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Resenha completa sobre ‘A Travessia...’
Regina Igel No momento histórico que estamos vivendo, com manchetes sobre refugiados implorando abrigo por todas partes do mundo, esta obra vem nos trazer várias lições. Uma delas é que a questão de refugiados vem de longe, não é situação nova. Podemos pensar até nos andarilhos guiados por Moisés, os primeiros a procurar refúgio numa terra que eles sabiam ser a Terra Prometida, que alcançaram depois de 40 anos de vagar pelo deserto. Desde então, nenhuma terra terá sido ‘prometida’, mas países, nações, até ilhas poderiam servir de refúgio, abrigo, hospitalidade para esses que, por motivos variados, atualmente têm de sair de seus países e procurar abrigo em outros. Infelizmente, a verdade é que poucos lhes abrem suas portas, como vemos nos noticiários impresso e televisivo, além de presenciarmos, em nosso território, muitos expatriados.
Felizmente, no entanto, houve uma época, no Brasil, quando um grupo de judeus alemães encontraram abrigo e hospitalidade no nosso país, depois de insultados, humilhados e proibidos de viver com dignidade na Alemanha, sua terra natal. Eles chegaram ao Brasil por volta de 1935 e 1937, aos primeiros urros da barbárie nazista. Quando aquela parte da Europa se tornou o reino de Hitler, já não foi possível viver lá – só seria possível morrer. E os que escaparam da morte, como este grupo de homens, mulheres e crianças, tiveram a sorte de poder cruzar o Oceano Atlântico e entrar em terras brasileiras, ainda que fossem lotes cobertos por maciças florestas, adquiridos quando estavam na Europa, por intermédio de agências.
Apesar de terem conhecimento do local para onde iam, por mapas da companhia que lhes vendera os terrenos, pela primeira vez pisavam uma terra estranha e vermelha - que alguns chamaram de ‘terra roxa’ porque os italianos diziam ‘rossa’ – do norte do Paraná. Ali deram continuidade a suas vidas, agora em padrões bem diferentes - e distantes, em vários sentidos – das atividades que tinham usufruído na sua amada Alemanha que os traiu. Instruídos, letrados e eruditos, muitos entre eles se tinham formado em universidades de renome em diversas profissões e eram hábeis em distintas ocupações, como cientistas em várias áreas de pesquisa, agrônomos, botânicos, médicos.
Havia também homens e mulheres dedicados à música clássica, instrumental, operática e cantorial, assim como juristas e um ex-ministro e um ex-deputado da República de Weimar (estes últimos não eram judeus, mas a colônia que se formou entre eles era a mesma). Esta informação é obtida logo na primeira página da Introdução feita pelo autor, Lucius Mello, que a denominou “Sertão ilustrado”. Ele desenvolve a instigante história daquele grupo de refugiados ao longo de 54 capítulos.
Realmente, o sertão, rincão desconhecido pela maioria dos brasileiros no interior do Paraná, foi o espaço físico que acolheu aquele grupo de pessoas ilustradas, profissionais que tiveram de largar tudo para preservar suas vidas. Nas terras destinadas a eles, refizeram seus lares dentro do possível, já que toda a região era isenta de bibliotecas, laboratórios, livrarias, universidades, teatros, hotéis, restaurantes ou salões de chá, a que eles estavam tão acostumados na sua terra natal, a traidora. No entanto, tinham trazido seus livros, alguns aparelhos de pesquisa, tinham até conseguido trazer um piano e a vida sofisticada da classe culta alemã-judaica e alemã-católica, rastejante a princípio, chegou a ter continuidade dentro dos limites impostos pela natureza ao redor e pelas circunstâncias políticas que se sucederam e influenciaram a trajetória brasileira daquele grupo. Apesar de tudo, orgulhavam-se daquela Alemanha que foi o berço deles e do seu passado histórico e, por isto, deram o nome de Rolândia à região onde se estabeleceram com suas fazendas, em homenagem a Roland (também conhecido como “Orlando”), cavaleiro medieval que lutou pela liberdade do seu povo junto a Carlos Magno, como lembrado na Europa ocidental. Fazendas de propriedade dos judeus receberam nomes expressivos, tais como Fazenda Toráh, Sarah e Canaã.
Muitas informações, como esta, se encontram disseminadas pelas páginas deste volume, como a anotação do choque sofrido pelos judeus ao saberem da existência de conglomerados nazi-brasileiros no mesmo Estado do Paraná; também seu desalento diante das restrições impostas pelo Estado Novo, em meio a descrições de sentimentos de pequenas e grandes alegrias, assim como tristezas movidas por saudades; os relatos dos descendentes e episódios de diários revelam paixões, amores furtivos, entusiasmos, decepções e ufanismos, que se multiplicavam pelos corações e cérebros daquela gente trabalhadora, determinada a vencer num meio físico e ambiente social tão misteriosos quanto desafiadores.
Lucius de Mello passou cinco anos entrevistando os descendentes daquele pessoal indômito, corajoso, com seus problemas em comum e seus enigmas pessoais; viu fotos e recortes de jornais, leu cartas e cartões postais que iam e vinham daquele pedaço ignoto do mundo para e dos Estados Unidos e, antes que se fechassem suas portas, também da Alemanha e de outros países. O autor, consagrado por outras obras, aplicou sua prática jornalística na feitura deste volume, que se equilibra entre documentário e ficção. Ao estilo empregado por ele dá-se o nome, atualmente, de ‘jornalismo literário’. Os fatos foram registrados, documentos foram pesquisados, pessoas foram entrevistadas e seus relatos estão neste livro de extraordinárias dimensões. Nesta edição, encontram-se fotos dos seus primeiros habitantes, reproduções de documentos e mapas (estes foram incorporados à atual segunda edição, pois estiveram ausentes da primeira, publicada em 2007). Para ligar todos estes elementos, o jornalista fez uso da imaginação, principalmente ao descrever certas atmosferas das quais não participou, obviamente, mas sobre as quais leu ou ouviu descrições.
Por exemplo, a atmosfera certamente vivenciada nos concertos de piano ou de ópera, oferecidos aos conterrâneos e outros expatriados, é descrita com a habilidade de um jornalista apegado à realidade, fiel aos fatos e o bastante imaginativo para nos envolver num ambiente musical imerso numa floresta, cortada por riachos que se tornavam caudalosos na época das chuvas, onde não faltavam insetos, cobras e bichos selvagens... Dentro deste mundo tão liberto dos horrores da guerra e preenchido pelos perigos inerentes à selva circundante, ouviam-se canções em alemão e italiano, operetas e composições clássicas... além da existência de uma escolinha de piano para as crianças da colônia.
Quase nenhum dos primeiros habitantes de Rolândia foi esquecido no acervo de episódios lembrados por seus descendentes. Trata-se de um livro que ilumina uma parte da história dos imigrantes, a qual se confunde e se identifica com a História do Brasil. Hoje, Rolândia é um centro fabril e agrícola e não se pode duvidar que seu sucesso contemporâneo se deve à tenacidade e à determinação daquele punhado de pessoas que tiveram de se transformar de professores universitários ou juristas ou químicos ou físicos, em camponeses, cuidadores de gado, vendedores de gordura, fabricantes de manteiga e de queijo, entre tantas outras funções que lhes garantiram uma vida interessante, ainda que trabalhosa e cheia de altos e baixos, como toda vida digna tem.
Recomendo este livro com paixão, pois ele informa, num estilo agradável e dinâmico, sobre uma parcela da nossa formação e uma dimensão do nosso passado. Outras obras, também informativas e bastante fidedignas, se ocuparam daquele mesmo grupo de imigrantes alemães em Rolândia, mas esta obra de Lucius de Mello, com seus relatos, fotos e mapas, arremata a história de um punhado de europeus judeus (na sua maioria) e não judeus, forçosamente extrincados dos seus países de origem e, felizmente, amparados nas brumas do inverno e no sol escaldante do verão no norte do Paraná.
Para eles, tudo estava muito bom. Estavam vivos e isto foi graças ao refúgio encontrado no Brasil, num tempo em que isto foi possível, pouco antes da era de Getúlio Vargas e seu secretário simpático ao nazismo, Filinto Müller. Pela amostragem de quanto progresso houve na região com aquele número diminuto de imigrantes, pode-se calcular nossas perdas, devidas às proibições desumanas e fascistas que se seguiram na era getulina. Uma bibliografia é incluída no volume, fartamente ilustrado por fotos dos tempos dos desbravamentos, onde se vêem crianças alegres, jovens casais, circunspectos senhores e adoráveis senhoras... nos mais diversos afazeres, aprendidos e praticados na sua sobrevivência difícil, mas otimista e, talvez por isto, também feliz.
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