A crise hídrica traduzida em torneiras secas nas casas de milhares de bauruenses expõe, mais uma vez, não apenas estatísticas de calor e estiagem em níveis extremos. O pano de fundo para a grave situação enfrentada por Bauru hoje passa pela exploração pouco sustentável do Rio Batalha durante décadas, sem que o manancial e seu entorno recebessem ações efetivas e permanentes para sua recomposição e manutenção.
Assim, o racionamento de água em 2020 volta a escancarar a condição agonizante do rio, que sofre com assoreamento, desmatamento da mata ciliar, erosões e ocupação irregular no entorno do rio, apenas para citar alguns dos problemas mais graves.
Chefe da seção de recursos naturais da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra), o engenheiro florestal Gabriel Guimarães Motta revela que a maioria dos afluentes da Bacia do Alto Batalha - que abrange o trecho entre a nascente, na Serra da Jacutinga, em Agudos, até o ponto de captação de água do DAE, em Bauru - sofreu redução de sua extensão.
Tendo como parâmetro imagens registradas pelo Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC-SP) na década de 1960, estes afluentes perderam, em média, de 400 a 500 metros de extensão até agora.
"É um recuo provocado pelo desmatamento para abertura de pastagens. O gado pisoteia estas nascentes, tratores passam e elas vão sendo assoreadas. Com isso, passaram a levar menor volume de água para o Batalha e, se continuarem sendo degradadas, tendem a desaparecer, como já aconteceu com alguns", pontua Motta, que foi indicado pela Prefeitura e pelo DAE para falar com o JC sobre o assunto.
VAZAMENTOS
Além dos afluentes, o próprio leito do rio também vem sofrendo com o assoreamento ao longo das décadas. Assim como as pastagens, Motta aponta que as ferrovias e rodovias, construídas sem a retaguarda de dissipadores ou caixas de detenção, contribuem para que sedimentos sejam arrastados para o Batalha durante as chuvas.
Um especialista ouvido pelo JC também pontua que as inúmeras plantações de eucalipto na região ajudam a reduzir o volume de água do rio, já que estas são árvores que absorvem grande quantidade de água para se sustentarem. Outro problema a ser enfrentado é o fato de o DAE registrar perdas de aproximadamente 45% entre a produção e distribuição de água.
"O Batalha abastece 37% da população de Bauru. É muita gente. Então, além de conter a degradação do rio, é preciso perfurar mais poços para diminuir a sobrecarga do rio e realizar melhorias na rede de água para reduzir a proporção de vazamentos", observa Samir Gibran Junior, gestor ambiental Bio GS Ambiental.
Gabriel Motta acrescenta outras medidas. "No curto prazo, há necessidade de iniciar o desassoreamento do rio a partir da lagoa de captação até a nascente. No médio prazo, garantir a manutenção das estradas rurais e o terraceamento e, no longo prazo, reflorestar todas as áreas degradadas", afirma.
Ainda de acordo com o engenheiro ambiental, a criação de um segundo ponto de captação do Rio Batalha, proposta pelo DAE e Prefeitura, só duplicaria o problema, já que a área da bacia que precisaria receber as devidas ações de conservação e recomposição também seria duplicada. "Não dá para dizer que nada foi feito até agora, mas o que foi feito ainda é muito pouco", completa.