Uma das bandeiras levantadas na campanha para governador do Estado do Rio de Janeiro pelo candidato eleito Wilson Witzel esteve fortemente amarrada num tema que há vários anos desafia com vantagem as autoridades daquele estado, não havendo alguém que conseguisse um planejamento eficiente para minimizar o volume das ações criminosas praticadas contra a sociedade carioca. Trata-se da criminalidade que tem endereço conhecido no alto dos morros do Rio de Janeiro, posição geográfica favorável aos criminosos nas frequentes troca de tiros com agentes policiais, espalhando o terror por toda a cidade por meios violentos para confiscar recursos alheios que lhes asseguram uma vida sólida do ponto de vista econômico e aquisição de armamento moderno de grande poder de destruição. No dia a dia são registrados na polícia daquela cidade delitos como o tráfico de drogas, assaltos a pessoas, furtos de carga transportada em caminhões, bancos e carros que levam dinheiro sob custódia, quase sempre envolvendo mortes nos confrontos com os bandidos.
Os ousados e inconsequentes celerados, aprendendo na adolescência lições teóricas e práticas do crime nas escolas dos morros, não se arredam e nem temem os novos aparatos policiais de apoio, como as forças nacionais que permaneceram 9 meses plantadas nos sopés dos morros cariocas, registrando o mínimo de intervenções contabilizadas no seu retorno à caserna. Colheu um resultado tímido no combate a bandidagem, o que pôs em duvida se o auxilio militar obteve resultados satisfatórios ou foi somente uma exposição de poderio do estado com homens treinados para combater o malfeito nas fronteiras ou no campo, sempre distante dos limites urbanos.
No palanque eleitoral do ano passado, surgiu o juiz federal aposentado recentemente, Wilson Witzel, ainda jovem e sem nenhuma militância política, discursando com muita eloquência e determinação para colocar-se à disposição do eleitor como candidato a governador do estado. Prometeu o que ninguém havia prometido antes dele, salvo o atual presidente da república, em pré-campanha eleitoral e mesmo como candidato oficial de seu partido político, eliminar pessoas suspeitas de envolvimento em crimes portando fuzil ou outra arma de fogo letal, nos morros e vias públicas. Para justificar o abate perante a legislação penal em curso e nela refugiar-se como se não houvesse ocorrido um homicídio, por conseguinte, crime algum, nesse prisma a lei penal seria excepcionalmente enxergada no título -Exclusão de ilicitude- e aplicada a regra que o delito fora cometido pelo policial com justificativa na mera presunção do suspeito ser bandido.
Essa promessa conquistou de imediato a simpatia de grande parte do eleitorado, fato induvidoso comprovado na apuração dos votos com o nome do candidato encimando a lista dos votados, para gáudio do eleitor que mantinha um pequeno coeficiente de esperança de que seu voto tinha chances de gerar e parir uma nova política ressurgida na pessoa do destemido personagem até então conhecido apenas no âmbito judicial como defensor de princípios que deveriam ser honrados pelo político, e da eficiência da gestão dos serviços a cargo do estado, sobretudo o de segurança pública, com a declaração de guerra sem piedade contra os bandidos e suspeitos armados. Durante a campanha eleitoral, o candidato Wilson Witzel usou a linguagem do cidadão comum e vibrou no palanque como um político traquejado, embora inexperiente mas percebendo nas pesquisas eleitorais que a vontade do eleitor coincidia com sua mensagem reforçou entusiasticamente a tese da erradicação dos criminosos do mapa do Rio de Janeiro, morrendo na violência da mesma forma como agem nas bestiais investidas criminosas.
Decorrido o período eleitoral, via de regra as promessas de palanques tendem a mergulhar no esquecimento e, a retórica usada na colheita de votos é postergada. As transformações prometidas também são adiadas. O eleito vendo que as promessas são maiores que os recursos deixados pelo antecessor para concretiza-las, inevitavelmente declara a herança maldita recebida aconselha cuidar só das prioridades
No dia 3 de janeiro, já investido no cargo de governador do Estado do Rio de Janeiro, deu posse ao secretário da Segurança Pública, aproveitando a ocasião para fazer um breve discurso televisado, onde reafirmou seu pendor para a defesa da sociedade com o sacrifício do suspeito portando fuzil. Essa vontade excessiva é inconversível pela legislação por vedá-la. Para nós, cidadãos votantes, decepcionados com a gestão dos presidentes anteriores pedindo mais luzes sobre o palco, embora com desempenho a desejar, basta ter o ministro Lewandowsky desdobrado dispositivo legal indesdobrável para garantir na maior cara de pau à Dilma Rousseff no ato da cassação de seu mandato, os direitos políticos, acrescidos dos subsídios mensais e as mordomias, tudo defeso na legislação pertinente, porque se a norma legal desejasse dividir o texto que construiu, ela própria o faria por incisos, por parágrafos e até por alíneas.
O autor é professor universitário, aposentado.