| Aceituno Jr. |
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| Marcelo Paro realiza pré-atendimento antes das sessões para que pessoas reflitam sobre o uso da tattoo como arquétipo de superação |
| Arquivo pessoal |
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| Angelita Prado é especialista em reconstrução de aréolas |
As tatuagens, hoje, vão muito além da arte e do desejo pessoal de tê-las. Técnicas recentes aprimoraram as chamadas "tattoos da saúde", que têm ajudado pessoas a aliviar e até a superar situações de dor e angústias, que, por vezes, ficaram marcadas na pele. Pacientes da mastectomia e que perderam a auréola, por exemplo, têm encontrado na tatuagem uma forma de mostrar resistência, ampliar a autoestima e de superar o problema. Há ainda quem utilize a tattoo como ferramenta de alerta médico a doenças ou alergias a fim de evitar riscos em casos de urgência e emergência.
E, claro, a tatuagem também continua sendo opção para os que passaram por cirurgias e desejam camuflar de alguma forma as cicatrizes ou então aos que querem exaltar a marca como um arquétipo de resistência.
"A tatuagem fez com que eu me sentisse inteira de novo. Eu voltei a ter minha rotina e não evito mais o espelho", conta Olga Kimura, 68 anos, que passou pela mastectomia unilateral em 2016. Ela realizou a reconstrução da mama com uso de um expansor, mas sentia o peso de não ter mais a auréola. "A cirurgia para reconstrução da auréola seria muito dolorida para mim. Por isso, optei pela tatuagem realista. A imagem pode parecer algo bobo, mas ficou perfeita e isso me ajudou muito a lidar. Indico para todas as mulheres mastectomizadas", completa.
Por causa da cirurgia, a sensibilidade na área diminui, o que torna o processo mais fácil para as pacientes, que sentem como se fossem pequenos choques. Especialista em reconstrução paramédica de auréolas em Bauru, a tatuadora Angelita Prado diz atender uma média de duas mulheres por semana para micropigmentação dos seios. "Antigamente, não havia a pintura realista. É algo comum de três anos para cá. Costumo dizer que entra uma mulher na sessão e sai outra. O aumento da autoestima é instantâneo, como se eu tivesse devolvido algo a elas", ressalta.
O procedimento é feito somente com liberação médica, que varia de acordo com cada paciente. Cada aréola realista custa em média R$ 870,00 e o procedimento leva até duas horas para ser finalizado. A tatuadora usa referências artísticas do corpo da própria mulher e de outras mamas, além de uma harmonia de cores que deixa a pintura mais natural possível.
Outra especialidade de Angelita é a micropigmentação facial de bocas e sobrancelhas. "Atendo pessoas de 20 a 70 anos. Acredito que a curas emocionais também são importantes. Digo que lido com um trabalho de completa entrega, faço sempre o meu melhor", cita a tatuadora.
TATUAGEM DE ALERTA
Desde 1 ano de idade convivendo com o diabetes tipo 1, Jean Carlos Boaventura, 21 anos, resolveu estampar na pele sua relação com a doença justamente para evitar problemas médicos em urgências e emergências. "E se um dia eu for atendido desacordado e me derem soro com açúcar? Vi na Internet a ideia e achei bem útil e criativa", explica o jovem, que fez uma espécie de bracelete na altura do bíceps escrito "Diabetes type one".
O inglês, ele diz, teve como missão dar um "estilo a mais" na tattoo. "Na verdade, não é algo só para estilo ou informativo. A tattoo simboliza minha história e luta com o diabetes. Minha professora da faculdade que tem a doença adorou a ideia e disse que também tatuará", completa.
Pressão baixa e alergias a AAS, anti-inflamatórios, penicilina, alimentos ou insetos também são alguns dos avisos cada vez mais comuns no universo das tattoos.
CICATRIZ
Há 22 anos atuando como tatuador em Bauru, Alex Prado conta que é comum a procura da tatuagem por pessoas que possuem cicatrizes, sejam as causadas por acidentes ou cirurgias.
"Geralmente, eles chegam com uma ideia formada e querendo um desenho para disfarçar a cicatriz. Aí fazemos um estudo para saber do que a pessoa gosta. As mulheres buscam mais por flores e arabescos delicados e procuram também esconder estrias e cicatrizes de abdominoplastia. Já os homens variam mais, acabam tatuando trabalhos orientais, imagens sacras, entre outros", observa o tatuador.
'Cura interior' antes das sessões
Tatuador bastante conhecido em Bauru, Marcelo Paro alterou sua metodologia de trabalho desde 2011. Clientes que buscam maquiar cicatrizes ou imperfeições da pele, principalmente, recebem um pré-atendimento no qual o profissional busca conhecer a fundo a pessoa e seus anseios, explicando o conceito da tatuagem com ênfase até mesmo na psicologia e filosofia. Desse modo, segundo ele, o trabalho ajuda a pessoa a se conhecer melhor e até provoca mudança de comportamento. A proposta, para Marcelo Paro, luta contra um comércio massivo e banalizado do mundo das tattoos.
"A pessoa chega aqui ansiosa e com aquela ideia de Facebook ou Instagram pronta. Ao invés de maquiar a cicatriz, eu ajudo a pessoa a observar e aceitar que aquilo aconteceu, como uma espécie de cura de dentro para fora, num estágio quase meditativo mesmo. É algo que dá um poder de escolha com muito mais qualidade e a pessoa resolve se usará ou não a tattoo como arquétipo de superação", explica o tatuador.
Claro que alguns até desistem. "Quando isso acontece é porque a pessoa percebe que queria fazer por impulso. Meu papel é mostrar que a tattoo não é mercadoria. É algo muito além e ligado ao espiritual. Ela precisa trazer boas transformações", finaliza.
Você Sabia?
No Brasil, a tattoo elétrica é uma arte recente. Surgiu em meados dos anos 60, em Santos, introduzida por um dinamarquês conhecido como Lucky Tattoo. Por décadas antes de morrer, ele teve sua loja nas proximidades do cais, onde, na época, era a zona de boemia e prostituição da cidade. Isso ajudou no estigma ultrapassado da arte como algo marginalizado. Hoje, com o acesso à informação, a tatuagem se popularizou em todas as camadas da populações brasileira, sem distinções.
| Divulgação |
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| A tatuadora especialista em reconstrução de aréolas Angelita Prado em ação |
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| A tatuadora especialista em reconstrução de aréolas Angelita Prado em ação |
| Angelita Prado/Divulgação |
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| Tatuagem também ajuda corrigir imperfeições de sobrancelhas |
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| Angelita Prado/Divulgação |
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| Antes e depois da tatuagem realista de aréolas em mamas mastectomizadas |
| Douglas Reis |
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| Jean Carlos Boaventura tatuou o aviso médico "Diabetes type one" |
| Malavolta Jr. |
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| Alex Prado fala sobre a arte para esconder cicatrizes |
Paciente tatua logo do Centrinho sobre cicatriz de cirurgia
Usadas por pacientes como superação, as tatuagens também pode ser uma forma de gratidão. Após quase duas décadas de atendimento no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP (HRAC/USP) de Bauru, o Centrinho, a gaúcha Gabriela Oliveira Silva, que tratou uma fissura unilateral do lábio e palato, tatuou o nome da instituição em uma cicatriz no quadril como forma de homenagear a entidade e lembrar-se da época de luta pelo tratamento.
"Tudo que conquistei e me tornei foi graças ao Centrinho. Hoje, a tattoo me lembra das dificuldades que eu e meus pais passamos e enfrentamos. E que, se não existisse este hospital, sabe-se lá como eu estaria hoje", comenta Gabriela, que, na cirurgia mais complexa pela qual passou, teve que retirar parte de um osso do quadril para enxertar no lábio. Foi exatamente sobre a cicatriz deste procedimento que ela tatuou o logo do Centrinho.
Gabriela tinha 22 anos quando encerrou o tratamento e fez a tatuagem. Hoje, tem 29, é casada, possui um filho e, também por influência do Centrinho, formou-se como enfermeira, área que atua em Pelotas. "Tenho mais três tatuagens. Uma na nuca, que não tem significado nenhum. Só que essa do Centrinho é ainda mais especial", cita.
SEM ESCONDER
Gabriela conta ainda que não teve como objetivo esconder a marca do ferimento provocado pela cirurgia. "Fiz no quadril mais pela relação que a tattoo iria guardar com a cicatriz. Não tinha intenção de esconder. É um orgulho pra mim", finaliza, em tom de superação.
A tattoo, o termo e suas possíveis origens
O termo "tattoo" tem sua origem em línguas polinésias na palavra "tatau", que era o som feito durante a execução de um processo em que se utilizavam ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta na pele. O pai da palavra "tattoo" teria sido o capitão James Cook (também descobridor do surf). Com a circulação dos marinheiros ingleses, a tatuagem entrou em contato com diversas outras civilizações pelo mundo.
Em algumas culturas indígenas, contudo, a tatuagem já existiria e seria realizada no contexto da passagem da infância para a fase adulta e em rituais. No Hinduísmo, acredita-se que fazer uma marca na testa aumenta o bem-estar espiritual. Em alguns locais do mundo, a tatuagem também já simbolizou poder e status.
Provas arqueológicas e múmias encontradas pelo mundo apontam que tatuagens eram feitas em corpos humanos no Egito entre 4000 e 2000 a.C.
| Eder Azevedo/JC Imagens |
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| Logo do Centrinho foi tatuado no quadril sobre cicatriz da cirurgia mais complexa que Gabriela realizou durante todo o tratamento |
| Paulo Garralaga/Divulgação |
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| Anos após finalizar o tratamento e fazer a tattoo, Gabriela Oliveira, que se formou em enfermagem, teve seu primeiro filho; na foto, o yorkshire Teo e o pinscher Roni |









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