Entrevista da semana

Na trilha dos Baurussuquídeos

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Conversar com Pedro Lorena Godoy é fascinante. O assunto que move a vida desse bauruense atrai a curiosidade de pessoas de todas as idades. Ele estuda crocodilos fósseis, pesquisando, mais especificamente, a evolução dos Baurussuquídeos.

Aos 31 anos, o paleontólogo já ostenta o título de doutor nessa área, que continua pesquisando até mesmo fora do Brasil. Pedro, inclusive, vive hoje nos Estados Unidos.

Nesta última semana, ele esteve em Bauru para visitar a família. Mesmo com a rápida viagem, o paleontólogo visitou JC e contou um pouco da sua trajetória e das suas pesquisas. Confira:

Jornal da Cidade - Seu objeto de estudo é uma espécie de crocodilo que leva o nome de Bauru, certo?

Pedro Godoy - Estudo, entre outros, os Baurussuquídeos, nome dado a um grupo de crocodilos que habitaram esta região. Só que os exemplares conhecidos não foram encontrados exatamente na cidade e, sim, em regiões próximas.

Jornal da Cidade - E por que não exatamente aqui em Bauru?

Pedro Godoy - Provavelmente porque o solo é arenoso. Aqui, há a terra branca e, para que possamos encontrar os fósseis, são necessárias rochas bem sedimentadas, fortes, em camadas mais profundas, tanto que trabalhamos com ferramentas pesadas, serras, britadeiras.

JC- Você, então, seria uma espécie de 'Indiana Jones'?

Pedro Godoy - Não, não (risos). Sou um paleontólogo, ele é um arqueólogo. Nós não trabalhamos em busca de vestígios humanos. Vamos em busca de fósseis de animais. Temos em comum a escavação, pôr a mão na terra mesmo. Para nós, viver sujo de pó não é problema. Nós, paleontólogos, na cronologia do planeta Terra, "escavamos" muito mais longe. Um dos grupos de dinossauros que estudo viveu há 200 milhões de anos.

JC - É essa a idade dos fósseis encontrados na nossa região?

Pedro Godoy - Não, no caso, essa espécie é bem mais nova. Calcula-se que viveram há 80 milhões de anos. Os Baurussuquídeos podem ser considerados jacarés. E têm uma curiosidade na anatomia: o esqueleto da cabeça deles é bem parecido com o de um cão, um canino de grande porte. Tive a oportunidade de participar da equipe de pesquisadores que encontrou um exemplar desses no sítio arqueológico de Gurinhatã, Minas Gerais.

JC - E como começou seu interesse pelo assunto?

Pedro Godoy - Na verdade, eu creio que desde a infância. Como a todo menino, filmes e histórias como as do "Jurassic Park" me atraíram.

JC - Havia algum cientista em sua família?

Pedro Godoy - Nunca, ninguém. Eu ia nos finais de semana à chácara do meu avô materno. Esse contato com a natureza, a observação do mundo exterior, os animais, tudo isso me fascinava. Pode ser isso.

JC - E como aconteceu?

Pedro Godoy - Estudei no Colégio São José. Depois, frequentei o Seta e, após ter ido muito bem em biologia, passei na USP de Ribeirão Preto. A princípio, pensei em estudar abelhas. Acabei conhecendo o professor Max Langer, um dos mais renomados paleontólogos do Brasil, e, vendo o trabalho dele, percebi que tinha a ver comigo. Não foi de imediato, mas, algum tempo mais tarde, fui convidado a trabalhar com ele. Deu muito certo.

Nota da Redação: Pedro ajudou a identificar a ossada de um crocodiliforme proveniente de rochas do Cretáceo (período da história terrestre há 80 milhões de anos). O espécime tinha preservado restos de um crocodiliano menor (do grupo dos Esfagesáurideos) em sua cavidade abdominal. Descrito em 2014 por Pedro Godoy, Felipe Montefeltro, Max Langer e outros colaboradores, recebeu o nome de "Aplestosuchus sordidus". Traduzindo: "Abominável crocodilo guloso".

JC - E sua carreira internacional?

Pedro Godoy - Me inscrevi para fazer a pós-graduação na University of Stony Brook, nos Estados Unidos, e fui aceito. Depois, ainda fiz o doutorado na Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Nos últimos oito anos, tive a oportunidade de ver como estão os estudos na China. Aliás, em museus os chineses, têm espécimes de crocodilos muito interessantes, estão bem avançados. Também fui para Espanha, Alemanha, África do Sul e Tanzânia. É muito bom estar em contato com outras culturas. E ver que, apesar de os africanos ainda viverem em extrema pobreza, cultura de subsistência, há também muita solidariedade e respeito pelo trabalho científico e preservação das espécies.

JC - Seu trabalho também foca isso?

Pedro Godoy - Sim, não apenas conhecer, mas preservar. São mais de 400 espécies de crocodilos catalogados e, hoje, não há mais de 20 espécies no mundo. Na Inglaterra, estuda-se bem isso. E foi graças ao mestrado na Inglaterra que conheci minha esposa, a brasileira Mariana Gonçales, da área de imunologia. Estamos casados desde 2018. Precisei sair daqui para encontrá-la lá (risos).

JC - Hoje, você trabalha no Exterior?

Pedro Godoy - Sim, na universidade nos EUA, mas já como funcionário de uma fundação americana e não mais como bolsista brasileiro. Tenho um contrato temporário. E nunca mais vim de férias para Bauru. Sempre são viagens rápidas, como agora.

JC - Um projeto para o futuro?

Pedro Godoy - Continuar a escavar, fazer estudos. Quero continuar trabalhando até cansar, embora o mercado de trabalho para a ciência seja restrito. Para quem trabalha com ciência, o futuro é sempre incerto. O estudo científico é complicado em todos os lugares do mundo. E, hoje em dia, tudo é global, a concorrência é muito grande. Quero continuar aprendendo.

JC - Um desafio?

Pedro Godoy - Tenho um desafio que creio ser o de todo cientista: superar a linguagem técnica. Quero tornar os estudos entendíveis para todos, deixar a linguagem mais simples.

Comentários

Comentários