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Em Bauru, 22% dos divórcios ocorrem depois de duas décadas de matrimônio

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A fragilidade das relações no mundo contemporâneo, permeado por maior individualidade, faz com que casais que estão juntos há muitos anos sejam alvo de admiração e inspiração. Porém, até mesmo estas pessoas, que atravessaram décadas dividindo a vida com alguém, podem deixar de cumprir a promessa de separação apenas diante da morte.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados neste mês, 22% dos divórcios são registrados em Bauru depois de 20 anos do "sim". Em 2017, foram 1.260 casamentos dissolvidos na cidade, sendo 277 depois de serem comemoradas as Bodas de Porcelana.

Os motivos que levam ao fim de uma união duradoura são variados, podendo ser provocados por causas eventuais, como uma traição descoberta ou a paixão de um dos cônjuges por outra pessoa, ou gerados pelo desgaste natural da relação (veja mais no quadro acima).

Samantha Ciuffa
Psicóloga Rosemary Pandolfi: "Para durar a vida toda, o casal precisa conversar sobre a relação, fazer passeios a sós, regar este amor todos os dias"

"A rotina, o foco excessivo no trabalho, o cuidado com os filhos, a falta de tempo podem minar a relação, se não há uma atenção à vida amorosa. Para durar a vida toda, o casal precisa conversar sobre a relação, fazer passeios a sós, regar este amor todos os dias", comenta a psicóloga Rosemary Pandolfi, ela mesma uma mulher divorciada depois de 25 anos de relacionamento, 18 deles casada.

Em seu livro "Amor Líquido", de 2003, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreveu que o crescimento da busca pela individualidade - impulsionado pela revolução digital, onde os relacionamentos são tecidos e desmanchados com facilidade - tem contribuído para a dissolução das uniões de uma forma geral.

É uma mudança que ocorre em ritmo acelerado. Para se ter uma ideia, de 2010 para 2017, o número de divórcios em Bauru quase dobrou, saltando de 668 para 1.260 registros.

OLHAR PARA O OUTRO

Além da valorização da individualidade, a conquista da autonomia feminina, inclusive financeira, com o ingresso da mulher no mercado de trabalho, bem como a diminuição do preconceito sobre a vida depois do divórcio foram transformações recentes, historicamente falando, que proporcionaram o aumento do número de casamentos dissolvidos ao longo das últimas décadas.

"Os amores vão se modificando e cada um dos cônjuges vai evoluindo de maneira diferente. Quando as metas pessoais, as idealizações não evoluem junto com as metas do casamento, de vida a dois, ocorre este conflito. E, dentro deste ambiente negativo, um vai deixando de olhar para o outro e o casal vai se desconhecendo", pontua a psicóloga.

QUEBRA DA PARCERIA

Foi justamente a falta de diálogo e a quebra da parceria em prol da construção de um projeto compartilhado de vida que resultou no fim do casamento de 26 anos da secretária Lúcia Helena Alves de Assis, 53 anos. Há sete anos, ela decidiu pôr fim à união, depois de longos anos de descontentamento com a relação apática, e sem perspectivas de melhora, que vinha mantendo com o ex-marido.

Dificuldades financeiras e a distância, já que ele passou a trabalhar em outra cidade e retornar somente aos finais de semana, foram o combustível necessário para tornar a crise conjugal irreversível. "Foi um processo de quase dez anos levando o casamento desta forma, em função dos filhos, que ainda eram adolescentes. Ambas as partes foram se isolando, se acomodando, cada um no seu mundo. Houve algumas tentativas, mas a decisão pelo divórcio foi o melhor para todos", completa.

Legislação

Outro fator que favoreceu o aumento do número de divórcios foram mudanças na legislação, em julho de 2010, que tornaram o divórcio mais prático e rápido. Antes da Emenda Constitucional n.º 66, que deu nova redação ao parágrafo 6.º do Artigo 226 da Constituição Federal, era necessário ter pelo menos um ano de casado para solicitar o processo de separação ou não viver mais sob o mesmo teto há dois anos para ingressar com o pedido de divórcio direto. Havia ainda a necessidade de apresentar uma justificativa para a dissolução da relação.

Agora, quando o término é consensual e o casal não possui filhos menores de idade ou incapazes, a escritura pode ser registrada em qualquer tabelionato de notas, com a presença de apenas um advogado, sendo averbada em um cartório de registro civil. Porém, se o casal possuir filhos ou se o fim do relacionamento não for consensual, a pendência somente será solucionada por intermédio da Justiça e pode demorar alguns meses até ser concluída.

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