Tribuna do Leitor

Vírus, pandemia e isolamento social... enfrentamentos

Roosevelt da Silva Bastos - Professor da disciplina Saúde Coletiva da FOB-USP
| Tempo de leitura: 3 min

Muitas palavras novas para o grande público têm sido apresentadas pela mídia em razão do surgimento de uma nova doença surgida na região de Wuhan, na China. Resta-nos entender o fenômeno populacional em saúde pública para estarmos protegidos junto aos nossos familiares, cuidando de nos proteger de interesses unicamente financeiros e disputas políticas do momento.

Em condições de normalidade, as doenças são endêmicas, sendo possível prever com razoável segurança que haverá um número mínimo e máximo de casos novos em um determinado período tal qual uma estação do ano, por exemplo, e comparável analogamente a um rio que está sempre lá, em período de seca ou de cheia. O problema grave ocorre na enchente pela perda de controle das expectativas estatísticas comprometendo toda uma comunidade. Quando reúne condições favoráveis, esta epidemia pode ultrapassar barreiras geográficas regionais ou como tem sido observado com o Covid-19, fronteiras entre países e continentes, passando a se chamar de pandemia.

No atual momento, há muita discussão na mídia sobre as formas de enfrentamento da pandemia de Covid-19 em razão do objetivo de salvar a vida das pessoas com o menor prejuízo econômico possível. E como proteger os mais vulneráveis neste caso? Os resultados da pandemia atual em outros países demonstram que estão em risco maior as pessoas com 60 anos ou mais, e as que apresentam comorbidades, ou seja doenças preexistentes e que podem suprimir o sistema imunológico expondo a um risco maior de ser infectado e desenvolver as formas mais virulentas da doença. Assim, é bem razoável que se pense em aumentar o tempo de exposição à população em geral que fatalmente será infectada pelo vírus, mas levando para o tratamento intensivo a um número de pessoas que o sistema possa abrigar. Idealmente, uma estratégia em que a cadeia de transmissão seja rompida ao máximo com proteção de toda a população deve ser escolhida e esta é a estratégia populacional, ou como tem sido divulgada nestes dias como estratégia horizontal, indicada pela Organização Mundial de Saúde no momento. A outra é a abordagem de risco, ou vertical. Neste caso, as ações de prevenção só se relacionam com o grupo citado de idosos e pessoas com comorbidades mantendo-os em isolamento social e rigoroso controle nos contatos físicos e higiene deles com outras pessoas. Sendo ideal a combinação destas duas estratégias. É óbvio que para esta decisão há implicações econômicas para o Estado e para a vida das pessoas, inclusive porque as formas mais virulentas podem ocorrer com adultos também. Esta decisão deve ponderar a capacidade atual do SUS em cada cidade, a experiência de exposição e óbito em outras nações e dos casos brasileiros, mas acima de tudo manter uma só orientação e passar pelo período crítico. A maioria dos países segue a estratégia populacional. Outros países têm sido bem sucedidos com a estratégia de risco proposta de forma nada ortodoxa pelo presidente Bolsonaro em seu último pronunciamento nacional. Mas será que uma estratégia de alto risco seria bem sucedida no Brasil com tanta desigualdade social?

As variáveis que influenciam estas respostas são múltiplas, muito significativas tanto para a economia, informal e formal, assim como na área da saúde tendo o óbito como desfecho possível. O momento exige um comando seguro e sereno, associado a inovação por parte da sociedade propondo novas atitudes e relacionamentos. É preciso fortalecer a vigilância epidemiológica testando ao máximo para que se tenha conhecimento da real abrangência da situação epidemiológica em termos de frequência e distribuição, prover a assistência e informar as pessoas sobre os riscos de contágio. Interferir diretamente na liberdade das pessoas para ir e vir sem um respaldo financeiro certamente causará muita dificuldade, principalmente ao mais vulneráveis socialmente. Assim, é preciso manter uma estratégia vertical ou de alto risco com os grupos de idosos e imunodeprimidos fora do convívio social direto e usar da estratégia populacional ou horizontal o máximo possível, mantendo as orientações de higiene pessoal de mãos, roupas e utensílios, evitando aglomerações, mas principalmente devemos nos adaptar a este momento de isolamento social realizando as atividades profissionais à distância quando possível.

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