Quase um ano e meio após Cuba anunciar a saída do Programa Mais Médicos do Brasil, estima-se que cerca de oito mil médicos deixaram o País e aproximadamente 1,8 mil permanecem espalhados por vários Estados brasileiros. Em funções incompatíveis com a formação que tiveram ou em subempregos, muitos nutrem a esperança de poder voltar a exercer a medicina para ajudar a salvar vidas, inclusive durante a pandemia, quando algumas regiões do País sofrem com a escassez de profissionais na saúde.
Yudisley Puentes Rodriguez, 35 anos, é uma das médicas que ficou em Bauru, dos dez que trabalharam na cidade, mas não podem mais atuar por não conseguir revalidar o diploma no Brasil. Em compasso de espera como os colegas, ela trabalha como operadora de caixa em farmácia.
Nascida na cidade de Villa Clara, região central da ilha caribenha, atualmente ela reside no Centro de Bauru. Em 2018, chegou a voltar para Cuba para visitar o pai doente e retornou ao Brasil no início de 2019.
Formada na Universidad Serafin Zarate Ruiz, há 10 anos, atuou por 15 meses no Programa Mais Médicos no Posto de Saúde do Jardim Bela Vista.
Quando foi desligada da atividade, encontrou outra ocupação para sobreviver junto do marido, que também é cubano, e está desempregado devido à quarentena.
"Cheguei em Brasília em 2017, depois fui para São Paulo (Capital) e, na sequência, o programa me trouxe até Bauru. Hoje não temos direito de trabalhar como médico por dois anos até termos a chance de poder fazer o exame de revalida. Sou médica, tenho experiência e o desejo de ajudar. Queremos salvar vidas. Estou disponível para trabalhar aqui ou em qualquer cidade que precise de ajuda na luta contra o coronavírus", reitera.
DIFICULDADE
Yudisley revela que entre voltar para Cuba e ficar no Brasil, ela prefere ficar aqui. O motivo é simples: realizar o sonho de continuar exercendo a medicina no país que escolheu para viver. Sobre a terra natal, apesar de ela citar que há problemas políticos, a médica destaca que Cuba possui excelência na educação e nas pesquisas em medicina.
Outra questão apontada por ela é a dificuldade de estrangeiros conseguirem emprego no Brasil. "Quando eu falava que sou médica, mas que precisava trabalhar, era difícil me darem emprego. Mas consegui. O meu marido também está com dificuldade em arrumar um emprego fixo e vive de bico. Ele não é médico, era administrador. Até de servente de pedreiro ele já pegou dias de serviço aqui em Bauru. Mas hoje está parado", comenta.
ESCASSEZ
Várias regiões do País estão com dificuldade para contratar médicos. O Amapá é um exemplo. O governo de lá demonstrou interesse em contratar cubanos e a Justiça determinou, na última quarta-feira (13), que o Conselho Regional de Medicina (CRM-AP) e a Agencia Nacional de Saúde (ANS) se abstenham de adotar medidas voltadas a impedir a contratação de médicos estrangeiros.
Já no Pará, o governo contratou temporariamente 86 médicos cubanos que estão no Brasil para suprir a escassez de profissionais brasileiros.
NA JUSTIÇA
O JC ouviu o advogado Tárcio Vidotti que representa um grupo aproximado de 500 médicos cubanos. Ele pleiteia na Justiça o direito dos clientes exercerem a medicina, principalmente durante a pandemia. Tárcio Vidotti está em Ribeirão Preto e comenta que "uma cegueira ideológica" está impedindo que estes profissionais experientes contribuam no enfrentamento da doença. "Médicos não são de direita nem de esquerda. Estamos em situação de caos sanitário. Precisamos deixar de lado as desavenças políticas e pensar na saúde", comenta.
De acordo com Tárcio Vidotti, cerca de 1.800 médicos estão em situação de subemprego. Ele busca na Justiça Federal de Brasília 27 liminares contra a União, pedindo reintegração.
Segundo ele, o Ministério da Saúde não cumpre uma lei de 2019, que manda reintegrar todos que ficaram no País. "Não está sendo cumprida. O revalida é um exame complexo, caro e demorado", finaliza.