Desde que foi inventado, o marcapasso é responsável por manter batendo o coração de milhares de pessoas que sofrem de insuficiência cardíaca ao redor do mundo. Dentre elas, está o geneticista Esiquiel de Miranda, de 66 anos, que está vivo graças a essa tecnologia. Ele tem a atividade do coração abaixo do ideal em decorrência da doença de Chagas e, há 50 anos, um marcapasso mantém seu coração funcionando. No último dia 23, inclusive, foi celebrado o Dia do Portador do Marcapasso.
A frequência cardíaca de um adulto saudável apresenta uma variação entre 60 e 100 batimentos por minuto (bpm). A do Esiquiel, porém, era de 30 bpm, em média. "A primeira vez que desmaiei, estava sobre um telhado, fazendo a manutenção de uma antena de televisão. Meu tio sentiu minha falta e me encontrou pendurado no cano da antena. Por sorte, não caí", lembra o portador. "Procurei um hospital e foi constatado o inchaço no coração. O médico disse que eu tinha 6 meses de vida apenas".
Esse mesmo médico foi responsável por levá-lo, na época com 16 anos, até Ribeirão Preto (SP), para tentar implantar um marcapasso e preservar a vida do paciente. "Antes, eu sentia que vivia em um pesadelo, porque não conseguia nem me mexer normalmente. Mas no momento em que o marcapasso foi ligado, senti como se tivessem assoprado oxigênio dentro do meu corpo. Percebi que até minha audição melhorou", conta.
CAMPANHA
Porém, naquele período, a tecnologia ainda era muito cara. Como exigia manutenção anual, já no segundo reparo, ele não tinha condições de arcar com os custos. "Nesse momento, contei com a ajuda da sociedade. Inclusive, enviei uma carta para o Jornal da Cidade, que fez uma campanha e conseguiu arrecadar recursos para que eu trocasse o aparelho", lembra, em tom de gratidão.
A edição do JC, do dia 10 de dezembro de 1972, trazia na capa um apelo em busca de ajuda financeira para preservar a vida de Esiquiel. "O aparelho que está usando só tem capacidade de assistência até o dia 23 próximo, antevéspera de Natal", dizia o texto da época. Segundo o que foi publicado na edição seguinte, às 16h do domingo, a campanha já tinha atingido seu objetivo.
TRANSFORMAÇÃO
Nesses 50 anos, Esiquiel já utilizou nove marcapassos, dos mais diversos modelos. Isso porque, no início, o aparelho era grande, externo e exigia manutenção anual. Atualmente, ele é menor, interno, e a bateria pode durar pelo menos 15 anos. Contando com o dispositivo para manter seu coração batendo, ele formou-se em biologia e especializou-se em genética, atuando durante mais de 30 anos no Centrinho, em Bauru.
Inclusive, há mais de 30 anos, ele é acompanhado e assistido pelos cardiologistas Antonio Estéfano Germano e Antônio Carlos Braulio de Camargo, em Bauru.
"Tenho dependência física do dispositivo. Se ele parar, eu desmaio, porque ele mantém minha frequência cardíaca em 72 bpm, mesmo que eu esteja fazendo exercícios ou dormindo", explica. "Por isso, sou grato ao marcapasso. Graças a ele, a previsão de 6 meses não se concretizou e eu pude construir minha vida. Me tornei uma pessoa que luta pela vida", finaliza.