Tribuna do Leitor

Populares nas eleições: o que a Antiguidade pode nos ensinar?

Lourdes M. G. Conde Feitosa - Doutora em História Cultural - Professora do curso de História - Coordenadora do Lato Sensu História, Cultura e Poder Unisagrado - Bauru
| Tempo de leitura: 3 min

A expressão 'jogo político' nos remete, comumente, às ações de escolher ou ser escolhido em uma disputa eleitoral. Mas se um homem ou mulher não possuir a cidadania política, como chamamos, participa ela do jogo? O fato de não votar ou ser votado/a a descarta da jogada? Uma resposta positiva, em princípio óbvia, ganha complexidade quando analisamos os grafites das paredes da Pompéia Romana do século I d.C.. Nela, milhares de escritos foram encontrados em muros, edifícios públicos, tabernas, locais de trabalho, casas, ou seja, em quase todos os espaços disponíveis nas paredes da cidade.

Esses registros eram feitos por populares. Como sabemos disso? As características do texto mostram que o latim usado estava longe das regras gramaticais da norma culta da época. Se para alguns o seu aprendizado era fruto dos poucos anos passados nos bancos escolares, para outros era resultado da labuta cotidiana, do contato com imigrantes, com o comércio, com a prestação do serviço militar e dos momentos de lazer em que ouviam declamações de poesias e leituras de livros nas apresentações em vias públicas.

E quem eram estes populares e como interpretar suas manifestações de apoio a candidatos políticos? A indicação mais comum destes é a sua condição de trabalhador. Por meio dos grafites, essas pessoas referenciavam os ofícios e associações profissionais aos quais pertenciam, como proprietários de pequenas tabernas, oficinas e padarias; atividades independentes na função de professor, alfaiate, vendedor de roupas e joias; além de inúmeras associações de trabalhadores como as do pomari [vendedores de frutas], muliones [cocheiros], aurificis [ourives], pistori [padeiros], lignari [lenhadores], aliarii [vendedores de alho] e galinarii [vendedores de aves], fullones [pisoeiros], unguentari [perfumistas], culinari [ajudantes de cozinha], caupones [taberneiros] e agricolae [trabalhadores agrícolas].

Destes, pouco se sabe se eram livre, libertos ou escravos, mas os nomes citados nos mostram aspectos de sua composição social. Caprasia e Nymphio, Felix, Fuscus e Vaccula, Losimio, Hermes, Iphigenia, Hilario, Narcissus, Fortunatus e Anthusa, Aegle, Maria e Pollia (grafias preservadas no original) sinalizam apenas o seu cognome, sem nome da família, distante dos três nomes característicos dos cidadãos aristocráticos - prenome, nome de família e o epíteto; também eram de origem estrangeira, como grega, judaica, árabe, "oriental". Todos eles de procedência humilde e sujeitos às relações de opressão e exploração originárias da base escravista que vigorava.

São estas referências encontradas em centenas de registros de apoio às campanhas políticas dos dois cargos administrativos escolhidos anualmente em Pompeia: dois Duúnviros e dois Edis. Estes se dedicavam ao ordo decurionum (conselho local responsável pela administração da justiça, das finanças, abastecimento de alimentos, construções e manutenção da ordem pública). Para ocupar estes cargos, o requisito era ser cidadão, ter recursos financeiros e uma profissão honrosa, diferente das citadas acima.

Alguns exemplos mostram esta participação, provavelmente elaborados poucos anos antes da cidade ser coberta pela erupção do Vesúvio no ano de 79: 'Perfumistas e pobres pedem que elejam Modesto para edil. (CIL, IV, 9932a)', 'Os vendedores de fruta rogam para edil Marco Enio Sabino. (CIL, IV, 180)', 'O professor Saturnino, com os seus alunos, indicam Caio Cuspio Pansam para o cargo de edil. (CIL, IV, 275)', 'L. Albúcio para edil. O liberto Thesmo pede. (CIL, IV, 983)', 'Cerialo roga para que Paquio seja eleito como duúnviro. (CIL, IV, 7671)', 'Fusco e Vaculla indicam para edil Aulo Vettio Firmo. (CIL, IV, 175)', 'Ifigênia indica Fusco para edil. (CIL, IV, 457)', 'Maria roga para que seja eleito como edil Caio Helvio Sabino, digno do cargo público. (CIL, IV, 7866)', 'Peço que façam edil a A. Vétio Firmo, pois é digno do cargo. Caprasia com Ninfio e os vizinhos pedem que o façam (edil). (CIL, IV, 171)'

Estes grafites evidenciam o apoio de trabalhadores, mulheres e homens que colocaram a serviço de seu candidato o seu apoio e, principalmente, uma rede de relações pessoais razoavelmente expandida, mesmo sem nele poderem votar. Atitude que nos faz refletir que mais importante do que ter o título eleitoral talvez seja a participação ativa na comunidade por meio de opiniões, discussões políticas e atenção às propostas daqueles que cuidarão dos bens coletivos.

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