No bojo das várias crises sobrepostas que vêm atormentando a nação e que sobrecarregam de preocupante agonia nossos dias, nem todos os cidadãos encaram com iguais níveis de expectativas e angústias as situações todas que vivenciamos. Existem extremados de ambos os lados, existem os preocupados que não expõem e nem exteriorizam suas preocupações e, até, existem os que aparentam notável indiferença como a admitir que nada do que possa ocorrer alterará suas situações de vida. Entretanto, o quadro, na verdade, não é bem assim, porque ocorra o que ocorrer consequências e desdobramentos deverão atingir a todos, ainda que com diferentes variáveis. A reação de cada um exprime com maior ou menor clareza seu modo pessoal de encarar os vários aspectos da conjuntura de crise e em face dela o exercício individual da cidadania.
Cidadão algum – que só se obriga e tem responsabilidades diante da lei – está pessoalmente obrigado a assumir posição. Cada cidadão desfruta perante a ordem constitucional de imensa e rica quantidade de liberdades, as quais quando exercidas podem engrandecer e quando não exercidas podem amesquinhar o exercício da cidadania. A liberdade de pensar, a liberdade de ter e de manifestar opiniões, a liberdade de reunião são atributos constitucionais que, quando exercidos, engrandecem o cidadão. E quando não exercidos, infelizmente o amesquinham. Triste imaginar diante dessas crises que nos assustam aqueles cidadãos que abdicam de pensar, se dispensam de manifestar opiniões e se recusam a participar de reuniões e manifestações, formando deplorável categoria de alienados. E são justamente estes, infelizmente, em grande e silenciosa maioria, os que mais sofrem porque mais são prejudicados pelo própria alienação, vulneráveis para acreditar em engodos e fantasias lançadas ao vento por falsos líderes que, sempre e sempre, se apresentam como salvadores da pátria. Para eles, os votos eleitorais que deveriam ser conscientes e decisivos são apenas palpites inconsequentes e logo esquecidos os quais são fundamentais para investidura das situações e oposições políticas.
Infelizmente na nossa própria história, contam-se aos milhares os que voluntariamente abdicam da cidadania e com isso facilitam surgimento de aventureiros com cabeças mascaradas de hipocrisia e com frágeis pés de barro cujas ações políticas predatórias provocam cargas de decepções coletivas e que, assim, contribuem para produzir crises e enfraquecer as instituições. As descrenças, as desesperanças individuais somadas formam imenso oceano de águas turvas e perigosas que dificultam o encontro da verdade e facilitam toda a sorte de manifestações aventureiras. Em todos os tempos e em todos os lugares esse tipo de aventurosa desgraça contamina os valores democráticos, produz resultados nocivos que, com variação de graus e de uma ou outra forma atinge indistintamente a todos. Na prática, ninguém escapa ou fica livre de conseqüências.
Nestes tempos delicados em que cada cidadão acorda impactado com a agonia de cada dia, a data de amanhã, domingo, 17 de abril, marcará início de mais um espetaculoso momento nacional de dissidência quanto aos modos de equacionamento e soluções de nossas atuais crises. Cidadãos com diferentes posturas ocuparão nossas ruas para tentar influir, por alguma forma, no desfecho de processo de impedimento presidencial atualmente em fluência em nossas Casas Parlamentares. Prudentemente, autoridades com responsabilidade sobre a ordem pública delimitaram e cercaram espaços para tentar confinar cada uma das tendências e evitar na medida do possível contatos físicos entre grupos, prevenindo desagradáveis tumultos.
Parece certo em face de tais preparativos que a nação partiu-se em tendências inconciliáveis e está momentaneamente dividida. Isto, entretanto não é bem verdade porque ainda que milhares ocupem os espaços reservados, a grande maioria permanecerá silente, não se fará ostensivamente presente e preferirá utilizar a folga domingueira para quaisquer outras atividades familiares ou pessoais, sem preocupação com a importância dos trabalhos parlamentares e com seus possíveis desdobramentos e desfechos. Mais uma vez caberá à essa maioria silenciosa, sempre imensa e imprevisível, influir omissiva e negativamente nos nossos destinos. E isso, sem dúvida, não é bom e nem representa efetivo exercício da cidadania, porque a alienação é inimiga perversa de um bom nível de democratização.
O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias.