Foi na oficina mecânica do pai, em Marília, onde nasceu, que o atual diretor da Unidade Regional de Bauru do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de São Paulo, José Paulo Nardone, de 54 anos, descobriu a sua vocação para fiscalizar toda e qualquer movimentação financeira.
Aos 14, ele fazia os cheques e deixava os impostos em dia para ajudar a manter o negócio da família. Hoje, Nardone confere cifras bilionárias pertencentes a 42 municípios da região de Bauru e cerca de 200 órgãos estaduais nela sediados, como as universidades.
Filho do já falecido soldado Ivan Nardone e da dona de casa Maria Magdalena Nardone, de 78, o diretor do TCE tem um único irmão, o tenente Luciano Nardone, de 47.
Há 12 anos, quando assumiu a sua atual função, ele mora em Bauru com a esposa Elizabeth Chicilia Nardone, de 52, os filhos Isabela, Leonardo e Priscila, além da simpática yorkshire Mel.
Abaixo, ele conta detalhes da própria trajetória, mas sem deixar de mencionar a sua origem humilde. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - O senhor poderia falar um pouco sobre a sua origem?
José Paulo Nardone - Eu nasci em Marília. Como a minha família era bastante humilde, a minha trajetória profissional se deve aos estudos. A educação me alçou à condição que estou hoje. Graças aos meus pais e à minha esposa, que me incentivaram nas dificuldades, acabei fazendo mais de uma faculdade e várias pós-graduações.
JC - O senhor trabalha desde cedo?
Nardone - Além de ser policial, o meu pai tinha uma oficina mecânica em casa. Eu o ajudei dos 14 aos 21 anos. Na época, fazia os cheques e deixava os impostos em dia. Hoje, fiscalizo as contas públicas de 42 municípios da região de Bauru.
JC - O que o senhor estudou?
Nardone - Eu comecei a estudar Administração de Empresas tão logo saí do Ensino Médio. Fiz um estágio junto à Secretaria da Fazenda e, a partir daí, decidi tentar a carreira pública. Quando me formei, aos 21 anos, passei no concurso de escrivão da Polícia Civil. Como fui o primeiro aluno da sala, na época da faculdade, também ganhei uma especialização em Administração Empresarial. Concomitantemente, resolvi estudar Direito. Assim que concluí ambos os cursos, me matriculei em uma pós-graduação em Direito Civil e Direito Processual Civil. A ideia do mestrado em Direito do Estado surgiu quando já estava no TCE.
JC - Quando entrou no TCE?
Nardone - Uma década depois que comecei a trabalhar junto à Polícia Civil, saí da corporação para assumir a função de agente fiscal do TCE, ainda na minha cidade natal. Estou há 32 anos na carreira pública.
JC - O senhor também trabalha como professor?
Nardone - Além da minha atuação junto ao Tribunal de Contas, eu sou professor nos cursos de Administração de Empresas e Ciências Contábeis das Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Em Marília, já lecionei na Fundação Bradesco e Univem, onde sempre estudei. Inclusive, uso a minha trajetória para mostrar aos meus alunos que o Brasil tem inúmeros problemas, mas nos permite crescer na escala socioeconômica. A educação é o nosso elevador.
JC - Quando chegou a Bauru?
Nardone - Há pouco mais de dez anos, eu fui promovido a diretor e assumi o cargo em Registro, no Vale do Ribeira. Pouco tempo depois, cheguei a Bauru para desenvolver a mesma função.
JC - A experiência acadêmica do senhor fez a diferença na hora de assumir um cargo de chefia junto ao Tribunal de Contas?
Nardone - Muita. Aliás, eu acredito que um dos motivos para eu ter alavancado na carreira foi, justamente, a minha evolução acadêmica.
JC - Qual é a importância do TCE, principalmente, neste período de eleições municipais?
Nardone - Na nossa região de atuação, nós fiscalizamos as contas de 42 municípios e cerca de 200 órgãos estaduais neles sediados. A demanda é alta, mas contamos com o respaldo da tecnologia, que nos permite checar as informações em tempo real. Inclusive, temos até um satélite para verificar o andamento das obras. Mais do que identificar possíveis problemas, ajudamos os gestores a errar menos e, consequentemente, fazer bom uso do dinheiro público.
JC - Qual é o maior desafio dos gestores públicos?
Nardone - Lidar com a desinformação. Muitos não estão preparados para enfrentar as dificuldades da administração pública. O Estado é altamente burocratizado e, por isso, exige o cumprimento de inúmeras regras. Eles querem fazer intervenções necessárias às suas respectivas comunidades, mas se deparam com a necessidade de licitar, fato que leva tempo.
JC - Então, em sua opinião, a maioria das irregularidades não é intencional?
Nardone - Eu não posso ser ingênuo e dizer que a corrupção não existe. Em um primeiro momento, olho para um gestor público como alguém interessado em contribuir para a sua comunidade. Isso só mudará quando algo me apontar o contrário. Porém, acredito que, hoje, todos estejam mais cautelosos, principalmente, pela coação da sociedade e das instituições.
JC - O senhor fiscaliza as contas da sua vida privada com o mesmo rigor que o faz com as públicas?
Nardone - Não. Eu não consigo ser auditor 100% do tempo e, quando não estou no trabalho, gosto de viajar, tomar um bom vinho etc. Enfim, me dou o direito de relaxar um pouquinho.