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Maçonaria e a escravidão: breve relato sobre a Rocha Negra

Waldir Ferraz de Camargo
| Tempo de leitura: 2 min

As ideias já estavam maduras e os apelos vindos de fora casavam com a aspiração da maioria pensante daqueles homens já amadurecidos pela luta de que era necessário e urgente por fim à escravidão humilhante e desumana que vigorava no sul do Brasil. E, assim, norteados pelos ideais de liberdade e humanidade, foi fundada a Loja Maçônica Rocha Negra, em 29 de julho de 1873, na cidade de São Gabriel, Rio Grande do Sul.

Seu primeiro Venerável Mestre, dr. Jonathas Abbott Filho, servindo como exemplo, libertou seu escravo Horácio, de 15 anos de idade, determinando que todos aqueles que doravante viessem a compor a Loja só seriam admitidos se apresentassem pelo menos duas cartas de alforria, condição indispensável para o ingresso na Ordem. Na primeira iniciação, ocorrida em 20 de Setembro de 1873 entraram para a Loja 17 novos obreiros, todos cumprindo os juramentos e determinações impostas, começando assim um dos maiores movimentos abolicionistas do país. Dentre esses novos maçons estava o coronel Antonio Deodoro da Fonseca, que na época comandava o Batalhão de Artilharia a Cavalo, sediado em São Gabriel, e que mais tarde se tornaria o primeiro presidente da República do Brasil.

Lançaram-se esses beneméritos obreiros com a maior decisão em sua meritória tarefa, agindo amistosamente junto aos proprietários de escravos, com modos persuasivos e convincentes, partiram por toda parte triunfando em seus objetivos. Apesar de a Rocha Negra ter sido fundada em plena efervescência da Questão Religiosa no Brasil, há de se destacar seu excelente relacionamento com a Igreja, situação incomum na época, tendo em seu meio 4 padres em abono ao espírito de tolerância e religiosidade de seus membros que souberam valorizar os ideais superando os preconceitos.

Após 11 anos de lutas e conquistas de inúmeras liberdades, o Dia Áureo finalmente raiou em 28 de Setembro de 1884, ocasião da Sessão Magna Festiva da Loja, com a presença de diversos maçons e convidados da região, dentre eles 61 escravos prestes a ganhar suas liberdades. Naquela Sessão memorável totalizou-se a entrega de mais de 900 cartas de alforrias, decretando assim o fim da escravidão em toda aquela região, quatro anos antes da lei assinada pela princesa Izabel.

A Loja Maçônica Rocha Negra, ainda hoje em atividade, realiza uma sessão por semana, tendo em seus arquivos mais de 8.600 atas registradas, provas autênticas, inquestionáveis, verdadeiro tesouro histórico documental para os pesquisadores, refletindo os mais emocionantes acontecimentos abolicionistas nas glebas de São Gabriel. Mas o trabalho ainda não acabou, tendo a Maçonaria e outros segmentos o dever de incorporação real do negro na sociedade para que a abolição aconteça de fato, revertendo os maléficos efeitos de mais de 3 séculos dessa mancha na história brasileira, de modo que a exclusão ainda vigente não substitua o cativeiro pela manutenção do mesmo teor da perversidade.

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