Tribuna do Leitor

Reflexões históricas sobre as epidemias no Brasil

Fausi dos Santos - Professor e filósofo
| Tempo de leitura: 4 min

A Os impactos produzidos pela pandemia do novo coronavírus nos setores da saúde, economia e os embates observados na arena política, revelam quão frágeis somos às adversidades da existência e das relações humanas, apesar dos avanços tecnológicos e da ciência médica. Tais conflitos institucionais já foram registrados, como no surto de meningite de 1974 com mais de 40 mil infectados somente em São Paulo, na ocasião o governo militar impediu a imprensa de divulgar a dimensão da epidemia para não sujar a imagem do milagre econômico. As autoridades no século 19 temiam a piora social produzida pela veiculação de más notícias sobre a cólera pela imprensa.

Vale aqui uma pequena nota com a ajuda do historiador Jorge Prata de Souza, sobre a história das epidemias no Brasil, em particular os surtos de cólera, tuberculose e varíola entre a segunda metade do século 19 e início do século 20 (importante dizer que optamos por não citar a gripe espanhola entre 1918 e 1920). Quando os casos de cólera se multiplicaram nos centros populacionais, o medo provocado pelo impacto da doença levou ao isolamento e abandono de muitas vítimas. O anúncio da cólera logo era ligado a morte. Em pleno surto da doença entre 1856 a 1860, somente no Rio de Janeiro morreram 47.018 pessoas (fonte: Junta Central de Saúde Pública - 1861). O medo era tal que gerou um pânico sistemático, a ponto de torna-se comum o não sepultamento dos pobres defuntos. Por falta de recursos, algumas famílias abandonavam os corpos nas ruas ou nas portas das igrejas já que as paróquias detinham a prerrogativa de controlar os enterros. O comércio na província fluminense se via prejudicado pelo acúmulo de corpos e a recusa de se enterrar os pacientes acometidos pela cólera.

A crise de saúde, econômica e social levou ao embate entre a Igreja Católica e as autoridades sanitárias. O bispo de Salvador Romualdo de Antonio Seixas via na propagação da enfermidade a mão de Deus para curar os pecados. Já os médicos higienistas na Bahia em 1850 desenvolveram suas políticas de higienização das cidades, sejam retirando os sepultamentos das mãos da Igreja, deslocamento os cemitérios para fora das cidades, ou recomendando a limpeza das camas e das casas dos falecidos.

A tuberculose também vitimou significativa parcela da sociedade. Práticas pouco higiênicas como o costume de cuspir ou escarrar em espaços públicos contribuíram para disseminação desta peste em todas as classes sociais. Entre 1899 e 1904 o governo estabeleceu normas de profilaxia: desinfeção domiciliar em caso de óbito, proibição de cuspir no chão, isolamento dos doentes nos hospitais e a instalação de escarradeiras em espaços públicos. De fato, tais determinações surtiram pouco efeito no combate à doença.

Em São Paulo, já no início do século 20, Emílio Ribas, diretor do serviço Sanitário do Estado criou políticas de acolhimento de doentes em sanatórios localizados nas cidades de São José dos Campos e Campos do Jordão. Grande parte dos pacientes destes espaços estava ligada à burguesia, inclusive a tuberculose era uma doença associada aos intelectuais e artistas até o final do século 19.

O problema se deu com a chegada tuberculose na classe operária que crescia nas periferias das grandes cidades, estes trabalhadores era importante mão de obra para a economia industrial. O que fazer com os doentes desta classe menos favorecida? Não se esperava, no caso dos trabalhadores, enviá-los para tratamento nos sanatórios e, menos ainda, gastar tempo com os cuidados com os infectados. Enviá-los aos sanatórios não desorganizaria a produção? O resultado foi o alastramento da doença e a morte nas camadas mais pobres.

Aliada à tuberculose a varíola também vitimou milhares de vidas. Em 1873, a Câmara municipal de São Paulo conclamava a população a se unir no esforço de amenizar os males da epidemia. O abandono de corpos também foi largamente aplicado no caso da varíola. Neste mesmo ano, uma greve por gratificações por parte dos coveiros piorou a situação, pois realizavam enterros diuturnamente. A epidemia marcou o imaginário popular, chegando inclusive a nomear bairros paulistanos como o Bixiga. No Ceará, em 1879, foram infectados por varíola cerca de 150 mil habitantes, dos quais faleceram 27.395 somente em Fortaleza (Fonte: Arquivo do Exército RJ). A doença se disseminou em todas as classes sociais.

Por estes poucos pressupostos fica claro que a história do Brasil também é marcada pela história das epidemias. Os surtos de doenças provocaram graves crises políticas e econômicas, vitimando principalmente as classes mais pobres. O coronavírus demonstra que pouca coisa mudou no que diz respeito à efetivação das políticas públicas no Brasil. A falta de moradia digna, saneamento básico e acesso a um bom sistema de saúde revela décadas de descaso àqueles que mais precisam.

Comentários

Comentários