Entrevista da semana

69 anos de prefeitura: 'Vi a cidade crescer'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Foi na gestão de Octávio Pinheiro Brisolla, em 1951, que Delmar Baptista dos Santos começou a trabalhar na Prefeitura de Bauru. Com o mesmo entusiasmo daquela época, o profissional conta que dedicou 69 dos seus 85 anos de vida ao serviço público local. Aposentado desde 1992, o servidor entrou como estagiário e pretende sair enquanto engenheiro civil só no último dia de 2020. "Quero aproveitar para viajar, ver futebol e pescar", narra. Ao longo de quase sete décadas, Delmar acompanhou várias construções importantes para o município, incluindo as obras das avenidas Nações Unidas e Nações Norte. "Vi a cidade crescer", complementa.

Natural de Ouro Fino, em Minas Gerais, o profissional chegou a Bauru em 1950, assim que terminou o ginásio. A família deixou a sua terra natal para acompanhar o pai de Delmar, o mestre de obras João Baptista dos Santos. Ele foi contratado para construir o primeiro pavilhão do complexo que se tornaria a Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Aqui, Delmar estudou, trabalhou e constituiu família. Viúvo da também servidora municipal Nereide Arruda dos Santos, com quem teve os filhos Paulo, Amauri e Daniela, o engenheiro civil se casou de novo com a professora Cerinéia Cerqueira Leite, de 71. Com isso, o profissional ganhou três enteados: Natasha, Cleber e Aline. O casal já conta com dez netos.

Abaixo, Delmar faz um balanço da sua trajetória pessoal e profissional, que se mescla com a da cidade onde escolheu viver. Confira alguns trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor é mineiro. Como chegou a Bauru?

Delmar Baptista dos Santos - O meu pai era construtor, mas virou fiscal de fazenda tão logo eu nasci até eu completar 9 anos. Logo, passei boa parte da minha infância na área rural de Ouro Fino. Depois, nós voltamos para a cidade, momento em que ele retomou o seu ofício anterior. Cursei os últimos anos da educação básica no Ginásio Guararapes, que pertencia a Antônio Eufrásio de Toledo. Ele trouxe o meu pai a Bauru, em 1949, para começar a construção do primeiro pavilhão do complexo que se tornaria a ITE. O restante da família se mudou no ano seguinte.

JC - O senhor se inspirou no seu pai na hora de escolher a profissão?

Delmar - Eu escolhi fazer engenharia civil por causa do meu pai. Lembro que, desde pequeno, levava o almoço para ele nas obras e acabava me envolvendo. Em 1951, tão logo cheguei a Bauru, integrei a primeira turma da Escola Técnica de Pontes e Estradas.

JC - Foi neste momento que surgiu a oportunidade de entrar para o serviço público local?

Delmar - Sim. Eu trabalhei como estagiário da Secretaria Municipal de Obras entre 1951 e 1953. Assim que terminei o curso técnico, me contrataram como desenhista. Dois anos depois, o topógrafo se aposentou e assumi o seu lugar. Em 1960, na gestão do prefeito Irineu Bastos, o poder público implantou o Cadastro Imobiliário Físico Municipal. Então, saí da Obras para atuar como supervisor de Aprovação de Projetos Particulares da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), por onde me aposentei, em 1992, após quatro décadas de contribuição. Lá, também conheci a minha primeira esposa. Nós nos casamos em 1969 e ela faleceu em 1990.

JC - O senhor se aposentou em 1992, mas não parou de trabalhar...

Delmar - Eu fiquei seis meses aposentado até o Tidei de Lima assumir, em 1993. O então diretor do Departamento de Topografia da Secretaria de Obras, Gerson de Almeida, me chamou para trabalhar na pasta como engenheiro civil, cargo que ocupo até hoje. Só pretendo parar no final desta administração, em 31 de dezembro deste ano, por causa da idade. Já estou com 85 anos e quero aproveitar para viajar, ver futebol e pescar. E outra: tem tanta gente formada precisando de emprego. Me sinto, às vezes, ocupando o lugar de quem necessita mais.

JC - E a graduação?

Delmar - A graduação veio depois de pouco mais de uma década de serviço público. Eu e Juranir Salas Berbel estudávamos todas as noites na casa de outro colega, Arlindo Figueiredo, para prestar Engenharia Civil na Fundação Educacional de Bauru - hoje, Unesp. Nós três conseguimos passar no mesmo ano: 1970.

JC - Como o senhor conheceu a sua atual esposa?

Delmar - Ela morava em Birigui, onde a minha irmã caçula também vivia. Ela, inclusive, nos apresentou e nos casamos em 1997, sete anos após a morte da minha primeira esposa.

JC - As dificuldades do serviço público sempre foram as mesmas?

Delmar - Sim. Entre elas, eu destaco a falta de funcionários e equipamentos. Muita gente boa que se aposenta não é reposta. Mesmo assim, todos os servidores vestem a camisa.

JC - O que mudou de lá para cá?

Delmar - A cidade cresceu e, consequentemente, o efetivo da prefeitura também. Dos 2 mil servidores que havia quando eu entrei, o município passou a abrigar, hoje, cerca de 6 mil. Além disso, tudo está informatizado. Na época, nós fazíamos uma espécie de trabalho braçal em cima das máquinas de escrever.

JC - O senhor também acompanhou o crescimento da cidade. Destacaria alguma obra que contou com a sua colaboração?

Delmar - Eu conheço Bauru como a palma das minhas mãos. Na gestão de Edmundo Coube, o sistema viário cresceu bastante. Daí surgiu a avenida Nações Unidas, construção que acompanhei de perto, embora as obras tenham ficado a cargo de uma empresa que venceu a licitação. Também trabalhei bastante com o arquiteto Jurandyr Bueno.

JC - O que o senhor aprendeu com toda esta experiência?

Delmar - Tudo o que eu tenho devo à prefeitura, que foi o meu primeiro e único emprego formal. Paralelamente, mantive um escritório, em parceria com o meu amigo Juranir, por 22 anos, chamado Copiadora Bauru, que ficava no Edifício Pagani. Nós trabalhávamos à noite. Enfim, creio que cumpri a minha missão.

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