Às 6 da manhã, o despertador toca e começa a correria: café da manhã, dar banho nos filhos, correr para atender os horários da escola complementar e do trabalho. Nesse momento, uma vasta agenda e orientação de equipe. No intervalo para o almoço, outra maratona: sair do trabalho, buscar as crianças, dar almoço, levá-las ao colégio e voltar para a agenda laboral.
Essa é parte da rotina da servidora pública Caroline Paranayba, mãe de dois filhos: Enrico e Lorenzo. "É um grande desafio. Por mais que eu tente agregar soluções, às vezes não encontro serviços que possam se conectar aos meus horários de trabalho", afirma.
Segundo a pesquisa "Mercado de Trabalho: conjuntura e análise", do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a elevação da participação feminina no mercado de trabalho configura-se como um dos fenômenos mais marcantes ao longo das últimas décadas. Ainda assim, as atividades dedicadas aos afazeres domésticos recaem majoritariamente sobre as mulheres, o que traz consequências ainda mais significativas para as mães.
De acordo com a socióloga Lourdes Maria Bandeira, da Universidade de Brasília (UnB), ainda existe a cultura da divisão sexual do trabalho onde cabe às mulheres - mesmo àquelas que trabalham fora de casa - a responsabilidade de acompanhar os filhos. As que não trabalham fora ficam com a responsabilidade integral de cuidados da família, além dos cuidados da casa.
Fim do expediente. Hora de sair do trabalho, buscar as crianças na escola, dar banho, preparar o jantar, fazer os exercícios da escola, ter o momento de interação para processar todas as vivências do dia e, então, colocá-las para dormir.
"Além da responsabilidade de ser mulher, tem a responsabilidade de ser mãe. E ser mãe significa que a sociedade ainda cobra delas o acompanhamento e sucesso dos filhos. Se eles têm problemas na escola, ou se possuem alguns conflitos quando adolescentes, a responsabilidade ainda é delas", avalia a socióloga.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que, nas atividades de afazeres domésticos, as mulheres trabalham, em média, pelo menos o dobro que os homens. No Brasil, essa diferença é ainda mais expressiva. Enquanto os homens dedicam aproximadamente onze horas semanais a afazeres domésticos, entre as mulheres brasileiras, a média de horas dedicadas a essas atividades é em torno de vinte e seis horas. No mercado de trabalho, os homens brasileiros trabalham, em média, quarenta e três horas por semana, enquanto as mulheres trabalham em torno de trinta e seis horas por semana. Considerando o total de horas trabalhadas, a média para as mulheres, 62 horas semanais, é superior à dos homens.
Uma das formas de melhorar a realidade das mães seria, de acordo com Lourdes, a adoção de políticas de incentivo por parte do Estado. "Uma solução seria a extensão de licença paternidade - para a criação de nova cultura de divisão das responsabilidades na criação dos filhos -, incentivo a jornada de trabalho de 6 horas, salas de aleitamento nos locais de trabalho, além do acesso a creches", pontua.
Ao ser uma alternativa para o cuidado dos filhos, a creche pode influenciar de forma significativa a decisão da entrada da mulher no mercado de trabalho. Essa é a opinião de Caroline que, apesar de poder contar hoje com uma estrutura de apoio de amigos, destaca as dificuldades enfrentadas por ela nos primeiros anos dos filhos. "Eu passei por muitos momentos difíceis quando as crianças eram menores por conta da falta de creche", lembra.