Articulistas

Vem por aqui!

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Diz-me a voz doce que mora dentro de mim. Estende-me a mão sorrindo, apontando-me o caminho com a segurança de quem sabe o que é melhor para mim. Dinheiro terei em todos os bolsos, camisa de linho, gravata italiana de seda, diploma de doutor em parede por todos admirada. Promete-me ainda mais. Serei amigo do rei, terei mulher bonita no altar, também na cama que escolherei. Em Pasárgada, serei amigo de cerveja do Bandeira, conversaremos sobre nada e riremos de tudo em tardes deliciosas e inteiras.

Confesso que quase me entreguei a convite assim irresistível. De malas feitas, comprei bilhete de partida, mas hesitei e não parti. Desconfiado que sou, deixei um pé atrás, pois promessa assim em demasia fez o meu santo desconfiar. Vem por aqui! É o que repete incansavelmente essa voz autoritária que mora dentro de mim. Por que tanto interesse em me levar pelas mãos por caminhos que não escolhi. Por que tamanha insistência em me ofertar vida assim tão pronta e boa? Por que sapato tão folgado haveria de me servir? Então, lembrei-me do poeta José Régio, em Cântico Negro. Com que coragem e espetacular contundência, o poeta português recusa igual convite: "Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos... Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos a ir por aí".

Também não irei por aí. Com que direito essa voz insidiosa quer tirar de mim o direito que tenho de ser eu? Não sendo o que sou, nada mais poderei ser, tudo em mim será plágio ou deslavada mentira. Preciso arrumar forças para assumir o desejo feroz que me habita, tirar a máscara que me cobre a cara feia e rasgar o contrato que me proíbe de me encontrar. Muito pouco tenho, menos ainda sou, mas tudo o que devo fazer é desescutar essa voz que quer me levar para longe de mim. Tenho nos meus ouvidos voz melhor a escutar, os versos de Pessoa: "Procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu..."

Como é difícil preservar-se, viver atendendo a si mesmo e às pulsões dos desejos mais fundos, ser pecador por humano ser, um desatinado que recusa a estrada oferecida, um sonhador com parafusos a menos ou a mais. Como é difícil nos livrarmos desse coro de vozes que grita no tribunal das nossas cabeças e nos condena por não seguirmos o caminho adredemente marcado. Vem por aqui! Vem por aqui! Não, não vou por aí! E assim, curvam-se os nossos ombros sob o peso de enorme culpa

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e de ficção.

Comentários

Comentários