Brasília - A Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar apenas o trecho da reunião em que o presidente Jair Bolsonaro teria ameaçado demitir o então ministro Sergio Moro, caso não trocasse o diretor-geral da Polícia Federal. Os advogados do ex-juiz da Lava Jato, por sua vez, apresentaram petição ao Supremo em que pedem para o ministro Celso de Mello, relator do caso, manter a determinação de envio integral do registro do encontro.
No recurso, a AGU pede autorização para não encaminhar a íntegra da reunião, mas apenas a parte que tenha relação com as investigações do inquérito que apura as acusações de Moro contra Bolsonaro. Celso de Mello deve decidir sobre o caso nas próximas horas.
A mudança de estratégia representa um recuo do governo. Na última quarta-feira (6), o órgão que faz a defesa judicial do Executivo no Supremo havia solicitado que pudesse deixar de fornecer a gravação.
O argumento era de que o encontro pode ter tratado de "assuntos potencialmente sensíveis e reservados de Estado, inclusive de relações exteriores, entre outros". Agora, pretendem entregar apenas parte do registro da reunião.
Moro, porém, afirma que destacar trechos "que são ou não importantes para investigação é tarefa que não pode ficar a cargo exclusivo do investigado", uma vez que isso não garantiria a integridade do elemento de prova fornecido.
O fato de terem sido discutidos com temas sensíveis não quer dizer que o conteúdo da reunião deva ficar sob sigilo, argumenta o ex-ministro.
Moro citou o encontro no depoimento à Polícia Federal, no último sábado (2), como prova de que Bolsonaro queria interferir no trabalho da corporação. O ex-juiz da Lava Jato disse aos investigadores que, na reunião, o presidente também teria manifestado o desejo de trocar o superintendente da PF no Rio, o que se concretizou após a saída de Maurício Valeixo da chefia da Polícia Federal.
Na última terça-feira (5), o ministro Celso de Mello deu 72 horas para o Palácio do Planalto entregar uma cópia dos "registros audiovisuais" da reunião ocorrida em 22 de abril.