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Bauruense na Itália: 'Sair de casa só com autorização e por até 2 horas'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Considerado o novo epicentro da pandemia do coronavírus (Covid-19), a Itália segue como o segundo País mais afetado pela doença (atrás apenas da China), com mais de 26 mil pacientes e 2,5 mil mortes. Por lá, a contenção social que limita as pessoas a saírem de casa tem sido seguida de forma rigorosa pela população. Há quatro anos no País, a bauruense Michelle Tech, 39 anos, conta como as medidas restritivas adotadas pelo governo italiano, que incluem sair de casa só com autorização expressa e por tempo não superior a duas horas para compras, alteraram a sua rotina e a da cidade.

Até contas de serviços essenciais, como água e luz, além de outros boletos, estão com os pagamentos suspensos para que a população gaste apenas com itens básicos para saúde e subsistência.

Michelle, que é nutricionista e socorrista, e seu marido, André Delarmelindo, 41 anos, que é enfermeiro, possuem família em Bauru, mas moram desde 2016 na comuna de Domodossola, região do Piemonte, província do Verbano Cusio Ossola, no Norte da Itália.

Ambos atuam na Cruz Vermelha e estão apreensivos quanto à chegada do Covid-19 em Bauru.

JC - Qual é a situação epidêmica da região em que vocês estão?

Michelle - Estamos a 40 quilômetros de Lombardia (região da Itália que tem registrado mais casos da doença) e a 85 quilômetros de Milão. Piemonte tem 1.624 casos e 59 mortos, sendo 66% homens e 34% mulheres. Só na minha cidade, que tem pouco mais de 18 mil habitantes, foram sete mortos e 12 estão em terapia intensiva grave.

JC- Quais as principais medidas adotadas pelo governo italiano desde o "boom" da doença?

Michelle - Há um mês e meio, aproximadamente, o governo fechou comércios que envolviam os chineses. Depois, com o aumento de casos, o governo conseguia liminares para restrições toda semana: os shows passaram a ser cancelados, estádios fechados, as aglomerações passaram a ser proibidas. Na sequência, as escolas foram fechadas e há aulas online. Há aproximadamente um mês, foi anunciado o toque de recolher a partir das 18h e passamos a respeitar cordões de segurança de um metro de distância das pessoas. No supermercado, entram três pessoas e saem três, e há filas de espera na porta. Quando a aglomeração aumenta, a polícia controla. Há um clima tenso e pesado nas ruas. As fronteiras entre as cidades também foram fechadas.

JC - Como tem funcionado a contenção social, as pessoas respeitam?

Michelle - Sim, só saímos com autorização impressa, que é emitida pelas empresas ou via governo. É possível sair de casa por quatro motivos: para trabalho, saúde, por situação necessária e para abastecimento da casa. Se a polícia te para, você precisa mostrar o documento. Só podemos ficar na rua no máximo duas horas e eles fiscalizam o trajeto, porque não podemos ir a outros estabelecimentos (farmácias e supermercados) fora do bairro. Até para atendimento médico, é preciso acionar a ambulância.

JC - De que forma essas medidas alteraram a rotina de vocês em casa?

Michelle - Só saímos de casa para o trabalho, que é essencial por atuarmos na Cruz Vermelha. As empresas que não são da área de Saúde, produção alimentícia e fábricas pararam e o governo tem pagado o salário dos trabalhadores. Contas básicas, como de água e luz, estão suspensas e vamos poder pagar mais para frente. Até boletos também foram suspensos. Eu mesma comprei uma cama que a conta venceu há dez dias e não foi debitada. As roupas são lavadas separadamente e tomamos banho assim que chegamos da rua, os sapatos ficam para fora de casa.

JC - Como buscam se distrair, já que não é possível sair nas horas de folga?

Michelle - Minha mãe de 68 anos mora conosco. Procuramos nos entreter assistindo séries na TV, limpando a casa, jogando baralho, cozinhando e aproveitamos para nos atualizarmos sobre as notícias. Temos ido ao mercado a cada quinze dias. Ora vou eu, ora meu marido, quem estiver com a saúde mais forte.

JC - Qual sua sensação diante de toda essa situação causada pelo coronavírus?

Michelle - É estranho e triste ver tudo vazio ao ir e voltar do trabalho. Todos os dias, as rádios incentivam as pessoas a saírem nas sacadas entre 12h e 18h. É este o calor humano que temos hoje, de longe. A sensação é de que estamos em guerra contra um inimigo invisível. Temos medo do surto em Bauru, porque os hospitais não têm vagas. Todos os dias, oriento meus parentes daí a não saírem de casa, só assim vocês poderão evitar o pior.

 

 

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