Acostumados ao dinamismo característico do mundo digital, alunos da Escola Estadual Professor Christino Cabral, no Jardim Estoril, em Bauru, têm aprendido como funciona a espera por uma correspondência em carta. E não é só isso! Por meio dos projetos "Penpal" e "IsoladaMente", desenvolvidos pela professora da Sala de Leitura Vânia Maria Theodoro Pinheiro, a interação entre eles saiu apenas das telas dos celulares e - ainda que com o auxílio delas - passou a ser mais criativa e manual, para driblar o desânimo dos alunos, neste ano.
Tudo começou quando a pandemia impossibilitou que a professora estreitasse os laços com seus alunos, como fez em todos os anos com suas aulas na Sala de Leitura. Em um primeiro momento, a atribuição de Vânia era entrar em contato com os alunos. Mas, com um grupo gestor que já estava cuidando disso, ela se viu na necessidade de inventar outras formas de estar próxima dos estudantes. "Foi um sufoco para engajar os alunos no início da pandemia, mas fui conseguindo, nunca desisti de captar um novo aluno. Hoje, estou em contato com 112 alunos e, até o final do ano, pretendo conseguir que mais participem", afirma Vânia, que usa o WhatsApp para enviar mensagens e áudios aos pais e alunos, mas com outras finalidades.
POR CARTAS
A mais recente iniciativa da professora não tem a ver com o celular. Pelo contrário, convida a lembrar como era esperar por uma carta chegar pelos Correios. "Uma aluna, a Lorena, deu a sugestão para que eu e ela mantivéssemos contato por 'Penpal'. No início, não sabia do que se tratava, mas ela explicou que é um termo em inglês para denominar 'amigos por correspondência'. Uma prática em que trocamos cartas falando sobre nós e enviamos juntos, outros elementos que chamam a atenção", explica.
A ideia vingou e começou a ser aplicada com os demais alunos. A professora informou os pais sobre a prática e combina com eles determinados dias em que vai até a casa do aluno para deixar sua cartinha na caixa de correio. Eles, no entanto, respondem ao remetente deixando a cartinha na escola. "Sempre que pego uma cartinha nova é uma emoção", diz. "No pátio da escola, criei uma casinha iluminada para o projeto. Algumas alunas já estiveram lá para declamar poesias e tocar violão", completa a professora, que também busca livros na biblioteca e deixa na casa dos alunos quando é solicitada.
FOTOS E VÍDEOS
Já com a ajuda da tecnologia, desde 5 de maio, a professora vem desenvolvendo o projeto "IsoladaMente". Nesta iniciativa, o objetivo é fazer com que os alunos compartilhem suas experiências de quarentena por meio de relatos, poesias, fotografias e vídeos. "Não seria possível ficar só indicando livros para eles, apesar de continuarmos com Sala de Leitura virtual. Eu quis ouvir o que eles têm visto de diferente na casa deles, sentido durante esse tempo, pensado. Para isso, dou temas e eles me enviam seus materiais", conta.
E foram vários! Segundo a professora, diversos materiais foram enviados, surpreendendo e animando a profissional diariamente. "Aproveitei minha criatividade para levar a leitura de uma outra forma e eu consegui resultados maravilhosos. Tenho várias fotos, relatos, poesias, vídeos, músicas, indicações de filmes. Um aluno novo na escola, gravou o vídeo de uma crônica linda que escreveu sobre o racismo. Ele é um dos alunos muito dedicados ao projeto", finaliza.