Diante de qualquer ameaça, surge o instinto de sobrevivência. Em tese, ele visa preservar a vida e a boa saúde, mas alguns comportamentos podem prejudicar a sociedade como um todo, caso, agora, do desrespeito às regras da quarentena por parte de muita gente. A não observância de normas vigentes para evitar a disseminação do novo coronavírus é uma reação de fuga provocada por esta intuição humana, conforme avalia o psicólogo Arnaldo Vicente.
O profissional, que também se especializou em Terapia Cognitiva Comportamental e Conformação em Terapias Baseadas em Mindfulness, argumenta que o ser humano possui um instinto de sobrevivência sensível, mas, ao mesmo tempo, bastante reativo. Segundo ele, isso significa que, muitas vezes, diante de uma situação de vulnerabilidade, como é o caso desta pandemia, cada pessoa manifesta um comportamento diferente.
De acordo com Arnaldo, alguns cidadãos decidem focar nos recursos disponíveis para se prevenir. "Neste caso, eles pensam que não precisam ficar sem dormir por causa do atual cenário, se estão isolados. Isso também contribui para a proteção das suas famílias e dos desconhecidos. Trata-se de uma consciência intrapessoal, interpessoal e social", explica.
Outras pessoas evitam pensar na pandemia para não ficarem neuróticas. "Paralelamente, elas começam a olhar para as notícias positivas e se colocam entre uma minoria fora das estatísticas da doença. É um mecanismo de fuga que chamamos de esquiva mental, fato que gera alívio imediato", descreve.
Para o especialista, o comportamento se intensifica com o movimento antipandemia. "Muita gente não leva a sério a doença ou a desacredita totalmente, a ponto de não ligar para a morte de um desconhecido", exemplifica.
Por isso, Arnaldo acredita que tanto a região central da cidade quanto o Bar do Valdir, por exemplo, interditado no início deste mês, apresentaram grandes aglomerações de pessoas bem na semana em que o poder público decidiu flexibilizar alguns serviços.
MEIO TERMO
Existe, também, uma reação intermediária. "Ao observar as fotos dos frequentadores do Calçadão da Batista, há alguns dias, percebi que a maioria usava máscaras. Porém, as pessoas não tomavam os devidos cuidados quanto ao distanciamento social. Elas têm a consciência de que precisam cuidar de si e das suas famílias, mas não se atentam aos desconhecidos", avalia.
A saída, segundo o psicólogo, consiste em conscientizar o público de forma acolhedora. "Assim, as pessoas acabam percebendo que, ao pensarem no outro, também cuidam de si", conclui.