bem antiga com moldes daquela época. Nem sei como a gente conseguia, porque mal tinha revistas e jornais com modelos."
Com a Internet, a nova geração da família revolucionou a forma de bordar. Filha de Rosarinha, Andrea Catão, 42 anos, fundou uma marca em homenagem à mãe e à avó. "Aprendi muito de artes manuais na infância, mas segui outro caminho. Foi há dois anos, com a crise econômica, que voltei a bordar, incentivada pelas amigas", explica.
Andrea diz que a escolha pela prática foi além do gosto pessoal. "Estava em um momento bem depressivo, sem saber o que fazer. Esse trabalho me deu novo significado". A amiga Danny Simões, 42 anos, que estudou moda e investiu em bordados, convidou Andrea para o coletivo The Local Girls Club, formado por seis mulheres bordadeiras.
"Ainda não consigo viver totalmente disso, mas fazemos feiras e recebo encomendas. Vou conciliando", conta Andrea, que soltou a criatividade antes de vender peças. "Eu dava presentes para todo o mundo e inventava coisas. Como gosto de bandas de rock, usava isso como tema", destaca.
E não são só as mulheres nesta onda. O artista visual Pedro Luis, 29 anos, está nela desde 2016. "Queria que o bordado fosse um complemento nas artes que eu já desenvolvia na época", comenta. Hoje, é sua principal linha de trabalho. "Publicitário, eu tinha vida de computador todo dia. O aprendizado empodera!", enfatiza.
FACILIDADES ATUAIS
Hoje, bordadeiras têm mais material disponível, como ampla variedade de linhas, cores e tecidos. Desenhos estão espalhados pela Internet. "Não existia bastidor [apoio para firmar o tecido], que ajuda muito. Minha mãe bordava na mão! Ainda prefere assim".
Danny aprendeu artes manuais quando criança e, depois, foi estudar moda. "Perto dos anos 2000, eu já havia trabalhado com diversos estilistas, e muitas peças eram feitas a mão. Comecei a resgatar essa memória", lembra. "Em 2013, senti uma explosão das artes manuais e voltei oficialmente a elas. Vi que o bordado era a minha favorita".
Danny, como as demais bordadeiras, encoraja aprendizes. "Muitos pensam em bordado em ponto-cruz [pequenas cruzes agrupadas para formar o desenho] ou outras técnicas difíceis, mas o bordado livre é muito mais simples", garante.
"Comecei a fazer parte de um movimento que renovou o bordado, criando desenhos mais modernos e feministas".