O título é sensacionalista, admito: Anos, por si, são só uma convenção do passar do tempo; não há lucidez - ou a falta dela - em um termo abstrato. No entanto, é pertinente lembrar a origem desta contagem: a cada 365 dias, aproximadamente, o globo terrestre dá uma volta completa em torno do sol, em sua órbita costumeira. E o dia, nossa unidade de 24 horas, se dá pela rotação da terra.
Isso é algo que as nossas professoras nos ensinam no primário, dirão. Tudo isso, e muito mais, é fruto da ciência.
Ciência que, em 2020, está sendo massacrada. As teorias da conspiração, o ódio político, a pseudociência, tomaram de assalto as discussões, levando a "arte" da dialética erística para públicos diversos dos costumeiros. Se antes a pessoa precisaria ler as obras complexas de Schopenhauer para virar um mestre nessa área, hoje temos o muito mais acessível Olavo de Carvalho. Qualquer um versa sobre qualquer coisa: O formato do planeta, a sistemática política, e a pandemia. Ah, a pandemia.
Digo que 2020 é um ano dos mais lúcidos porque, apesar dos pesares, a ciência está vencendo o obscurantismo. Não é fácil lutar contra dois monstros ao mesmo tempo: O vírus e a ignorância. A ciência resiste a todos os ataques: Vacinas em tempo recorde, protocolos de saúde que reduziram a mortalidade pelo covid-19, pesquisas que desmistificam todos os tratamentos alternativos que a crendice e o oportunismo nos empurraram. É ela quem nos diz quando devemos sair, quando devemos nos isolar, inclusive com os estudos de impacto a economia.
Como homem da ciência, lhes digo: É uma batalha diária. Alguns dias atrás, fiz um exame médico e, durante uma conversa com uma enfermeira, ela contou-me que foi ameaçada. Que pessoas se recusaram a atendê-la no comércio. Relatou-me o caso não com um tom de medo, mas com a altivez de quem sabia que tinha razão. A lucidez sempre vence a loucura.
Opinião, todos tem. E todos devem ter, é uma das qualidades imperativas de uma democracia saudável. Só devemos tomar cuidado com o sofisma. Mas, aos lúcidos - e somos muitos - a esperança: Por mais louco que este ano pareça, devemos celebrar com entusiasmo que a razão ainda domina o mundo. Por enquanto, permaneçamos vigilantes. Para cada um descarregando suas teorias da conspiração, alguém sensato está fazendo o que realmente precisa ser feito.
O autor é colaborador de Opinião.