Incitação ao ódio, apologia da violência, preconceito escancarado, intolerância, agressividade imediata, catarses pessoais com a desgraça alheia, baixíssima espiritualidade, quase nenhum autoconhecimento...
Os dias andam assim em Bauru, no Brasil e em grande parte do Planeta.
Parece estar em curso uma rebelião contra o bom senso e o equilíbrio, atitudes básicas para nos manter em harmonia. Banimos a paz e o respeito e os substituímos pela beligerância e o desacato.
Deve ser alguma estratégia dos incompetentes e maldosos para controlar o mundo. Ressurgiram das trevas, não é de hoje.
E tenho convicção de que muito disso fica por conta da comunicação disparada frenética, instantânea e precipitadamente entre nós, a cada segundo. Não há mais tempo para entender, refletir e dialogar. É preciso compartilhar imediatamente, retuitar em dobro, curtir cegamente, postar o que houver em mãos (na mente e no fígado), entrar no jogo de aparências para não ser excluído e não correr o risco de virar 'ninguém'.
Nessa pegada de insensatez triunfam a mentira, a imprecisão e o exagero, que sempre existiram, claro, mas hoje estão elevados à potência máxima, em níveis jamais vistos, porque encontram terreno fértil na web, onde muitos têm de projetar e confirmar as existências perante os demais e impor suas ideias.
A internet permite a autoafirmação pública do 'eu', isso não é ruim, não fosse o vale-tudo que se instala nas redes sociais, 'viraliza', hegemoniza na realidade virtual e contamina a vida real, irreversivelmente.
Cria a mentira, chamada de fake news; a imprecisão, que esfacela o fato maquiada pela simplificação da mensagem; e o exagero, que dá ar de gravidade e premência à informação, filho primogênito da calúnia, da injúria e da difamação.
Até mesmo em alguns veículos ditos tradicionais de comunicação (e também nos alternativos), inexpressivos e até então obscuros perceberam que esse seria um modo fácil para reter alguma atenção sem precisar trabalhar de verdade a informação e passaram a apostar em pelo menos duas pernas deste nocivo tripé: a imprecisão e o exagero, piores até do que a mentira, mais facilmente detectável. Criam factoides que se parecem com verdade, a torto e a direito. E muitos se deixam levar, ao menos por um tempo, porque os dias estão assim...
Mas chegará o momento em que o jogo vai virar. E, então, após o desgaste natural e rápido de tudo o que vem do homem tosco, a maravilhosa conexão estabelecida entre quase todos os seres humanos servirá para nos engrandecer, através da troca de conhecimento e da criatividade, e não mais de insultos à inteligência. Os imbecis voltarão ao lugar de onde nunca deveriam ter saído (Umberto Eco finalmente descansará em paz). Ou terão a chance de se tornar menos nocivos à civilização, quem sabe...
"Deve-se evitar toda precipitação e todo o preconceito ao se analisar um assunto e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto".
"Para examinar a verdade, é necessário, uma vez na vida, colocar todas as coisas em dúvida o máximo possível".
(René Descartes)